terça, 01 de dezembro de 2020

Especial
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Histórias de quem escolheu ser ‘Papai Noel’ o ano todo

Rammom Monte / 25 de dezembro de 2015
Foto: Rammom Monte
Uma lágrima no rosto, mas com um sorriso na cara.  As palhaçadas por muitas vezes se confundem com o choro. Para muitos, é vista como boba, ingênua, até lunática ou fora da realidade. Mas uma coisa é certa, a confiança nas pessoas sempre está em alta.  Bem que poderíamos estar falando de Pierrot (ou Pierrete, no feminino), mas este é um breve resumo das características de Lourdinha Silva, ou melhor, da palhaça Bom-te-ver. Ela é uma das inúmeras voluntárias do Hospital Napoleão Laureano, referência no combate ao câncer na Paraíba, e se divide entre a vida pessoal e o voluntariado há 14 anos. E como o velho Pierrot, que chora pelo amor da Colombina, Bom-te-ver também chora, pelas inúmeras vidas que já passaram pelo seu convívio e já se foram. Mas afirma: a alegria nunca sairá do seu rosto, mesmo que venha banhada por lágrimas.

“Dizem que palhaço bom não chora, mas eu choro, choro muito.  É uma alegria triste. Porque é muito fácil quando você chega em uma festa e vai alegrar quem já está alegre, mas quando você vai alegrar quem está triste, é diferente. Às vezes, a criança pega na sua mão, busca em você uma força que você não tem e você tem que ser muito forte. É por isso que eu sou voluntária. Eu sou voluntária de coração. Eu me acho até anormal de vez em quando, mas eu sou assim mesmo. Eu pinto bastante a cara, às vezes eles percebem e perguntam se eu estou chorando e eu digo não, digo que é a maquiagem que está irritando os meus olhos, para nunca eles me verem triste. Existe a alegria e existe a felicidade. Nem sempre a alegria que você vai ver no meu rosto representa a felicidade que estou sentindo, mas você vai me encontrar sempre alegre, mesmo eu chorando”, disse.ASC_4897

E como diria Chico Buarque, “todo dia ela faz tudo sempre igual”. Moradora de Rio Tinto, a pedagoga e radialista Lourdinha Silva se acorda todos os dias e se pinta de amor e solidariedade para levar um pouco de esperança às crianças que enfrentam o tratamento de câncer no Hospital Napoleão Laureano, em João Pessoa. É um trabalho contínuo. E em época de Natal, ela não titubeia ao se dizer a Mamãe Noel da vida real, mas confessa que o momento mexe mais ainda com ela.

“É muita energia. O que para mim é triste, para eles é alegre. Porque parece até que tem as datas certas do ano para receber presente. Porque aqui no hospital é só agulha, quimioterapia, de repente eles sabem que o natal está chegando, que papai Noel vai encher de presente. É contagiante a alegria deles, eles ficam muito felizes, enquanto nós sabemos que o presente maior que eles poderiam receber ninguém pode dar, que é a saúde. Eu me considero a mamãe Noel. Aquele papai Noel que a história conta que chega para alegrar, para realizar o sonho das crianças. Eu sou assim. Só que eu sou o papai Noel dos pobres, porque eu não tenho aqueles presentes para dar. Mas eu tenho muito amor para dar. Mas, papai Noel para mim é todo dia. É você levar amor todos os dias”, explicou.

ASC_4894Para chegar a João Pessoa todos os dias, Lourdinha pega um ônibus fornecido pela prefeitura de Rio Tinto. Na hora de voltar para casa, ela tem que apelar para uma lotação, ou contar com a carona de alguns familiares de pacientes. Ela afirma que ela mesma fica em dúvida como consegue conciliar a vida pessoal com o voluntariado, mas afirma que vai sempre seguir em frente.

“Moro em Rio Tinto. Para eu vir eu pagava a passagem, aí consegui uma autorização para vir no ônibus da saúde e para voltar pego lotação ou carona. Nem eu mesmo eu sei como eu consigo. Tem coisas da nossa vida que são inexplicáveis. Mas as coisas acontecem naturalmente. Igual a um rio. O rio vem passando cheio de obstáculos. Mas ele chega no mar. E se ele chega, eu vou chegar também”, afirmou emocionada.

Como surgiu o nome

Voluntária há 14 anos no Hospital Napoleão Laureano, Lourdinha diz que o nome da palhaça Bom-te-ver surgiu há cinco anos, após uma frase dita por uma criança que estava em tratamento.

“Um dia, uma das crianças me disse assim que eu cheguei: “que bom te ver”, aí eu fiquei com essa palavra na minha cabeça, achei interessante. Esse nome foi o que eu precisava e assim ficou. Bom-te-ver surgiu depois que eu fui para a pediatria. Sou voluntaria no Laureano, na Rede Feminina de Combate ao Câncer e no Donos do Amanhã”, explicou.

