terça, 13 de novembro de 2018
Entrevista ao Correio
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Medo é o maior adversário da mulher para diagnosticar o câncer de mama

Luiz Carlos Sousa / 02 de outubro de 2016
Foto: Rafael Passos
As mulheres não têm alternativa para escapar do câncer de mama: ou fazem exames preventivos ou podem ser surpreendidas com um tumor já em estágio avançado que poderá levar a perda da mama. Para a mastologista Ana Tereza Uchoa, o diagnóstico precoce significa maiores chances de cura e esse diagnóstico pode ser feito a partir de uma mamografia, exame que o SUS (Sistema Único de Saúde) banca. Pouco antes de entrar no bloco cirúrgico para operar uma paciente, Ana Tereza recebeu o Correio para falar da importância de campanhas como o Outubro Rosa, dos avanços no tratamento do câncer e do drama para o profissional ao ter que dar a uma paciente o diagnóstico de câncer de mama.

- Campanhas como o Outubro Rosa têm surtido efeito na prevenção do câncer?

- Têm surtido efeito a partir do momento que conseguem alertar as mulheres da importância do exame para rastreamento do câncer de mama. É preciso lembrar que prevenção do câncer de mama é igual a fazer um diagnóstico precoce. E esse diagnóstico só é feito quando ocorre o rastreamento.

- Como é feito?

- Primeiro é preciso entender o que é um exame de rastreamento.É aquele exame que aplico numa população saudável – uma população sem sintomas – com intuito de detectar a doença em sua fase subclínica, que á  fase que não mostra sintomas. É justamente nessa fase que a paciente tem mais chances de ser curada se a doença for descoberta.

- Como a detecção da doença é feita?

- O rastreamento é feito através de um exame de mamografia, que detecta mais de 80% dos casos, ainda no estágio inicial. Por isso é fundamental fazer. É sempre bom lembrar que a incidência do câncer de mama vem aumentando. Para 2016, são esperados 60 mil casos novos no Brasil, sendo nove mil na Paraíba.

- Como avaliar um número desses?

- É um número importante e se a gente consegue diagnosticar na fase inicial – na subclínica – a paciente tem chance de cura. É diferente de quando a paciente chega com um tumor avançado, palpável quando a chance de cura diminui consideravelmente.

- Qual o perfil do rastreamento hoje?

- Se as mulheres fizerem o exame mamográfico anualmente como a Sociedade Brasileira de Mastologia preconiza, a gente consegue fazer essa detecção subclínica. O problema é que há duas variáveis. A primeira, muitas mulheres ainda não têm essa consciência – e a gente observa isso na prática como medo de descobrir alguma coisa, o que as impede de  fazer o exame de rotina.

- E a segunda variável?

- O acesso. Às vezes, as pacientes têm dificuldades de acesso para realizar a mamografia pelo sistema público de saúde.

- Apesar da informação de que há sobra de exames?

- Tem sobra, mas na prática, a paciente para conseguir fazer a mamografia tem dificuldade. O relato é o seguinte: doutora deixei minha mamografia para ser marcada na unidade de saúde, no PSF, mas até agora o pedido não chegou. Acredito que até sobre, mas há alguma dificuldade de acesso, às vezes, por má administração.

- Gestão?

- Digo assim: quem está lá marcando o exame, que faz o fluxograma de marcação deve estar tendo algum atropelo porque os pacientes estão tendo dificuldades. Não acredito que falte não – deve haver até essas sobras como se diz – mas a paciente para ter acesso... Deve estar havendo alguma alteração nessa marcação.

- Detectado o câncer no estado subclínica, qual o procedimento que assegura a maior chance de cura?

- A paciente será submetida a um tratamento cirúrgico e aí, dependendo das características do tumor, será submetida ou a quimioterapia ou a quimioterapia e/ou radioterapia adjuvantes.

-Apesar do estágio inicial da doença?

- Mesmo no estágio inicial. Entenda-se que cirurgia não quer dizer mastectomia. Quando o diagnóstico é feito no estágio subclínico, a chance de perder a mama é muito pequena, porque quando mais precocemente for diagnosticado o câncer de mama, maior a chance de cura e maior a possibilidade de se fazer uma cirurgia conservadora.

- O que é uma cirurgia conservadora?

- A retirada de apenas uma parte da mama. Na fase subclínica, isso é real. E aí, dependendo das características biológicas do tumor, ela vai ou não fazer químio e/ou rádio terapia. A gente não sabe, porque cada caso é um caso.

dr-ana-tereza_rafaelpassos-19- O que garante que o tumor está no estágio subclínico e que não haverá necessidade da mastectomia?

