segunda, 28 de setembro de 2020

Entrevista ao Correio
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O Homem precisa resgatar os sonhos e aprender a lidar com os fracassos

Luiz Carlos Sousa / 18 de outubro de 2015
Foto: Rafael Passos
Tecnicismo, cálculos, números... A sociedade hoje busca na objetividade desmesurada razões e explicações que justifiquem o modo de vida que domina as grandes cidades com seus excessos em busca de segurança, de recursos e de engenhocas eletrônicas que tornam a comunicação instantânea e mais fácil. Para a professora de Filosofia Maria das Neves Franca, isso afasta o homem dos sonhos e sufoca a capacidade criadora do homem. Nessa conversa com o Correio, ela faz uma leitura dos fenômenos da atualidade e diz que “É hora de aprender a viver e esse aprendizado implica a compreensão da condição humana, no que ela tem de ambíguo, no que ela tem de bela e de fera”. 

- Essa correria da sociedade hoje permite espaço para a Filosofia? Ainda é possível?

- Vivemos no que Heidegger chama de “a noite do mundo”. As coisas que nos rodeiam perderam o brilho e o apelo que dirigem a nós já não encontra ressonância. Mais conhecimento e instrumentos tecnológicos mais eficazes não têm sido suficientes para atenuar a corrosiva liquidez de tudo e encorajar para o enfrentamento do risco que desponta como único modo de vida disponível. Essa “noite do mundo” está calcada no esquecimento do “Ser”, no esquecimento da diferença e da transcendência como traço essencial da condição humana. Impõe-se uma falsa soberania da ciência e do mundo tecnificado, com seu processo de massificação e destruição das sensibilidades.

- Que características desse tempo a senhora destacaria?

- A vida se estende numa corrente de erudição vazia, tagarelice fácil, curiosidade banal. Vive-se um estranho paradoxo: o mundo barulhento alardeia silêncios.

- Como recorrer à reflexão, uma das “armas” da Filosofia, se não há mais tempo?

- Pensar não é algo circunstancial, episódico. Pensar é próprio do homem. Ora, se o homem é um ser pensante, que medita, o pensamento está ao alcance dele sem que seja necessário parar ou se evadir para regiões superiores, basta dirigir-se ao que está próximo dele, às circunstâncias, à existência, à raiz, a partir da qual tudo floresce. Num ensaio intitulado “Serenidade”, Heidegger diz que só podemos nos tornar pobres de pensamentos ou mesmo sem pensamentos em virtude de o homem possuir, no fundo de sua essência, a capacidade de pensar.

- Mas não há uma dificuldade de se recorrer à reflexão hoje?

- O que ocorre hoje é a vigência de um pensamento planificador, investigador, que busca resultados práticos imediatos. Trata-se de um pensamento que calcula, ainda que não opere com números; um pensamento que nutre indiferença para com a reflexão profunda. Na perspectiva do cálculo, da eficácia e da produção de resultados, o mundo, essa teia de referências, de significados, é degradado a objeto para o qual o pensamento calculante se dirige para tentar dominar. Mesmo quando se volta para a natureza, no intuito de protegê-la e preservá-la, como é o caso do discurso ecológico, o pensamento calculante a vê como mero objeto disponível para o homem, grande sujeito da realidade que se propõe a salvá-la.

- A tecnologia engoliu a ciência, especialmente a humana que não tem como ser exata?

- A ciência se volta para os fatos. Mas antes de existir como fato, as telas de Monet e Van Gogh, as esculturas de Rodin, os livros de Dostoievski, a música de Wagner, o Direito e a Lei existiram na força de um querer vigoroso e autêntico, para cuja realização se dirigiu o empenho de um fazer decidido. Antes de existir como fato, existiram como sonhos, no sentido de atos afetivos.  Nasceram do esforço para descoberta de novas e outras significações possíveis, da recusa a exorcizar da própria carne o poético que se insinua.

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