domingo, 24 de janeiro de 2021

Especial
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Aos 93 anos, Bibi Ferreira esbanja jovialidade

Rammom Monte / 13 de maio de 2016
Foto: Rammom Monte
A carteira de identidade mostra a idade: 93 anos. Porém, o vigor vogal e o espírito de vida depõem contra o documento. Com uma disposição de fazer inveja a muitos jovens, a dama do teatro brasileiro, Bibi Ferreira, se apresenta neste sábado (14) no Teatro Pedra do Reino, em João Pessoa. Em turnê com o espetáculo “Bibi canta repertório de Sinatra”, ela participou de uma entrevista coletiva nesta quinta-feira (12) e falou, entre outros assunto, sobre o segredo da longevidade.

“Deve ser uma infância muito bem organizada pela minha mãe, que era uma perfeccionista. E ela encontrou em mim uma pessoa fácil de lidar e ela me tratava com muito carinho, mas também com uma certa rigidez. Alimentação foi uma coisa muito importante na minha vida. Sempre fui bem alimentada pela minha mãe e assim fui indo. Quer me ver feliz? É ter espetáculo. Não tem espetáculo eu fico pela metade, não sou eu inteira. Não tendo espetáculo, eu relaxo tudo. Mas quando tem, eu tomo cuidado com tudo. Não faço exercício nenhum. Sabe o que me mantém? Não é propriamente uma aula de alguma coisa ou de fazer ginástica ou num sei o que, o principal é trabalhar todo santo dia e eu tenho trabalhado durante anos, muitas e muitas noite seguidas assim. E sem microfone, então a coisa vai”, explicou.

Se o corpo precisa de uma certa ajuda para se locomover, a voz continua intacta.  Segundo Bibi, o que a mantém assim é sempre tomar cuidado com o que ela chama de seu “ganha pão”.

“Tenho cuidado com a voz, meu ganha pão está todo aqui. Tomo cuidado. Há décadas que eu não sei o que é um sorvete, ma água gelada, não sei nada. Meu pai dizia: o gelado vela a voz. E é verdade. Um dia em um hotel, os funcionários disseram que estavam com um grande sorvete de cupuaçu. Então, eu provei o sorvete e me danei. No dia seguinte quando eu acordei, eu tava sem voz. O espetáculo foi suspenso, por causa do raio do cupuaçu. Não posso tomar gelado. Não posso. Tudo é costume. O meu costume é tomar coca cola sem gelo. É tudo uma questão de hábito. Eu me habituei a comer o necessário. Não tenho que comer demais. Como o necessário. Uma grande condição que eu tenho é porque eu nunca fumei e nem fumo. O cigarro realmente é muito ruim. Gelado já não tomo por princípio”, disse.

Admiração por Sinatra

Bibi já cantou grandes nomes da música mundial como Edith Piaf, Amália Rodrigues e Carlos Gardel. Agora, a turnê é interpretando outro gigante da música, Frank Sinatra, a quem ela atribui o título de, ao lado de Carlos Gardel, melhor cantor de música popular de todo o mundo.

“Para mim, o Sinatra é o maior cantor popular do mundo de todos os tempos . Ele e Gardel. O Sinatra é uma coisa maravilhosa. A dicção de Sinatra é perfeita. Cantando aquelas canções difíceis, ele faz como ninguém e eu fico ali na gravação ouvindo a respiração dele. Um cantor maravilhoso. Uma pessoa deslumbrante também. Muito apaixonado sempre e muito competente naquilo que fazia. Ele entendia bastante de música. Ele fazia questão que os arranjos estivessem a altura daquilo que ele estava dizendo”, disse.

Apaixonada por óperas e pôquer

Com uma agenda lotada (Bibi tem shows marcados até setembro de 2017 e não tem um fim de semana livre este ano), Bibi desfruta de pouco tempo livre. Mas quando o tem, ela revelou que gosta de fazer uma de suas principais paixões: ouvir óperas.

“Com a Orquestra Metropolitan de Nova York eu escuto o Barbeiro de Sevilha, de Rossini, quase toda noite. Gosto muito de ópera. Rigolleto di Verdi também, tudo isso eu gosto muito. Eu fui criada mais ou menos neste ambiente, eu tinha um tio que fazia ópera, outros que faziam circo e assim eu fui criada em um ambiente eclético, mas sempre artístico”, revelou, afirmando também que assiste muito a balés.

Porém, um dos outros passatempos de Bibi passa bem longe do mundo artístico: o pôquer. Apesar de dizer que o gosto pelo carteado não pode ser considerado uma virtude, ela confessa a paixão pelas cartas.

“Gosto de pôquer, não sou grande jogadora, mas eu gosto muito, é um jogo formidável. Mas a mesa que jogo é uma mesa fraca”, disse.

Ligação com a Paraíba e paixão por Paulo Pontes

Durante seus quase 100 anos, Bibi Ferreira foi casada cinco vezes. O último deles foi o dramaturgo paraibano Paulo Pontes, por quem ela ainda se emociona a falar sobre. Bibi conta que conheceu Paulo em um café no Rio de Janeiro. Eles foram casados durante nove anos, até ele morrer em 1976, vítima de um câncer.

