terça, 21 de novembro de 2017
Especial
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Redes sociais mudam a forma de lidar com a morte

Rammom Monte / 09 de abril de 2016
Foto: Rammom Monte
O boom das redes sociais vem causando grandes transformações na sociedade. É inegável que estas ferramentas estão interferindo diretamente na vida e comportamento das pessoas. E este fenômeno pode ser visto na forma das pessoas lidarem com a morte. De acordo com a psicóloga, Mariana Simonetti, especialista na abordagem fenomenológico-existencial, as redes sociais hoje servem para alguns como uma espécie de divã, em que seus desabafos e angústias podem ser escancarados como forma de lidar com a perda de um ente querido.

“As redes sociais hoje em dia servem também como a rede de apoio para essas pessoas que estão vivendo o luto e que muitas vezes não encontram espaço para falar deste luto. Então, as pessoas colocam nas redes sociais porque desabafam e não perturbam os outros, porque só irá ler quem quiser, apesar de quem postar querer que as pessoas vejam. Funciona como uma rede de apoio, porque às vezes eu não tenho que me escute e colocando nas redes sociais, tenho a ilusão de que as pessoas estão vendo aquilo e dando importância àquilo. É uma forma de estar sendo visto na minha dor”, explicou Mariana, especialista em luto da Morada da Paz.

Porém, ela alerta também para um outro lado das redes sociais: o da massificação. Segundo ela, isto acontece principalmente quando morre uma pessoa pública e de grande apelo. De acordo com ela, nem o fato de não ser próximo à pessoa ou à família de quem morreu impede as pessoas de se manifestarem nas redes sociais.

“Às vezes acontece a questão da massa, que quando morre um artista, por exemplo. As pessoas não tinham sequer um vínculo com esse artista, mas tem a questão da massa, que se uma pessoa está sentindo isto aqui eu vou sentir também, para de alguma forma aparecer ali. Para ser notado, ser visto, que é uma das grandes questões das redes sociais”, afirmou.

Mensagens para quem já partiu

Outro comportamento que se percebe atualmente nas redes sociais é o de deixar mensagens nos perfis das pessoas que já morreram. Segundo Mariana, apesar da cada pessoa ter sua motivação própria, há dois aspectos que podem ser observados neste quesito: o da despedida e novamente o da massificação.

Para ela, por se tratar de um mundo virtual, os usuários tendem a “achar” que estão falando de fato para uma pessoa que ainda está viva, já que não há necessidade do contato pessoal. Segundo ela, este um momento que as pessoas escolhem para deixar uma mensagem que gostariam de terem dito.

“Cada um que vai colocar vai ter uma motivação diferente, mas eu acredito que há dois lados relevantes nesta questão. Às vezes a pessoa tinha vontade de falar algo para aquela pessoa que não está mais viva e, virtualmente, de alguma forma, você esquece um pouco que aquela pessoa não está mais viva. Até porque quando você está escrevendo no perfil da pessoa falecida, quando você estaria escrevendo em outro momento ela também não estaria ali com você. Então é como se fosse uma forma de falar minhas últimas palavras como se ele ainda estivesse aqui.  Eu acho que essa questão do virtual, dá este conforto de falar como se a pessoa ainda estivesse. É diferente de falar pessoalmente, porque não tem mais como”, disse.

Em contramão a isto, Mariana aponta novamente a questão da massificação para determinadas atitudes nas redes sociais. Apesar da questão privada e singular já explicada, há novamente uma questão de coletividade nas atitudes on-line.

“Às vezes a pessoa nem conhece a família, não tinha exatamente algo para falar, mas principalmente quando são coisas que comovem a sociedade, as pessoas pensam: ‘se está todo mundo indo, eu vou também’. Então tem algo de muito singular, como tem algo daquela questão de ir na massa, ‘eu vou porque preciso me despedir’ ou então ‘todo mundo está indo e eu vou junto’. Isso é um fenômeno que está se tornando cada vez mais comum. Alguns filósofos já previam essas questões de massificação, que o ser humano entraria nisto”, finalizou.

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