quarta, 14 de novembro de 2018
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Dois adolescentes ateiam fogo na Expofeira, em Tambaú

Bárbara Wanderley / 31 de outubro de 2018
Foto: Nalva Figueiredo
“Perdi tudo que eu tinha, não sobrou nada. Não sei como vou passar o natal, o ano novo”, disse, entre lágrimas, a comerciante Simone Vasconcelos. Ela é locatária de um dos 40 quiosques que pegaram fogo na Expofeira de Artesanato Tambaú, na madrugada de ontem, na orla de João Pessoa. O incêndio teria começado após dois adolescentes, de 15 e 16 anos, atearem fogo em um pedaço de tecido, para servir como iluminação, enquanto eles praticavam um roubo no local.

“Eu tenho muita pena das pessoas lá dentro, um pessoal batalhador, eu sinto muito não só por mim, mas pelo próximo. A gente tem que ter amor ao próximo”, comentou Simone, que estima que perdeu cerca de R$ 7 mil em mercadorias. Ela, que estava trabalhando no local há apenas quatro meses, não tem noção de como recuperar o negócio, que era o seu ganha-pão. “Era uma loja de moda praia. Eu vendia biquíni na praia do Seixas e comecei a procurar um lugar melhor, com sombra, então vim para cá e aconteceu isso. Infelizmente é a vida. Pra gente conseguir as coisas a gente sofre tanto”, disse.

Simone Vasconcelos relatou que havia saído do trabalho pouco depois das 22h na segunda-feira e só ontem pela manhã ficou sabendo que tinha perdido tudo com o fogo. “Logo cedo minha sogra me ligou contando que tinha acontecido essa tragédia”. Assim como Simone, diversos comerciantes choravam na porta do local na manhã de ontem. Ninguém tinha seguro.

O proprietário da Expofeira, Sidnei Marcos Albuquerque Araújo, também lamentava o prejuízo. “A gente lutou demais para fazer alguma coisa aqui e em termo de meia hora acabou tudo. São muitas famílias que vivem disso aqui”, comentou. Ele contou que é empreendedor há cerca de 10 anos, mas nunca teve seguro contra incêndio. “Jamais o cara vai pensar que vai pegar fogo um negócio desses. Ontem pela manhã veio um pessoal dos Bombeiros fazer uma vistoria aqui e disse que estava tudo ok. Acabou tudo, eu sei lá o que eu vou fazer”.

A residência dele, que fica ao lado da Expofeira, também sofreu danos. De acordo com o diretor de Minimização de Desastres da Defesa Civil de João Pessoa, Alberto Sabino, uma parede lateral da casa teve a estrutura danificada e corre o risco de desabar. “Estava dormindo, senti o cheiro. Tirei logo minha esposa e meu guri de dentro de casa e corri para tentar apagar o fogo. Ainda tentei pegar o extintor, mas era fogo demais, não dava”, contou Sidnei Marcos. Por causa do rico de colapso da parede, ele afirmou que só pôde entrar em casa pela manhã até um certo ponto, não podendo se aproximar da parede comprometida.

Do outro lado da Expofeira, o Victory Flat também foi afetado pelo fogo. Segundo Alberto Sabino houve danos em vidraças, na parte elétrica e em aparelhos de ar condicionado do estabelecimento.

O Portal Correio esteve no local no final da tarde de ontem para saber a extensão dos danos e o prejuízo causado pelo fogo no Hotel Victory, mas foi informada que a gerência não falaria sobre o caso e que aguaradava a presença do dono do estabelecimento.

Sidnei Marcos afirmou que tentará se juntar aos locatários que perderam seus quiosques para tentar achar uma saída da situação.

Objetivo era roubar

De acordo com o delegado que estava de plantão e atendeu o caso, Marcos Vasconcelos, os adolescentes de 15 e 16 anos teriam entrado na Expofeira na intenção de furtar objetos eletrônicos, como caixas de som, mas como estava escuro, os suspeitos decidiram atear fogo em um pedaço de tecido. O fogo rapidamente perdeu o controle e acabou se alastrando por todo o estabelecimento. Ninguém ficou ferido. O Corpo de Bombeiros recebeu o chamado por volta de 0h30.

Ao perceber que o fogo estava tomando conta de todo o local, os adolescentes fugiram em direção ao mar com quatro sacolas cheias de equipamentos roubados, na intenção de se esconder em catamarãs que estavam ancorados na orla. Porém, policiais militares que foram atender a ocorrência do incêndio também entraram no mar e conseguiram capturar os suspeitos.

Durante o incêndio, hóspedes do Victory Flat, que fica ao lado da Expofeira e também foi atingido, viveram momentos de terror. Com medo de que o fogo se espalhasse ainda mais, muitos decidiram pular as janelas do hotel e descer até o térreo, usando mastros de bandeiras que ficam na frente do estabelecimento. BW

Internação foi solicitada

Os dois adolescentes foram encaminhados à Central de Polícia Civil de João Pessoa, para logo depois serem apresentados a promotora da Infância e Juventude do Ministério Público da Paraíba, Ivete Arruda, que, após oitiva, solicitou a internação provisória de ambos no Centro Educacional do Adolescente (CEA). A internação provisória deve durar cerca de 30 dias, até que haja a audiência de apresentação, na qual será solicitada a internação definitiva de ambos, conforme explicou a promotora.

Segundo o delegado Marcos Vasconcelos, um deles já tem passagem pela polícia. “O de 16 anos ainda responde por ato infracional semelhante a roubo. Já cumpriu medida socioeducativa no CEA e foi liberado sob algumas condições, como não sair à noite e se apresentar uma vez por mês. O fato de ele estar na rua depois da meia-noite praticando delitos já mostra que ele descumpriu a medida”, relatou.

Em relação ao outro adolescente, o delegado comentou que poderia tê-lo devolvido à família, mas em função da repercussão do caso, a irresponsabilidade dos atos dos adolescentes e o fato de o crime ter sido premeditado, ele preferiu deixar o caso nas mãos da promotoria.

A promotora relatou que os jovens são usuários de drogas e um deles tem a mãe albergada. Ivete Arruda afirmou ainda, que um dos jovens é analfabeto. “Esperamos que no período que ele ficar internado aprenda a ler e escrever”.

 

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