terça, 19 de janeiro de 2021

Especial
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Um cidadão chamado Toninho e o poder da fisioterapia na vida do cadeirante

Rammom Monte / 25 de janeiro de 2016
Foto: Arquivo Pessoal
“Um garoto bem fragilizado, chamado Wilton de Oliveira Marques, conhecido popularmente como Toninho. Meus amigos de verdade me conhecem, meus inimigos me julgam, mas eu não estou nem aí, curto a vida numa boa e sou feliz”. Prazer, Toninho. É assim que se apresenta o rapaz de 25 anos que, por uma complicação durante a gestação, nasceu com paralisia cerebral, que afetou sua capacidade físico-motora, deixando-o em uma cadeira de rodas. A história de Toninho poderia até se confundir com as de mais de 320 mil pessoas com alguma dificuldade motora na Paraíba. A semelhança até existe em determinados pontos. Mas só em alguns. Após lutar a vida toda com a deficiência física e sete anos contra a depressão, Toninho contou com a ajuda de profissionais especializados para retomar a vida e tentar alcançar novos passos. E é exatamente isto que ele tem como objetivo: dar novos passos.

“Tive paralisia cerebral na hora do parto, um médico disse que eu teria apenas três dias de vida, 72h, mas eu estou vivo há 25 anos. Tive uma crise depressiva muito forte, humilhei pessoas que me amavam e assim eu fui superando durante sete anos, enterrado dentro de casa, vendo a vida passar. No dia 24 de dezembro de 2015, veio a retomada. Sofri muito na infância, sofri muito na adolescência e estou sofrendo na fase adulta, mas estou curtindo esse sofrimento, estou em um aprendizado. Estou vendo gente em situações piores do que eu e curtindo a vida, namorando, saindo e eu aqui em casa fazendo nada”, disse.

Toninho 1Segundo Toninho, um erro médico fez com que ele nascesse com paralisia cerebral. De acordo com ele, sua mãe teve uma primeira hemorragia e não foi operada. Apenas na segunda hemorragia é que os médicos decidiram mandá-la para a sala de cirurgia, o que comprometeu a saúde do bebê Wilton. Mas ele afirma que sempre teve uma parceira para todos os problemas que teve que enfrentar: sua mãe.

“Não sabia segurar a cabeça, era todo mole, meu corpo não mexia, meu braço era todo mole, eu era todo amarrado, minha mãe saia para trabalhar preocupada porque eu ficava amarrado. Ela trabalhou, ralava, comigo no braço. Nunca me deixou sozinho com ninguém. Era ralando comigo o tempo todo. Ela foi meu pai, minha mãe, minha esposa. Ainda é.”, afirmou.

Por conta da dificuldade motora, Toninho não conseguia tocar a própria cadeira, já que o seu braço esquerdo não tinha tanta movimentação. E foi neste momento que apareceram algumas pessoas que, utilizando-se de suas especialidades, fizeram com que ele pudesse ter mais autonomia e independência. Uma delas é a personal trainer Jéssica Albuquerque. O outro é o fisioterapeuta Saulo Rodrigues.

Para Toninho, Jéssica é uma das “culpadas” por ele poder conseguir movimentar sozinho sua cadeira de rodas. Ele relembra os exercícios duros que ela o submeteu para poder conseguir movimentar o braço esquerdo. Hoje, ele rir da situação, mas diz que na hora teve que lidar com a dor.

“A dedicação de Jéssica comigo foi incrível. A motivação que ela me passou dizendo que eu conseguiria. Ela pegou meu braço, que não esticava, e ela puxou perguntou se estava doendo e eu dizendo que sim, mas que poderia puxar, porque eu queria esse braço bom. Eu não queria ficar reclamando. Ela puxava e perguntava se podia puxar mais e eu, mesmo com dor, dizia para ela que estava bom, poderia puxar mais”, relembrou aos risos.

Jéssica recorda quando conheceu Toninho e falou sobre a importância do trabalho exercido por ela, tanto para ela, quanto para os pacientes. “Conheci Toninho através da Academia da Saúde do Geisel. Nas quintas-feiras existe um dia destinado a atividades para pessoas com deficiência. Estava dando aula e Toninho acompanhado da mãe chegou para realizar a atividade e conhecer a nossa Academia. Desde que comecei a desenvolver esse trabalho, aprendi a ouvir mais o outro. Humanização, essa é a palavra chave. Nós aprendemos bastante com a história de cada um, ouve as experiências de vida e assimila o que há de bom. Foi o caso do nosso amigo Toninho, chegou à academia com depressão profunda, sem estímulo. Meu dever como profissional foi recebê-lo bem, motivá-lo. Simples palavras que fizeram toda a diferença na vida dele”, disse.

JéssicaMas Jéssica faz um alerta. Apesar da grande vontade de Toninho em querer melhorar, escondendo assim que estava sentindo dor em um determinado exercício, ela afirma que essa conduta não deve ser tomada, para que o profissional saiba exatamente o que está se passando com o paciente.

“Ele contou recentemente (o episódio do braço). É importante que todo aluno passe o feedback pra nós profissionais, como segurança para todo e qualquer movimento. Portanto, não repitam o mesmo que Toninho. Foi legal de ouvir, mas me preocupou”, disse, aos risos.

O poder da fisioterapia e a força de vontade

Com Saulo, Toninho não teve muitos momentos de fisioterapia. Em contrapartida, ele admite que conquistou um amigo. “Saulo é aquela alegria, aquele cara motivador. Tenho como amigo há um tempão, ele me deu muita força também. A equipe de fisioterapia da turma dele fez meu aniversário, quando eu estava depressivo”, disse.

Saulo acredita que, além da grande força de vontade de Toninho, a fisioterapia tem um papel fundamental na recuperação. Para ele, a atividade é muito importante no processo do paciente.

