quarta, 26 de junho de 2019
Artes
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Espetáculo ‘Nossos mortos’ une tragédia grega e massacres brasileiros

André Luiz Maia / 08 de junho de 2019
Foto: Luiz alves/Divulgaçã
O direito a velar e enterrar nossos mortos é inalienável. Bom, ao menos deveria ser. Desde a Antiguidade, essa questão é abordada, seja na sofisticação da ficção, seja na crueza da vida real. O espetáculo Nossos Mortos, do Teatro Máquina, faz uma costura decorrente de uma costura robusta, conectando massacres e tragédias brasileiros ao clássico do teatro grego, Antígona.

O grupo cearense apresenta hoje mais uma sessão do espetáculo no Centro Cultural Banco do Nordeste, em Sousa. A diretora da peça, Fran Teixeira, faz questão de salientar a forma como os paraibanos acolheram os espetáculos apresentados pela companhia ao longo dos anos no estado. “É realmente impressionante, o carinho e o interesse do público pelo nosso trabalho não é habitual, acho que apenas em Porto Alegre encontramos uma resposta tão positiva quanto à da Paraíba”, ressalta.

Nossos Mortos traz a voz de Antígona articulada às inúmeras histórias dos massacres a movimentos populares, especialmente o Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, em Crato, Ceará. O massacre em Canudos, na Bahia, também é abordado. A ideia de conectar esses acontecimentos ao clássico da tragédia grega surge de maneira orgânica, devido a uma circulação que o Teatro Máquina fez por estados do Nordeste em 2015.

“O projeto Sete Estrelas do Grande Carro, patrocinado pelo Itaú Cultural, fez com que cinco artistas do nosso grupo, um cineasta e um músico circulassem por três localidades do Sertão nordestino. No meio do caminho, paramos em Juazeiro do Norte. Aí veio a ideia de visitar o Caldeirão da Santa Cruz do Deserto”, relembra a diretora.

O sítio foi palco, entre as décadas de 1920 e 1930, de uma experiência messiânica, liderada pelo beato José Lourenço, que recebe o terreno pelas mãos do próprio Padre Cícero. “Atraídos pela fé e pela ideia de conviver ao redor de Padre Cícero, um grupo de pessoas passou a conviver em espécie de comunidade, cultivando práticas de troca e escambo, ao invés da compra e da venda. O governo brasileiro viu isso tudo com maus olhos, achando que era uma experiência comunista”, conta Fran Teixeira.

O resultado é escabroso. Mais de mil mortos, com pouquíssimos sobreviventes, sendo que a maioria destes corpos foram enterrados em local desconhecido até hoje, impedindo que seus familiares pudessem velá-los e identificá-los.

Ao entrar em contato com essa história e uma leitura casual de Fran de Antígona fizeram com que o grupo começasse a arquitetar um esboço do que viria a ser Nossos Mortos. “Durante a viagem, também passamos por Canudos, na Bahia, e no Sítio do Mocó, no Piauí.

Neste último, conhecemos a história de uma comunidade que precisou ser removida do local ao se descobrir seu patrimônio arqueológico, mas que precisou deixar para trás seu cemitério pela impossibilidade de movê-lo dali. Isso tudo apenas solidificou essa ideia da peça. Queremos falar sobre esses cadáveres esquecidos, seja por serem resultado da máquina de opressão do Estado, seja pela negligência de figuras de poder com interesse em fazer uma investigação apropriada sobre o assunto”, explica a diretora, ressaltando que o Teatro Máquina tem caráter de teatro político em suas montagens e que esta não é diferente.

Em Antígona, vemos a história de uma irmã que deseja enterrar o irmão, mas que é impedida por seu tio, agora general, já que o morto em questão é considerado um traidor. No texto da peça, o grupo utiliza o diálogo entre ela e sua irmã. Ismênia, durante a tentativa de se despedir do irmão morto e, com dramaturgia própria, fazem as conexões com os massacres da história do nosso país. “A discussão essencial do texto é sobre a justiça. Afinal, o que é realmente justo?”, completa Fran Teixeira.

‘Nossos mortos’



Do Teatro Máquina (CE). Direção: Fran Teixeira.

Hoje, às 19h30.

Centro Cultural Banco do Nordeste (R. Coronel José Gomes de Sá, 7, Centro, Sousa – 3522.2980 – https://www.bnb.gov.br/centro-cultural-sousa – http://www.facebook.com.br/ccbnb)

Entrada franca

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