terça, 16 de julho de 2019
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Escritor Políbio Alves lança livro na Fundação Casa de José Américo

André Luiz Maia / 13 de fevereiro de 2019
Foto: Divulgação
Empatia é uma palavra que vem sendo usada cada vez mais para definir e evidenciar as lacunas encontradas nas relações humanas contemporâneas. O paraibano Políbio Alves afirma que a palavra é sua ferramenta para exercê-la.

O resultado disso é o lançamento de seu mais recente livro, intitulado Acendedor de Relâmpagos. Trata-se de um longo poema épico que trata do homem do campo e sua luta por sobrevivência e dignidade.

A obra é lançada hoje em uma cerimônia na Fundação Casa de José Américo, no Cabo Branco, a partir das 19h. Na ocasião, Políbio receberá o público para dar autógrafos e conversar sobre a obra.

Em Acendedor de Relâmpagos, acompanhamos a saga de Antônio Lavrador, o camponês que representa milhares de pessoas nas zonas rurais e interioranas do país. “É sobre uma gente que continua a sofrer nas mãos dos donos do poder, desde a época das capitanias hereditárias até agora, em que a gente vive em uma ‘democracia’ com aspas”, conta o autor.

Além do poema, Políbio traz uma série de epígrafes que dialogam sobre os temas abordados no livro, citando trechos de livros e obras de autores como Castro Alves, Eduardo Galeano, Darcy Ribeiro, James Joyce, José Saramago, Eugênio Montale, Júlio Cortázar, Federico García Lorca, Karl Marx, Arthur Rimbaud, Oswald de Andrade, Jorge Amado e Raduan Nassar, entre outros.

Escrever sobre esse tipo de temática, para Políbio, é exercer a empatia. “Muita gente vira os olhos e dá de ombros para certos assuntos. Pensam: 'Não é comigo, então não tenho que pensar nisso'. Não! A gente precisa conhecer e entender o que há na vida do outro, se colocar na pele do outro. Se fizéssemos isso com mais frequência, não estaríamos vivendo momentos difíceis no país”, completa.

Políbio faz questão de salientar que a classificação de “poesia épica” para este novo texto veio do editor da obra, Linaldo Guedes. Ele e Lenilson Oliveira estão juntos em um novo empreendimentos, a Arribaçã Editora, criada no ano passado e que já conta com três livros no catálogo, incluindo este.

“Eu entendo quando se coloca o termo de poesia épica, já que é uma narrativa contada através de versos, mas não tem uma grande pretensão no sentido clássico da expressão”, afirma, ao se referir a obras do gênero como Ilíada ou Odisseia. As histórias contadas nos versos de Políbio Alves são ficcionais, mas buscam retratar com intensidade aquilo que há de mais real.

“São coisas que já aconteceram e nem temos esperança de que não acontecerá mais. É impressionante. Tenho 78 anos, vi muita coisa acontecer, mas parece que nada mudou. Aliás, mudou sim, para pior. Esse povo continua sendo explorado, ameaçado, assassinado até hoje, é só ver o que aconteceu aqui no fim do ano passado”, lembra o autor, pontuando uma notícia que abalou o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra na Paraíba (MST-PB), quando dois de seus líderes foram assassinados a tiros em Alhanda, em dezembro de 2018.

O assunto não lhe é estranho. Mesmo tendo nascido no contexto urbano, Políbio ouviu bastante sobre a realidade dos camponeses por parte de seu avô e sua mãe. “Através deles, eu vi que o mundo era muito mais do que aquilo que eu via na minha frente. Já adulto, eu pude conhecer e entender de perto essa realidade”, ressalta o escritor.

Um ofício fundamental



Políbio Alves nasceu em João Pessoa. É ficcionista e poeta, formado em Ciências Administrativas. Desde 1974, possui o título de cidadão carioca, já que viveu no Rio de Janeiro durante uma década e meia. Ao longo dos anos, começou a desenvolver uma carreira literária que fez seu nome cruzar oceanos.

Autor de livros como Varadouro (poesia), O que Resta dos Mortos, Os Ratos Amestrados Fazem Acrobacias ao Amanhecer (ambos de contos) e La Habana Vieja: Olhos de Ver, Políbio viu várias de suas obras traduzidas para línguas como o castelhano e francês.

Um de seus trabalhos, A Leste dos Homens aborda uma temática delicada em sua biografia: a ditadura militar. Sequestrado em 1 de maio de 1968, foi preso e torturado por agentes do regime. “Escrevi esse romance para espantar os pesadelos, os fantasmas das noites de insônia. E também para não ser conivente com os crimes cometidos pela ditadura a serviço da servidão humana”, contou Políbio, em entrevista ao jornalista Linaldo Guedes para o jornal A União, em 2016.

Esse e o livro mais recente são exemplos de como Políbio enxerga seu trabalho como escritor e também ajudam a entender o interesse do público internacional por suas obras.

"Escrever é minha vida. É o que eu faço para dar sentido à minha vida. É desestimulante não ver reconhecimento aos escritores em seu próprio país, mas minha missão é mostrar como esse ofício é primordial para a sociedade", completa Políbio Alves.

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