- A cirurgia sempre vai acontecer. O que vai nos garantir se vai ser uma cirurgia mais radical ou conservadora é o estadiamento do tumor. Por exemplo: fizemos uma mamografia e o exame detectou que a paciente tem apenas calcificações. Essas calcificações serão “biopsiadas”  - salientando que o único exame que vai fazer esse diagnóstico é a mamografia – e a aí a gente vem com um diagnóstico de que a paciente está com um carcinoma intraductal. A paciente está curada tendo em vista que vai se submeter a uma cirurgia para ressecção desse tumor e, não necessariamente, será uma mastectomia. Não deverá fazer quimioterapia nem radioterapia. Detectando na fase subclínica preciso ter alguns elementos: é um carcinoma “ductal in su situ”? Ou é invasivo? Em sendo invasivo, ainda no estágio inicial consigo fazer uma cirurgia conservadora? Consigo. Vai precisar de quimioterapia e/ou radioterapia? Vai depender das características do tumor. O mais importante é que a chance de cura da paciente aumenta muito.

- Há algum tempo o câncer de útero era o que mais matava as mulheres, hoje foi revertido, por que não se consegue resultados semelhantes em relação à mama?

- O câncer de mama tem uma incidência maior, por quê? O câncer de colo de útero apresenta lesões pré-malígnas, estágios antes do carcinoma invasivo de colo de útero. Se houver um diagnóstico nessas fases,não há evolução para carcinoma invasivo. No câncer de mama isso não existe. O câncer de mama pode, já na sua manifestação subclínica ser um carcinoma invasivo.

- Não dá para evitar?

- A gente não consegue impactar na incidência. Por isso falei que são esperados quase 60 mil novos casos esse ano e essa incidência vem aumentando ano após ano, porque não se tem uma fase pré-maligna. Quando se faz o diagnóstico do câncer de mama, já é câncer de mama. Toda diferença está em diagnosticar precocemente: diagnóstico precoce, chance de cura.

- O câncer de útero diminuiu por causa da ação preventiva – as mulheres passaram a ir mais ao ginecologista. Há possibilidade de algo semelhante em relação ao câncer de mama?

- Não. No caso do útero, os médicos detectam as lesões pré-malignas no exame citológico, o papanicolau. A mulher faz os exames todos os exames e apareceu uma lesão de alto grau. Ela vai se submeter a uma cirurgia  e não vai ter carcinoma invasivo. É diferente da mama. Na mamografia se detecta um tumor de 0,5 centímetros, que não é palpável, só vai ser detectado no exame, na mamografia, logo já é câncer. Não se consegue fazer a prevenção primária do câncer de mama. Só a secundária.

- Ou seja?

- Quando digo vamos fazer a prevenção do câncer de mama, digo vamos fazer o diagnóstico precoce. Vamos fazer mamografia na população feminina de João Pessoa porque a gente vai conseguir impactar na mortalidade. Ou seja, vou descobrir o tumor cedo e a paciente será curada, mas não vou diminuir o número de casos novos que vou encontrar.

- Há um perfil de mulher propensa ao câncer de mama?

- Há a mulher especial, que a gente considera de alto risco, que é aquela que tem histórico familiar de câncer de mama em parentes de primeiro grau, ou ela tem uma mutação genética comprovada, ou já fez biopsia que comprovou alguma alteração histológica que favoreça o surgimento do câncer de mama. Essa é uma paciente especial.

- Representam que percentual da população?

- Cinco por cento. Então, 95% das mulheres que serão diagnosticadas com câncer de mama não têm uma característica tão especial. Por isso o rastreamento é feito a partir dos 40 anos e anualmente. Porque a gente não tem essa mulher especial nesse grande grupo, nesse grande percentual.

- Há uma idade onde a incidência á maior?

- A partir dos 50 anos de idade. Há um aumento na faixa entre 40 e 50 anos e até em pacientes um pouco mais jovens, mas a incidência maior é acima dos 50 anos de idade. Então a gente pode traçar um perfil: aquela paciente com mais de 50 anos e alguns fatores de risco, ou seja, a mulher que nunca teve filhos, ou a mulher que fez terapia de reposição hormonal por mais de dez anos, ou aquela paciente que menstruou muito cedo – antes dos doze anos e parou de menstruar antes dos 55 anos. Mas isso não é o determinante. Por isso o rastreamento deve ser feito em toda a população.

- Quer dizer, foi mulher tem que prevenir?

- O principal fator risco para o câncer de mama é ser do sexo feminino. Os homens podem ser acometidos de câncer de mama, mas é um caso a cada cem de mulheres.

- O câncer de mama pode matar, mas que outras conseqüências menores ele pode trazer?

- Tudo vai depender do diagnóstico. Se a gente faz um diagnóstico de um tumor mais avançado é provável que essa paciente se submeta a uma cirurgia radical – a mastectomia – e sem chances de reconstrução da mama. Se a paciente faz um diagnóstico inicial tem chances altíssimas de ou fazer uma cirurgia conservadora ou uma mastectomia com reconstrução da mama imediatamente. Vai depender do diagnóstico, se o câncer está no início ou não.

