segunda, 24 de junho de 2019
Especial
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Amor censurado: o preconceito dos homofóbicos

Rammom Monte / 12 de junho de 2016
Foto: Rammom Monte
Certa vez, o cantor e compositor Roberto Carlos cantou em um dos seus grandes sucessos: “Quantos idiotas vivem só, sem ter amor”. A obra-prima chama-se Sua Estupidez. Tanto o trecho acima, como o título da canção, poderiam ser direcionadas a uma parcela da sociedade que vem se fazendo cada vez mais presente: os homofóbicos. É bem provável que o rei, como é conhecido Roberto Carlos, sequer tenha tido a intenção de se referir a estas pessoas, mas “a carapuça” pode servir. E algumas das vítimas destes cidadãos são os estudantes Willamys Guthyers, de 25 anos, e Myke Fonseca, 26 anos. Juntos há cinco anos, o casal afirma que a data comemorada em todo o Brasil neste domingo, o Dia dos Namorados, não foi “feita” para os casais homoafetivos. Para eles, ainda há o receio de se namorarem publicamente no Dia dos Namorados.

“A gente até comemora publicamente, mas se a gente vai sair para algum lugar, é aquela conversa que não pode ter carinho. Para a gente existe esse receio, de trocar olhar, trocar carícia, tem que ser tudo muito escondido, muito oculto para que as pessoas não observem. A gente não pode trocar esse afeto publicamente. Não porque a gente não queira ou não tenha essa necessidade, mas porque a gente vê que a sociedade não está preparada e por mais que a gente tente, a gente tem muito medo”, disse Myke.

Segundo ele, o medo não é só de sofrer preconceito. Para Myke, o temor é que aconteça algo mais grave. “O que eu vejo que não é só o preconceito que está crescendo, é a violência que está crescendo. Você vê casos de assassinatos brutais todos os dias contra a comunidade LGBT e você não fica imaginando ‘e se fosse eu?’, você fica se perguntando ‘quando será que eu vou estar nesta situação?’”, completou.

Wil e Myke_Rammom MontePara Willamys, que é mais conhecido como Wil, os casais homoafetivos ainda conseguem comemorar o Dia dos Namorados, desde que seja em locais específicos. Ele defende que não pode haver essa segregação e a considera como uma espécie de apartheid.

“A sociedade faz com que os LGBTs fiquem à mercê. Se os LGBTs  querem comemorar, ou eles vão para suas casas ou para uma boate gay, que já é da temática deles. Mas na verdade a gente faz parte da comunidade, então todo e qualquer bar, hotel, motel e qualquer outro estabelecimento, que vai ser utilizado para comemorar o dia dos namorados, tem que passar a respeitar os casais LGBT”, defendeu.

Para evitar este tipo de repressão e preconceito, não só no Dia dos Namorados, mas em todos dias,  o Ministério Público Federal (MPF), o Ministério Público do Trabalho (MPT) e a Defensoria Pública da União (DPU) recomendaram nesta semana a escolas, universidades, centros comerciais, empregadores, repartições, bares e demais lugares de frequência pública que se abstenham de inibir, reprimir ou discriminar manifestação afetiva entre casais do mesmo sexo.

Dificuldades diárias

Engana-se quem pensa que a luta de Wil e Myke para se amarem se restringe apenas ao Dia dos Namorados. Deste o início do relacionamento eles tiveram que enfrentar resistência, até mesmo dentro de casa.

“Eu tive que passar por todo esse processo, de sair de casa, para depois falar para meus pais sobre a minha orientação sexual. Era bem complicado porque meu pai é da Polícia Militar, e uma vez eu perguntei a ele: se você tivesse um filho gay, o que você faria? Ele disse que daria uma surra até ele virar homem. Aí foi bem complicado porque eu não queria me assumir por causa dessa fala”, relata.

Wil e Myke_Rammom MonteUm dos termos muito usados pelo casal durante toda a entrevista foi o verbo “enfrentar”. Perguntado sobre o porquê de usar tanto um termo tão forte deste para falar sobre amor, Myke explicou que esta é a  realidade deles.

“A gente sente que todo dia a gente levanta para enfrentar a sociedade, preparados para os preconceitos. Eu não estou dizendo que todo dia a gente enfrenta preconceito, mas que todo dia a gente está preparado para sofrer preconceito. Porque se a gente não acordar preparado para enfrentar este tipo de abuso, a gente vai ser pego desprevenido. Levar um relacionamento LGBT ele se torna muito mais complicado do que levar um relacionamento heterossexual, porque a sociedade está acostumada a isto. Por mais que a gente não viva amedrontado, ainda existe um receio muito grande por nossa parte nesse sentido. Sempre em defesa”, confessou.

