quarta, 12 de maio de 2021

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Editoras brasileiras apostam em edições de luxo e coleções de obras consagradas

André Luiz Maia / 24 de junho de 2018
Foto: Divulgação
O Brasil é um país com índices de leitura baixos, fratura exposta revelada em relatórios como o mais recente do Banco Mundial, estimando que o Brasil demorará pelo menos 260 anos para atingir o nível de leitura de países desenvolvidos. Em 2016, a pesquisa Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, encomendada pelo Instituto Pró-Livro, revelou que 44% da população brasileira não lê e 30% nunca comprou um livro. Diante deste cenário e do advento dos livros digitais, é curioso observar a movimentação de editoras que cada vez mais investem em edições especiais de clássicos, muitas vezes em capa dura ou reunidas em boxes temáticos ou de um mesmo autor.

Editoras como a Zahar possuem um selo específico para clássicos (já lançou Alice, Os Três Mosqueteiros, O Mágico de Oz, Édipo Rei, e muitos outros, em edições comentadas ou de bolso, sempre em capa dura). A HarperCollins Brasil recentemente publicou livros em capa dura de Agatha Christie e a coleção completa de Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle, reunida em uma caixa. O personagem, aliás, também ganhou edições da Zahar, assim como Drácula, nos últimos anos, saiu por várias editoras brasileiras diferentes (inclusive a Zahar, e também pela Nova Fronteira, Landmark, Cia. das Letras, Quarto Editora, Via Leitura).

Mariana Rolier, editora da HarperCollins Brasil, acredita que é uma demanda crescente. “O leitor no Brasil está associando o clássico à qualidade e à coleção, o que implica no desejo da melhor edição, tradução, design. O leitor quer uma edição que ele considere definitiva em sua estante”, afirma. O fenômeno não é novidade lá fora, mas o Brasil vê a proliferação de edições mais requintadas, para todos os gostos.

O escritor e jornalista Tiago Germano acredita que parte deste movimento se assemelha a algo que aconteceu no mundo da música. “Há uma fetichização do leitor. Na música, os LPs de hoje em dia se tornam artigo de luxo, para fã. Acho que acaba acontecendo o mesmo com o livro. A gente ainda é muito apegado ao objeto livro, talvez pelo Brasil ser historicamente um país iletrado, e o colocamos em um pedestal. No Instagram, vejo as pessoas exibindo os livros, mas poucos leem. É um grande paradoxo” opina.

Muitos clássicos já estão em domínio público: 70 anos após a morte do autor, seus livros podem ser publicados livremente, sem a necessidade de pagamento pelos direitos da obra. As editoras estão investindo nessas obras porque sai mais barato?  Daniele Cajueiro, diretora editorial do grupo Ediouro (do qual faz parte a Nova Fronteira, que está lançando este mês uma caixa com volumes em capa dura de Júlio Verne, como já fez com Shakespeare, Nelson Rodrigues e clássicos do terror), afirma que essa não é uma questão preponderante.

“Nós fazemos edições tanto de livros em domínio público quanto de autores consagrados que ainda têm seus direitos autorais reservados. É importante lembrar que mesmo as obras livres ainda têm outra questão: a tradução. Nós publicamos Shakespeare, que está em domínio público, mas a tradução que usamos é a de Barbara Heliodora, que está protegida. Então o fato de clássicos serem mais baratos de editar é relativo”, explica.

A escritora Débora Ferraz acrescenta outro ponto à discussão. “Eu percebo que nosso mercado editorial está mais elitista. Quem compra um livro hoje em dia está disposto a pagar mais, então é natural que as editoras façam produtos a esse público, que não é numeroso, mas é fiel”, analisa. De qualquer maneira, os leitores interessados agora possuem mais opções à venda nas livrarias.

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