quinta, 22 de abril de 2021

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Espetáculo ‘Anáguas’ volta a ser apresentado no Conde

Rammom Monte / 19 de março de 2019
Foto: Divulgação
Uma história de três Marias. Cada uma do seu jeito e particularidade. Em comum, a influência do patriarcalismo em suas vidas e a tentativa do rompimento e superação do mesmo. É o que conta a peça Anáguas, que volta a ser encenado amanhã na cidade do Conde. O espetáculo acontecerá a partir das 19h no Centro de Criatividade Professor Iveraldo Lucena. A entrada é gratuita.

Anáguas retrata a história de três mulheres (a mãe, Maria das Graças; a filha considerada o esteio da família, Maria Exaurina; e a filha mais nova que é considerada a ovelha negra, Maria Cândida); que lutam, cada uma à sua maneira, para se manterem fieis aos seus princípios. Com isso, são capazes de passar por cima de seus próprios egos liberando o que há de mais cruel no ser humano: conflitos, desarmonia, egoísmo, injustiças, condenação que permeiam o espetáculo do inicio ao fim.

Essas três mulheres mostram também, suas fraquezas e se apoiam no próprio seio familiar. A direção optou por uma montagem triangular e atemporal, três escadas definem o espaço trabalhado pelas atrizes que dão vida as personagens. As escadas definem bem a intenção do poder que essas mulheres pretendem exercer diante da família.

O espectador é pego de surpresa, e ao mesmo tempo em que vislumbra o espetáculo, é parte essencial dele, chegando a contracenar com as atrizes em meio ao desfecho da peça que vai cada vez mais sendo envolvido nesse triângulo, uma das formas geométricas de maior ligação entre as pessoas ou qualquer outra manifestação.

O texto do espetáculo, que foi encenado pela primeira vez em 2011, é da dramaturga paraibana Lourdes Nunes Ramalho. A direção é de José Maciel. E as três Marias são interpretadas por Margarida Santos, Mônica Macedo e Palmira Palhano.

Mônica Macedo falou um pouco sobre o espetáculo e sobre a sua ligação com a atualidade, apesar do texto ser antigo. Com oito anos de encenação, Mônica ressaltou o amadurecimento das atrizes e da peça em si.

“Não mudou nada na dramaturgia em si. O que mudou foi o amadurecimento do espetáculo, que se tornou mais orgânico com relação à interpretação das atrizes. O nosso diretor José Maciel já disse algumas vezes que, desde o princípio até hoje, as duas coisas que prevalecem é a dramaturgia e o trabalho de interpretação. A questão da interiorização das personagens. Com o tempo, o espetáculo só vai enriquecendo, maturando esta relação entre atriz e dramaturgia”, analisou.

Mônica ainda fez um breve resumo sobre o que o espectador pode esperar do espetáculo.

"É um texto intimista, que fala sobre a situação da mulher no seio familiar. A família em si permanece com os mesmos problemas do passado, questão de patriarcalismo, a figura masculina como algo muito dominante dentro desta estrutura", resumiu.

Segundo Mônica, o texto de Anáguas é bastante atual. Ela fez um paralelo com a luta feminina travada hoje a batalha para se livrar da questão patriarcal e se impor perante a sociedade.

“A peça é antiga, mas é extremamente atual neste aspecto. A gente pode fazer uma relação com as Marias, que em algum momento se submeteram à questão patriarcal e em outro momento romperam com isto. Mesmo sofrendo as conseqüências de falta de conhecimento, Hoje a ligação é que cada vez mais as mulheres estão com conquistando, com dificuldade, seu espaço de respeito. Rompendo com estas limitações impostas pelo papel do patriarcado”, disse.

Apesar de não tratar diretamente sobre isto, Anáguas traz uma reflexão ao espectador sobre a questão do empoderamento feminino. Segundo ela, a luta não é para que as mulheres assumam papéis maiores que os dos homens, e sim por igualdade e liberdade.

“As Marias de Anáguas, como as de hoje, tratam desta questão do próprio empoderamento feminino. Não para subjugar o papel masculino, mas em busca de um lugar de igualdade, de valores, respeito e buscando e encontrando espaço para dar voz a este clamor, pelo respeito à figura da mulher, por menos violência, menos domínio do homem sobre a mulher. Eu acredito que as Marias de Anáguas dão voz a este grito de liberdade de clamor pela igualdade”, relacionou.

“Eu acho que há um link entre as Marias de Anáguas de Donas Lourdes com as mulheres de hoje. Com muitas Marias que sofrem abuso, violência, mas que vai para a rua e colocam a boca para o mundo. E a gente tenta fortalecer isto e fazer nossa voz e discurso serem escutados e ouvidos em busca de respeito e igualdade de direitos”, finalizou.

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