quinta, 21 de janeiro de 2021

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Estreia hoje, em Campina Grande a peça ‘Caliban – A Tempestade’

Audaci Junior / 29 de março de 2017
Foto: Divulgação
“Somos todos Caliban” é a ideia central do novo espetáculo da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz (RS), grupo de teatro de rua que comemora 39 anos de existência sendo homenageado na 20ª edição do Palco Giratório do Sesc.

Com apresentação gratuita, Caliban - A Tempestade de Augusto Boal terá sua estreia nacional nesta quarta-feira, às 16h, na Praça da Bandeira, em Campina Grande.

O projeto do Sesc segue na cidade até o próximo domingo. Este ano, o Palco Giratório visitará 144 cidades em 26 estados e no Distrito Federal, com 20 companhias de teatro, somando 685 apresentações artísticas e 1.188 horas de oficinas.

“Não é uma versão. É uma resposta ao Shakespeare”, explica a atriz Tânia Farias, que participou junto com os outros membros da elaboração da dramaturgia de Caliban, baseada no texto escrito em 1974 pelo carioca Augusto Boal (1931-2009) no exílio.

Enquanto a peça A Tempestade, do bardo inglês, posiciona o colonizador europeu no centro (na figura do Próspero, o duque de Milão destituído, que planeja vingança numa ilha remota), a ideia de Boal é observar a trama pelos olhos do colonizado, inspirado por um estudo sobre Caliban do poeta e ensaísta cubano Roberto Fernández Retamar, a quem o brasileiro dedicou a obra. Na peça shakespeariana do século XVII, o “antagonista” é depreciado e descrito como um selvagem deformado.

Para Tânia Farias, essa questão permanece atual, pois muitos países continuam sofrendo golpes por estarem se politizando e isso continua sendo intolerável para o “colonizador”. “A rota na qual Boal estava escrevendo o Caliban está acontecendo hoje, infelizmente”.

Na versão de Boal, Próspero é tão perverso quanto os nobres europeus que usurparam o seu poder. Todos representam a violenta dominação colonial e cultural. A filha de Próspero, Miranda, e o príncipe de Nápoles, Fernando, fazem uma aliança não por amor como na peça original, mas por interesses capitalistas.

Já Ariel, o “espírito do ar”, representa o artista alienado, mescla de escravo e mercenário a serviço da ordem constituída. Apenas Caliban se revolta até ser derrotado. Os vilões permanecem na “ilha tropical” para escravizá-lo, porém – mesmo nesta condição – Caliban resiste.

Coletividade. Engana-se em pensar que, por se tratar de teatro de rua, Caliban - A Tempestade de Augusto Boal seja uma produção ‘modesta’.

Segundo a atriz da trupe gaúcha, seguiu viagem à Paraíba uma carreta cheia de equipamentos, figurinos e elementos cênicos.

“A ideia é que o teatro de rua não precisa economizar. O espetáculo tem uma força visual, presença de coros, alegorias de dimensões épicas, cenografia, máscaras... O Caliban vai se multiplicar para dar noção de coletividade”, revela Tânia Farias. “A peça está cheia de canções a partir do texto de Boal, feita por Johann Alex de Souza, que trabalha há muito tempo conosco. Haverá muitos instrumentos, como trombone, vários tambores, caixa, pandeiro, violão e guitarra”.

Com os espaços públicos cada vez mais escassos ou privatizados, a luta da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz combater o preconceito por suas características democráticas e populares, de acordo com Tânia, pois apresenta a arte não necessariamente a um público ligado ao gênero.

“Confere ao teatro de rua o caráter vivo e permanente, especialmente neste contexto”, assinala. “A Natureza do teatro é sempre lidar com o imprevisto. A rua acaba sendo o lugar onde isto é potencializado”.

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