sexta, 23 de abril de 2021

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Embora sofra influências, a Paraíba tem suas canções de Carnaval

André Luiz Maia / 03 de março de 2019
É Carnaval! Milhões de foliões se divertem em blocos, festas privadas e aglomerações por todo o Brasil durante a "festa da carne". Nesses quatro dias (e meio, se considerarmos a manhã da quarta-feira), a música tem papel fundamental para animar essas festas.

Os blocos pré-carnavalescos da cidade, a maioria deles surgido no fim dos anos 1980 e início dos anos 1990, também trazem consigo músicas marcantes. Um deles é o Virgens de Tambaú, com o hino composto pelo comediante Marcelo Piancó e por Wilmar Bandeira, também fundadores do bloco, em 1987. Outros destaques são os hinos do Cafuçu, que ocupou na última sexta-feira as ruas do centro histórico da capital, e o do bloco As Raparigas de Chico, composição de Ademilson José e arranjos do maestro João Linhares.

Outros compositores também compuseram músicas em homenagem ao bloco que foram integradas à festa, a exemplo do historiador e jornalista Fernando Moura. No entanto, de todos eles, no entanto, o mais marcante e o que provavelmente está na sua cabeça no momento em que lê a matéria é o Hino das Muriçocas do Miramar: "João Pessoa sonha / Com o seu verde colorindo o azul do mar / E a cidade velha / Já se acorda / Com seu canto secular / São as muriçocas / Abram alas que elas vão voar / Espalhando alegria / De Tambaú ao rio Sanhauá".

Mesmo quem nunca pisou no bairro de Miramar em uma quarta-feira de fogo deve saber de cor os versos da canção composta por Fuba, fundador do bloco e também responsável pelo hino de outro bloco, o Acorde Miramar, lembrado pelo cantor e compositor Chico Limeira. "É um dos hinos mais lindos desses criados aqui na Paraíba", sentencia.

Cueca-pano de prato



Chico lembra com carinho desses hinos e de outras músicas carnavalescas, especialmente as criadas pelo compositor Livardo Alves. "Fez parte da minha infância, eu ouvia muito lá em casa, meus pais tinham os LPs", recorda.

Embora nunca tenha sido uma referência nacional em festa de Carnaval, mesmo nos tempos áureos dos clubes como Astrea e Cabo Branco, a Paraíba deixou sua marca registrada na festividade em todo o Brasil.

Sabe a marchinha que diz, "Eu mato, eu mato / Quem roubou minha cueca / Pra fazer pano de prato"? Pois então, tem sua origem aqui, através da caneta do compositor Livardo Alves, que a população mais jovem de João Pessoa talvez conheça por sua estátua em tamanho real no Ponto de Cem Réis em João Pessoa.

Livardo compôs inúmeros frevos, forrós, xotes, marchinhas, se tornando uma figura popular no meio artístico de João Pessoa por sua criatividade e inventividade. Mas, porque será que a "Marcha da cueca" extrapolou as divisas do estado? Para isso, Fernando Moura tem uma hipótese, que envolve política internacional. Política internacional? Sim, isso mesmo.

No final dos anos 1970 e no início dos anos 1980, conflitos globais como guerras elevaram os preços dos barris de petróleo a níveis estratosféricos, mudando o cotidiano das pessoas, inclusive aqui, no Nordeste Brasileiro

"As charangas e caminhonetes tocavam as marchinhas, os sambas e os frevos pelas ruas do Centro de João Pessoa, mas, com o aumento do preço do petróleo, muitas delas deixaram de circular, ao mesmo tempo em que as festas nos clubes já estavam mais escassas", resgata.

Com o Carnaval pessoense minguando, os foliões acabaram escoando para cidades com tradição forte na festa, como Olinda, Recife e Rio de Janeiro. "Com isso, cada um acabou levando sua tradição musical e, na época, essa marchinha de Livardo era muito popular", completa Fernando Moura.

Música tem, falta espaço



Não é possível falar de música de Carnaval sem lembrar do Carnaval Tradição e seus sambas-enredos. Livardo Alves, por sinal, compôs alguns dos temas da escola de samba Malandros do Morro. Outra pessoa que também está envolvida com esse universo é a cantora e compositora Polyana Resende, que além de ter composto alguns dos hinos recentes da Malandros, também já foi puxadora do samba, cantando junto com a velha guarda da agremiação.

Para a artista, essa expressão cultural carece de atenção e apoio do poder público para crescer. “A gente não escuta essas músicas tocando em outros lugares. As rádios não tocam, então isso acaba resumido ao período do Carnaval e aos membros de cada escola”, lamenta.

Chico Limeira afirma que essa questão da música do Carnaval, de maneira mais ampla, também envolve as transformações do mercado e da forma de consumo da música. “Justamente por não termos essa tradição, acho que a melhor maneira de criarmos um movimento é aproveitar a multiculturalidade. Acho que os artistas da cena independente daqui conseguem movimentar as pessoas e agregar estilos musicais como rock ao samba, o eletrônico ao coco, e assim criar uma outra forma de pensar Carnaval”, completa.

Aliás, em termos de samba de escola, vale lembrar que o paraibano Zé Katimba é um dos principais compositores da Imperatriz Leopoldinense. A música de carnaval feita por paraibanos, de certa forma, achou lugar até na Marquês de Sapucaí.

"João Pessoa nunca teve uma tradição carnavalesca forte como é o caso do Recife, da Bahia, com uma personalidade única. Acho que, caso a gente queira ouvir mais músicas carnavalescas produzidas, é preciso que haja não apenas uma iniciativa solta, de algum artista, mas um movimento da cena." - Fernando Moura, jornalista

 

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