terça, 24 de novembro de 2020

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Epidemia de Aids avança na Paraíba e preconceito também

Bruna Vieira / 15 de julho de 2016
Foto: Assuero Lima
O diagnóstico de HIV não significa uma sentença de morte. O que dói mais em um soropositivo é a vergonha e o medo da rejeição da sociedade.  “Sou HIV positivo. Me dá um abraço?” Durante 30 minutos, Adriane Rodrigues segurou um cartaz com essa frase, no Ponto de Cem Réis, uma das praças mais movimentadas, no Centro de João Pessoa. Das 649 pessoas que passaram pelo local, apenas 41 pararam e abraçaram a jovem. Muitos nem olhavam para a frase. Outros liam e desviavam o olhar e a rota. Alguns ficavam na dúvida e seguiam seus caminhos. Mas, felizmente, observou-se aqueles que passavam devagar e retornavam para o esperado abraço.

Era só uma ação de marketing do Espetáculo “Casa do julgamento: Aids, não precisa ser o seu fim”, que está em cartaz até amanhã. Adriane é atriz e representou mais de 6,6 mil paraibanos notificados com Aids, na Paraíba.

Nos últimos 10 anos, 95 crianças já vieram ao mundo carregando o vírus HIV, na Paraíba (isso não significa que elas desenvolverão Aids), e para sensibilizar as pessoas e quebrar o preconceito, atores fazem intervenções em lugares públicos da Capital. Os que param e abraçam são a minoria.

É falta de informação? O gráfico Rangel da Silva não apenas abraçou, como também passou alguns instantes falando ao ouvido da atriz. “Todo mundo merece um abraço, independente da situação. O preconceito e receio das pessoas existem, mas, abaixo de Deus tudo tem um propósito. Muita gente não abraçou por causa das três letrinhas (HIV). Não é falta de informação, é falta de vergonha. Todo mundo sabe que não pega pelo abraço”, disse.

Sente na pele. Jânio Sérgio Cardoso estava trabalhando, carregando peso. Mas, quando leu o cartaz, parou por alguns segundos e cedeu ao gesto. “Eu me emocionei porque sei o que é sofrer preconceito. Já passei por isso pela minha cor. Muitas pessoas não têm coragem de abraçar. Era para ter era fila. Eu disse a ela que Deus a abençoe e mantenha sempre o sorriso”, contou o ajudante de carga.

Jaqueline Peixoto não leu o cartaz, mas, deu o abraço. “Eu não consegui enxergar de longe, as pessoas que estavam comigo disseram que era um pedido de abraço, então fui. Se eu tivesse visto ‘HIV’ escrito não faria a menor diferença, darei outro abraço agora que sei. Abraço é maravilhoso, às vezes é tudo o que uma pessoa precisa. A gente percebe que há receio e preconceito das pessoas”, disse a jovem.

O bancário Jean Peixoto já sabia do que se tratava, pois, assistiu à peça teatral. “Vi esta semana. Esse tipo de ação é para que as pessoas passem a tratar como natural. Tem que divulgar. A encenação é emocionante e permite a interação. Muito bem montada”, comentou.

Conforto. Se por um lado, Adriane foi visualizada com discriminação, por outro, ganhou o carinho da população. “A maioria falou de Deus, da Bíblia. Que havia um plano para a minha vida. Questionaram se era verdade. Que Deus me ama de qualquer jeito. Que todos somos iguais. Uma senhora me perguntou como eu deixei isso acontecer. Outros me olhavam e não vinham abraçar. Se não fosse a sigla HIV, teria sido mais abraçada. Já fiz várias ações de ‘abraço grátis’ e há diferença”, revelou.

Além dos abraços, a atriz recebeu palavras de carinho, beijo e até uma caixa de morangos, enfim, a atenção que todo soropositivo quer. “O diagnóstico não é sentença de morte. Tem doença que mata muito mais e mais rápido. Aids não tem cara nem cor. Aquela imagem de uma pessoa magra, feia e debilitada não é real. O que queremos mostrar com a ação é que esse não é o fim. O que dói mais ao paciente é não saber com o que está lidando. Tenho amigos com a doença e a primeira preocupação não é se eles vão morrer. É o que os outros vão achar dele. Há o medo de ser rejeitado no relacionamento, escondem. Há muita frustração”, relatou a atriz.

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