O temor de Wil e Myke se justifica. De acordo com a Coordenadoria Municipal de promoção à Cidadania LGBT e IGUALDADE RACIAL, ao todo de 2011 a 2014, foram 88 assassinatos de integrantes da população LGBT na Paraíba.

Amor de dentro para fora

Se sair às ruas é uma batalha diária, pode-se dizer que o quartel general do casal se encontra na casa da mãe de Myke. Apesar de trabalhar e morar em cima de uma funerária e lidar com a morte diariamente, na casa de dona Cláudia o amor está mais do que vivo. Ela falou sobre a orientação sexual do filho e disse que não faz a menor diferença para ela.

“É muito difícil a gente assumir certas coisas, não por conta da pessoa em si, mas pela reação dos outros. O povo julga muito pela aparência, então tem coisas que nem todo mundo entende. Não é que eu seja tão sábia, mas é por ser a mãe e também por ter convivido com gays e ver que existe uma dificuldade na vida daquelas pessoas, então eu não quis também prejudicá-lo. Porque a partir do momento que a família não aceita, o maior problema é de quem você gosta de não aceitar. Porque a opinião de certas pessoas você pode até deixar para lá, mas opinião das pessoas que são importantes para você, é o que faz a diferença”, disse.

Wil e Myke_Rammom MonteMas não foram apenas Wil e Myke que tiveram que ouvir comentários maldosos. Cláudia diz que também teve que aturar o preconceito por parte da família.

“Ouvi de muita gente. Às vezes quando nem sabe, as pessoas falam. É muito difícil até para a gente mesmo. Às vezes você não está nem preparado para ouvir o que as pessoas têm a dizer. Minha mãe mesmo não aceita a opinião de ninguém. Houve pessoas que entenderam e outras que não. Há pessoas na minha família muito preconceituosas, principalmente quando são ligadas a alguma igreja, seja evangélica ou católica. Eu não quero nem ouvir”, cravou.

O mundo ideal

Se a realidade é dura, pelo menos na imaginação Wil e Myke podem ter uma vida mais tranquila. Perguntados sobre qual seria o mundo ideal para eles, os dois deram depoimentos emocionados e definiram que, basicamente, o mundo ideal é onde o amor possa ser livre.

“O mundo ideal seria um mundo sem discriminação, sem preconceito, um mundo onde as pessoas passassem a se respeitar, como realmente deveria ser. Um mundo que o afeto não fosse um crime, um afeto entre pessoas, seja do mesmo sexo, seja de sexos opostos, não gerassem olhares repreensivos”, disse Wil.

Myke criticou a interferência de terceiros em suas vidas e clamou por mais amor. “Um mundo onde eu pudesse andar na rua sem tem medo de trocar um olhar, pegar na mão do meu companheiro, de dar um selinho. Onde eu pudesse andar livremente sem ter essa sensação de que a qualquer momento alguém vai passar do meu lado e dizer que eu não posso fazer aquilo. Para mim, a sociedade ideal, seria uma sociedade em que as pessoas não estivessem incomodadas com quem eu me relaciono, com que eu estou. Isso não importa. O que importa é que ali eu não estou trocando farpas, estou trocando amor.

Ele também falou do falso moralismo. "Eu acho que a sociedade preza mais esse modelo de relacionamento homem e mulher, do que a troca de amor. Porque para eles, tanto faz se nesse modelo existe traição, sofrimento, violência doméstica. Eles não estão se importando com isto, estão se importando que é apenas homem e mulher, e quando na verdade o ideal é que não existisse essa separação de homem e mulher e sim existisse um modelo de relacionamento onde o principal fator é o respeito e o amor. Eu acho que para mim o ideal de sociedade era que as pessoas parassem de ver quem está com quem e começassem a ver quem está sendo feliz com quem. Se essa pessoa está fazendo a outra feliz, é o que importa”, finalizou.

E assim como Roberto Carlos cantou, Wil e Myke poderiam se apropriar das palavras do rei e mandar um recado para os homofóbicos: “Meu bem, meu bem, sua incompreensão já é demais. Nunca vi alguém tão incapaz de compreender que o meu amor é bem maior que tudo que existe. Mas sua estupidez não lhe deixa ver...”

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