A importância do voluntariado para Lourdinha Silva

Diariamente, Lourdinha, ou melhor, Bom-te-ver leva a alegria para as crianças que estão em tratamento contra o câncer. É um sorriso aqui, um abraço ali, um momento para elas esquecerem do próprio sofrimento. Mas o quão isto é importante para a própria Lourdinha? Segundo ela, ver a alegria no rosto das crianças recompensa todas as dificuldades.

“É agradável, é você cumprir os mandamentos, saber que Deus está satisfeito. É uma forma que eu tenho que agradecer por tudo que Deus faz e fez por mim. Aqui no hospital é uma lição de vida. Você pode achar que lá fora tudo está ruim, venha para cá. Aí você vai ver. Aqui existe sinceridade. Se a criança abraçar você, pode ter certeza que é um abraço sincero. Se ele gritar, falar algo desagradável, você tem que aguentar tudo, passar por tudo isto, porque a dor deles é uma dor infinita. É uma doença muito cruel. Eu venho as vezes pensando o que eu vou encontrar quando chegar ao hospital. Há surpresas alegres, mas a maioria é triste . É uma realização pessoal. Você saber que é esperado, você é abraçado, é querido. Isso é divino. Eu me emociono fácil, porque é muito amor que esse pessoal dá para você. Aqui você encontra a verdade que lá fora não existe”, finalizou.

Mais “mamães Noel”

Não é só Bom-te-ver que faz este tipo de trabalho voluntário no Hospital Napoleão Laureano. Só na Rede Feminina de Combate ao Câncer, uma organização não governamental que funciona como extensão do hospital, são aproximadamente 190 voluntários. Uma delas é a enfermeira aposentada Zenaide Carvalho, de 69 anos. Voluntária há 20 anos, ela diz que sempre teve a vocação de ajudar o próximo.

“Desde infância que minha mãe falava que eu seria enfermeira e que eu tinha muita tendência a cuidar, gostava de cuidar das pessoas e ela não errou na profecia de mãe. Ela acertou todas. Porque me formei em enfermagem, fui trabalhar e sempre fui muito assídua no trabalho, com muita responsabilidade, muito amor ao próximo. Trabalhei com esses três requisitos que me fizeram amar o outro como eu gostaria de ser amada e eu acho que é por isso que eu sou voluntária. É por amor”, disse.

ASC_4864Toda quinta-feira Zenaide vai à Rede Feminina de Combate ao Câncer. De lá, ela segue para fazer a visita nas residências de pacientes e distribuir cestas básicas, kits de higiene, entre outras coisas. Ela afirma que o trabalho voluntário é de importância vital para ela, já que a faz se sentir útil.

“É mais importante para gente do que para o paciente. Porque nós nos sentimos úteis. Nós sabemos que estamos levando uma esperança, fé, amor, solidariedade e tudo que a gente diz: “O câncer não é contagioso, mas a solidariedade pode ser”. Esse é o nosso slogan e é o melhor que já ouvi até hoje. Solidariedade não tem preço e para você fazer isso, você tem que gostar do que faz, gostar do ser humano, não pode ter discriminação. A pessoa que discrimina o outro não é gente. Para você amar o próximo, você precisa estar livre de todas essas coisas para você poder ver a si mesmo, tratar como gostaria de ser tratado. Nossa equipe sente isso e vive isso”, afirmou.

Ela não se considera uma “mamãe Noel”. Segundo ela, o Natal é todos os dias.

“O dia do paciente, o dia do ser humano é todos os dias. Para mim não existe dia das mães, dia dos pais, isso é apelido que as pessoas colocam, festa que as pessoas criam para enriquecer o comércio. Eu considero o ser humano que  é um pai lindo, uma mãe linda, um ser humano incrível e tem que ser todos os dias”, finalizou.

Rede Feminina de Combate ao Câncer

A Rede Feminina é uma das inúmeras organizações não-governamentais que atuam na Paraíba com trabalho voluntário. A ONG existe há 53 anos e há 18 anos funciona em uma casa na Avenida 12 de Outubro, no bairro de Jaguaribe, próximo ao Hospital Napoleão Laureano. Por dia, são atendidas em média de 350 a 400 pessoas. Na sede, que também é uma casa de acolhimento, moram 20 pacientes que não têm familiares na cidade. A ONG se mantém com doações e também com a renda de eventos promovidos pela casa. Todo serviço oferecido aos pacientes é gratuito.ASC_4858

Na história popular, Papai Noel é um velhinho que mora no Polo Norte e distribui presentes no dia 24 de dezembro para as crianças bem comportadas durante ano. Já na realidade, os verdadeiros papais e mamães Noel abdicam de muitas coisas em sua vida, para levar ao próximo, se não um presente, pelo menos a esperança de que o melhor está por vir. E como diria a canção: “Então, bom Natal. E um Ano Novo também. Que seja feliz quem souber o que é o bem”.

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