segunda, 15 de julho de 2019
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Elba Ramalho fala sobre a homenagem que recebe do Muriçocas do Miramar

André Luiz Maia / 27 de fevereiro de 2019
Foto: Alessandro Potter/Divulgação
Elba Ramalho faz parte do seleto grupo de artistas que se tornaram símbolo de duas das principais festas públicas do país, o Carnaval e o São João. Tanto é que a paraibana ganha uma justa homenagem este ano do Muriçocas do Miramar, o principal bloco de arrasto do pré-Carnaval de João Pessoa (veja mais sobre a programação do Folia de Rua hoje no caderno Cidades).

A cantora encerra a programação do bloco hoje, cantando em um palco montado no final da avenida Tito Silva. “Quero aproveitar o espaço de vocês do CORREIO para agradecer publicamente pela homenagem feita pelo Muriçocas a mim. Me sinto muito honrada de receber disso de um bloco da minha terra”, declarou Elba, ao telefone.

A tosse que entrecortou a conversa em alguns momentos é um sinal leve dos limites que o corpo impõe a uma maratona frenética que começa em janeiro, com o projeto Elba Convida, em Trancoso, na Bahia, e culmina no Carnaval Multicultural do Recife, agora no início de março. Para dar conta do rojão, os cuidados com a saúde e a mente são suas prioridades.

“A gente vive se cuidando, porque ou se cuida ou cai por terra, né? Voz, corpo... É uma vida de muita disciplina. Uma boa noite de sono, boa alimentação, não bebo, não fumo, faço ioga, corro. Também tem o espírito, algo muito pessoal meu, que me dá suporte para poder me manter com vontade, com alegria. Se não tiver muito amor pelo que faz, não faz”, sentencia Elba Ramalho.

Quem a viu aqui na cidade no Réveillon de 2015 para 2016 atestou de perto essa energia e amor pelo que faz. São horas e horas em pé, levantando um público com repertório robusto e diverso, passando pela tradição musical e folclórica nordestina, com frevo, maracatu, caboclinhos, mas abraçando ritmos como axé e samba. No sábado passado, ela subiu em um trio para arrastar uma multidão de paulistanos, incluindo em seu repertório músicas de artistas como Demônios da Garoa e Adoniran Barbosa. “Meu Carnaval é assim, trago o Nordeste e minhas referências fortes, sem deixar de olhar para a riqueza dos outros Carnavais, do São Paulo, do Rio, do Norte do país”, alerta.

O bloco em questão é o Frevo Mulher, em que leva artistas do sexo feminino como convidadas para a festa. Apesar disso, a cantora é avessa a “panfletarismos", como a própria adjetiva. “A música 'Frevo mulher'exalta a condição feminina. Não encaro como algo panfletário. ‘Ah, empoderamento...’, acho isso chato. As mulheres poderosas e empoderadas dão seu grito natural de libertação e se realizam, como eu, que saí cedo da Paraíba, larguei família, construí tudo sozinha, passei por todas as adversidades. Me abati, mas sem me sentir deprimida. Tudo isso reflete meu trabalho no Frevo Mulher, que reforça a consciência feminina indo pelo caminho da música em si, algo que eu acho muito bonito”, enfatiza.

Essa postura, no entanto, não a faz deixar de falar sobre as questões sociopolíticas que envolvem a mulher. “Tem certas coisas que deveriam ser óbvias. As mulheres precisam ser respeitadas, amadas, não podem ser agredidas, violentadas. É algo que já devia estar intrínseco à nossa sociedade”, completa.

De volta ao Carnaval, Elba Ramalho mostra alguns sentimentos conflitantes em relação à folia do Momo. Ao mesmo tempo em que tem memórias fortes de sua infância, também critica o perfil escapista atribuído ao evento. Sua história com o frevo vem do seu pai, de família pernambucana e músico de orquestra, fazendo com que ela estivesse íntima do ritmo desde o berço.

Depois, no Rio de Janeiro, conheceu artistas como Alceu Valença, Geraldo Azevedo e o compositor Carlos Fernando, o que a transformou em um dos grandes nomes do Carnaval de raízes nordestinas. Mas, ao mesmo tempo, ela reflete sobre a festa em si e a forma como ela se configura hoje em dia.

“Eu penso muito sobre isso. Todo ano eu digo que será meu último Carnaval, que eu preferia estar em um retiro espiritual ao enfrentar tudo isso, mas, ao mesmo tempo, é o meu trabalho”, confessa a cantora, com franqueza. Sua preocupação se dá, principalmente, pela festa ser usada como diversionismo, ou seja, uma forma de evitar encarar os problemas do país de frente.

No entanto, seu olhar também é de afeto. “É nossa cultura, algo que se construiu ao longo de décadas, é uma tradição e um momento de extravasar. Só queria que as pessoas tivessem mais cuidado consigo mesmas”, completa Elba Ramalho.

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