“A fisioterapia é extremamente importante. Ele só está conseguindo tudo, por conta da fisioterapia. Mas é claro que não adianta só fazer a fisioterapia, o paciente tem que querer e eu sempre percebi essa vontade nele”, afirmou.

Apesar de não conhecer a fundo o caso de Toninho, Saulo afirma que há casos em que, a depender da lesão, o paciente pode até recuperar os movimentos e voltar a andar.

“Dependendo da causa, até uma paciente que foi para a cadeira de rodas, que teve uma lesão na coluna, até esse pode voltar a andar, desde que essa lesão não tenha sido completa. Com bastante esforço  ele consegue retomar os movimentos. A gente trabalha para isso mesmo, a nossa maior felicidade é quando o paciente tem a alta”, disse.

E não é só Toninho que exalta o trabalho dos fisioterapeutas e educadores físicos. Sua mãe, a aposentada Lúcia de Fátima, comemora o fato dele ter boas pessoas em seu tratamento, o que o ajuda muito no processo.

“Ele tem muita sorte de lidar com gente muito boa. As fisioterapeutas dele ficam todas amigas dele. Ele fez fisioterapia lá na Funad, com o pessoal da UFPB, aí é tudo jovem. Ai quando termina, ficam amigos, ai chama para ir para uma sorveteria, calçadinha, se encontram. É muito importante. Estou gostando muito deste projeto que tem no Geisel com Jéssica, ela é uma profissional muito boa, ele melhorou muito depois que foi para lá, lá é muito bom, um projeto muito lindo”, disse.

Obstáculos invisíveis

Além dos problemas físicos, Toninho teve que lidar com uma depressão que o acometeu por sete anos. Segundo ele, foram anos deitado em casa, sem vontade de fazer nada. Neste período, foram seis tentativas de suicídio. Mas ele não deixa o bom humor de lado nem na hora de falar da depressão. Hoje ele se trata e encara com bom humor tudo que passou, mas também como aprendizado.

“Você sabe o que é uma pessoa desesperada? Sem expectativa de vida? Aquela pessoa que quer se matar seis vezes, se enforcando, tomando remédio de pressão para se matar? Foram seis tentativas, mas Deus tinha um plano tremendo na minha vida. A depressão começou em 2007. E por causa de mulher. Tem tanta mulher no mundo e o cara vai e se “abestalha” com uma”, afirmou gargalhando.

Objetivos e dificuldades

Hoje, o Toninho que ficava deitado em cima de uma cama não existe mais. Ele agora quer ganhar o mundo, conhecer novos lugares, ir à praia, conhecer novas pessoas. Mas nem tudo é tão simples. As dificuldades começam já na porta de casa. A rua em que ele mora (Moacir da Costa Pereira, no bairro do Valentina de Figueiredo) é completamente esburacada, o que dificulta a sua locomoção. Ele faz um apelo para as autoridades.

“Eu quero chegar até onde Deus permitir. Eu queria que essa rua fosse calçada, aqui tem cadeirante, que precisa de acessibilidade. Acessibilidade não é só na praia para turistas. Eu vou passando pelos buracos mesmo. Inclusive, uma vez eu ia caindo”, relata.

De acordo com um levantamento feito no Censo do IBGE de 2010, a Paraíba aparece como um dos piores estados no percentual de domicílios que possuíam rampa de acessibilidade em seu entorno, com apenas 1,33%. Das dez maiores cidades paraibanas, levando o Produto Interno Bruto como quesito, João Pessoa ficou na terceira colocação, com 2,11%, ficando atrás de Patos (2,94%) e Sousa (2,12%). Mas para Toninho não faltam só rampas de acessibilidade.

“Falta ônibus, falta motorista educado, capacitado para treinar. É gente me xingando dentro do ônibus, pessoas que estacionam em vaga de cadeirante. Uma série de problemas”, relatou.

Locais de apoio para pessoas com deficiência

Na Paraíba, de acordo com o Censo de 2010 do IBGE, há 1.045.962 milhão de pessoas com algum tipo de deficiência, seja motora, mental, auditiva ou visual, o que representa 27,7%  do total da população. No estado, há alguns locais que atendem e auxiliam as pessoas com deficiência e seus familiares, a exemplo da Fundação de Apoio ao Deficiente (Funad), Associação de Deficientes e Familiares (Asdef) e Associação Pestalozzi da Paraiba, entre outras.

Planos e mensagem

Toninho tem vários desejos, mas um dele é bem forte. O jovem afirma que nos tempos livres gosta de passear, ver televisão e escutar música. Apesar de gostar de bandas de rock como Red Hot Chilli Peppers, Metallica e U2, o paraibano não deixa o lado forrozeiro de lado e afirma que sonha uma dia em ir para o show da banda Aviões do Forró.

“Gosto de Red Hot, Metallica, Aviões, U2. Eu queria muito ir para um show de Aviões do Forró, mas não para ficar na multidão. Seria para ficar no palco, porque se acontecer uma briga, eu não corro”, disse gargalhando.

E é com esse espírito que Toninho vai levando a vida. No bom-humor e retribuindo críticas e xingamentos com amor.

“Já disseram que falavam comigo só por pena. Eu não sou ganso, nem galinha, nem marreco para ter pena. Mas mesmo quem falou isto, pode ter certeza que se um dia precisar de mim, eu estarei lá para estender minha mão. O que eu digo a vocês é que entregue a vida de vocês a Deus e não escute a opinião alheia. Você pode, você consegue, você é capaz. Eu espero andar de muleta, correr em câmera lenta, espero tudo. Eu vou correndo até para Belo Horizonte,  São Paulo, Rio de Janeiro, seja para onde for. Nada é impossível”, finalizou.

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