“(Relação com ele) Foi muito forte, bonita, sincera. De muita felicidade. Depois que as coisas passam, às vezes é difícil encontrar o adjetivo certo. O adjetivo que a gente sente é tão grande que é difícil transformar em palavras muitos anos depois. Mas eu fui muito feliz com Paulo. Ele era caladão. Se jogava em um sofá que tinha no escritório dele, voltava-se para a parede e ali ele ficava o dia inteiro. Como eu já sabia, eu não iria incomodar. Já sabia que se ele quisesse algo, ele gritaria. Quando ele queria, ele batia palmas e pedia o café. E assim ele viveu nos últimos anos. Comigo, com grandes amigos em torno e com o café e a maquina de escrever e toda aquela maravilha daquela cabeça bem-humorada, cheia de espírito, escrevendo a maior obra da dramaturgia nacional: a Gota D’água, de Paulo Pontes e música de Chico Buarque”, descreveu.

Apesar de ter sido casada com um paraibano, não foi através de Paulo Pontes que Bibi esteve pela primeira vez na Paraíba. Ela conta que já esteve no estado antes, junto com a companhia de teatro de seu pai, o ator Procópio Ferreira.

“(A primeira vez que esteve na PB) Foi com meu pai. Tínhamos a Companhia de Comédias, papai e eu. Cia Procópio Ferreira, e eu fazia parte. Vim aqui umas duas vezes. Papai viajava o Brasil inteiro pelo menos uma vez por ano. E aqui na Paraíba eu lembro de ter vindo duas vezes”, recordou.

Paulo Pontes e o comunismo

Casada muitos anos com Paulo Pontes, Bibi conheceu muitas de suas particularidades. Uma delas era a sua posição política. Bibi relembrou um episódio que teve com ele durante as comemorações do natal. Segundo ela, pessoas o alertaram que ele era comunista e que, por conta disto, não costumava festejar esta data. Porém, ela teve uma surpresa naquele dia.

“Diziam para mim para não esperar muito do Paulo, que ele era comunista. E eu perguntava: e daí? Diziam que ele era diferente, não pensava como nós. E estava perto do Natal e comunista não festeja natal, disseram. E aí chegou o dia de Natal e Paulo Pontes se apresenta a minha pessoa com um embrulho. Pelo embrulho eu vi que era um livro. Eu agradeci, abri o embrulho e era O Capital, de Karl Marx. O Capital você dá para alguém, principalmente a mulher, de presente de Natal? Mas Paulo Pontes era tão diferente, tudo que ele fazia na vida era tão inusitado que ele me deu como primeiro presente na vida O Capital, de Karl Marx”, lembrou aos risos.

Porém, nem só de momentos divertidos os dois viveram. Uma das grandes apreensões de Bibi foi durante o período da Ditadura Militar. Ela conta que Paulo Pontes era perseguido e que eles viviam apreensivos.

“Ele não foi preso. Mas éramos todos apavorados. Eu vivia apavorada com tudo, telefone, tudo. O que fosse de campainha me deixava apavorada. Mas ele se saiu dessa muito bem, ficando quieto, não provocando. Mas foi sério, muito sério. Todos nós vivíamos com o coração na mão”, lembrou-se.

Bibi Ferreira (Rammom Monte)Outro momento triste da trajetória dos dois foi durante a doença de Paulo Pontes. Emocionada, Bibi relembrou da época e das últimas palavras do dramaturgo.

“Ele morreu de um câncer no piloro. Ali ele teve um câncer que veio a devorá-lo em pouco tempo. Eu me lembro dele pedindo a Dr. Silvio, um momento trágico na minha vida, não gosto às vezes nem de falar). Ele pediu: Dr. Sílvio, me dá só um ano mais de vida. E ele viveu só mais três meses. Paulo Pontes faleceu em meus braços e a última coisa que ele disse foi: Te amo, Bibi. Ele era muito meu amigo e eu era muito amiga dele. Era uma pessoa em quem a gente podia confiar. Uma pessoa séria, cheia de boas intenções para tudo e assim ele conseguiu escrever a maior obra da dramaturgia brasileira. Pessoa singular”, relembrou bastante emocionada e com a voz embargada.

O espetáculo

Sobre o show deste sábado, Bibi falou o que o público pode esperar dele: Frank Sinatra.

“Como sempre, eu não arrisco. Se eu não estou bem, eu não devo fazer o show. Nessa hora eu não sou a jogadora de pôquer que eu sou. No carteado é diferente. Na vida, eu não posso arriscar uma carreira do tamanho da minha. Eu piso em cima da credibilidade, se eu ainda tenho público e esgoto teatros é por causa da minha credibilidade. Eles acreditam que eu sou correta. Se eu prometo fazer um Sinatra, eu vou dá o melhor que eu posso fazer com o sexteto que eu vou apresentar”, finalizou.

SERVIÇO

“Bibi canta repertório de Sinatra”

Teatro Pedra do Reino, 21h

Ingressos: No local (no dia do show) e antecipado pelo site Ingresso Rápido

Valores:

Plateia A: R$ 200 (inteira) e R$ 100 (meia)

Plateia B: R$ 180 (inteira) e R$ 90 (meia)

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