- Sempre a mesma tecla da precocidade do diagnóstico?

-Por isso vou alertar mais uma vez as mulheres que elas precisam fazer o exame, porque se o diagnóstico é precoce tem chances de cura e chances de ter um tratamento menos agressivo. Outras conseqüências, além da mutilação: os efeitos colaterais da quimioterapia – desde a queda de cabelo ao mal estar, com náuseas, vômitos e diarréia.

- A queda de cabelos é inevitável?

- Não é cem por cento. Há mulheres que resistem bem. Aquelas pacientes que fizeram – mais uma vez – diagnóstico inicial de tumores não tão agressivos podem fazer uma quimioterapia que não causa a queda, a alopecia. Claro que quem vai decidir é a biopsia, os exames histopatológicos, que mostrarão o perfil anato-patológico do tumor. Então, nem sempre a quimioterapia que vai ser aplicada é aquela que faz o cabelo cair.

- Nos casos mais agressivos não há ainda como evitar a queda de cabelos?

- Há uma técnica nova – a touca térmica . Aquelas pacientes que precisam fazer uma quimioterapia mais forte, mais intensa, a gente faz um congelamento que os fios de cabelo não caem ou caem muito pouco. É a alternativa.

- Quando há metástase, para onde o câncer de mama migra?

- Da mama – como a drenagem da mama é feita por via linfática – ele vai se disseminar para os linfonodos axilares. E desses linfonodos axilares haverá uma disseminação sistêmica, cujo principal foco – o mais comum – são os ossos. Outros sítios de metástase são o fígado, o pulmão e o cérebro. Novamente, se o diagnóstico é feito numa fase inicial, menor a chance de migração para os linfonodos axilares, menor a chance de metástase sistêmica.

- Em caso de metástase...

- O tratamento é muito mais agressivo. Quando há metástase a distância o tratamento é oncológico, com base na quimioterapia, às vezes, na hormonioterapia, na terapia alvo, na radioterapia, mas a chance de cura é reduzida.

- A mamografia tem capacidade de diagnosticar o tumor de que tamanho?

- Na microcalcificação. Micrometros, bem pequeninhos. São pontinhos mínimos. A ultrassonografia é um complemento à mamografia, mas para o diagnóstico mais inicial, a mamografia é mais importante. Estudos mais recentes mostram uma validade da ultrassonografia associada à mamografia em pacientes com a mama muito densa.

- Que técnicas novas estão à disposição dos médicos para ajudar nos tratamentos do câncer de mama?

- Os avanços em mastologia são muitos, mas avanços no sentido do tratamento. Para o diagnóstico, só o rastreamento: examinar, mamografia, ultrassonografia, ressonância. Vai depender da conduta do mastologista. Agora fizemos o diagnóstico de câncer de mama, é inicial, agora a gente vai colocar tudo que puder à disposição dela.

- Como é o passo a passo?

- Fazendo a classificação biológica do tumor, se tiver o “Her 2”, há a terapia alvo. É uma droga imunobiológica que consegue dentro da célula bloquear o receptor que vai promover a metástase. Foi um ganho muito grande. Outras drogas levam substâncias até um determinado nível celular que bloqueia a multiplicação, a proliferação. Há também a hormônioterapia.

- Tudo à disposição das pacientes no sistema público?

- Tudo pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Elas têm acesso ao anti HER, as drogas bloqueadoras hormonais, a cirurgia e a reconstituição mamária. É fácil conseguir a reconstituição mamária?Não, a gente ainda tem um pouco de dificuldade, por causa da prótese e outras questões relacionadas.

- Como o profissional encontra força para lidar com tanto drama, encarar o problema e dar suporte às pacientes?

- A gente tem que se preparar emocionalmente e entregar a Deus acima de tudo, porque sem oração e sem entregar a Deus seria muito mais difícil. Tenho paciente hoje com 25 anos de idade, que dei o diagnóstico de câncer de mama há poucos dias. Tem que estar muito segura, muito preparada emocionalmente, para passar tranqüilidade à paciente e, principalmente, estar muito atualizada. E não posso olhar só para a mama. Tenho que olhar para a paciente como um todo. É uma mulher, tem família, tem filho, tem marido.

- Há mulheres que não enfrentam o problema?

- O número é grande, não diria por ignorância, mas por medo, porque para muitas mulheres quando há o diagnóstico de câncer de mama ela se vê diante do próprio funeral. Está com o câncer de mama e vai morrer e não é assim. Se a gente faz o diagnóstico cedo, não morre. Na verdade é o medo, o desconhecimento do que se pode fazer de terapia para ela ser curada.

 

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