quarta, 19 de dezembro de 2018
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Débora Gil Pantaleão fala sobre seu novo livro de poesias

André Luiz Maia / 04 de novembro de 2018
Débora Gil Pantaleão está em processo constante de transformação, especialmente na sua escrita. O seu quarto livro de poesia, objeto ar (todos os títulos da autora são escritos em letras minúsculas) é a prova disso. A escritora acredita que, mais que o conteúdo, a forma também diz bastante sobre a obra.

"Como estudo literatura e faço pesquisa acadêmica, eu sempre penso em forma e conteúdo. Por mais que o conteúdo tenha temas tabus como suicídio e morte, ele vai tomando novas significações de acordo com a forma que estou usando", explica Débora Gil.

Dividido em três seções, a obra traz diferentes maneiras de escrever poesia. A primeira parte reproduz a mesma estética trabalhada em seu livro anterior, sozinha no cais deserto, com poemas em uma palavra por estrofe. No meio, as métricas são mais regulares. Por fim, vêm poemas curtos, que deve ser a forma como a autora deve trabalhar seus livros seguintes.

Cada seção dialoga com trechos do romance Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, de Clarice Lispector. "Tinha que estudá-lo para uma disciplina do doutorado e vi que ele tinha tudo a ver com o que eu estava pensando em colocar nesse livro", completa.

Hoje, Débora promove uma noite literária na Miragem, ocupação da Tamarindeira Processos Criativos, em Miramar. Além da autora, estarão presentes as escritoras Moama Marques e Priscila Rodopiano para uma conversa literária, seguida de um sarau poético, com a participação das atrizes Suzy Lopes e Raquel Ferreira.

Mais que autopublicar

O título de objeto ar surge por conta de uma confusão engraçada. "Estava com minha psicanalista, que falava sobre conceitos desenvolvidos por Lacan. Um deles me despertou a atenção, chamado Objeto A. No entanto, eu tinha entendido que se tratava de 'Objeto Ar'. Essa confusão acabou me dando um título que achei pertinente ao que estava querendo escrever", explica Débora.

O termo, presente na teoria do psicanalista francês Jacques Lacan, diz respeito à representação do desejo inatingível que move os seres humanos a continuarem existindo. Esse tipo de reflexão encaixa com os motivos que levaram Débora Gil Pantaleão a fundar sua própria editora, a Escaleras.

Inicialmente, o selo foi criado para publicar seus próprios livros. "Sempre tive curiosidade e vontade de coordenar não apenas a escrita, mas todos os processos de produção de um livro. Tenho preocupação pela diagramação, pela revisão, pela arte da capa, tudo isso é uma extensão da obra artística que é um livro", defende a autora e editora.

Com o tempo, a Escaleras passou de um projeto pessoal para autopublicação para se tornar uma curadoria e suporte a escritores. Maria Valéria Rezende foi a primeira a ingressar no projeto, publicado Histórias Nada Sérias. A partir daí, Débora foi buscando acompanhar o processo de escrita dos autores, não cabendo a si apenas o papel de aprovar ou recusar projetos, mas orientar e apontar caminhos.

Um dos casos é o da professora Isabor Quintiere. A autora já tinha alguns escritos, mas não tinha confiança se eles valiam uma publicação. Após o contato com Débora, surge A Cor Humana, sua primeira publicação, um livro de contos. "Meu trabalho como professora me motiva a fazer parte do processo, não consigo apenas dizer ok ou um não", completa Débora Gil.

A Escaleras chegou a publicar títulos de autores de outras regiões do país, fruto da repercussão espontânea das publicações que ganharam a internet. Neste momento, no entanto, Débora decide mudar os rumos da Escaleras, encarando como um projeto pessoal.

"Eu costumo dizer que a vida só me apresentaria dois caminhos: me matar ou criar uma editora. Escolhi o segundo caminho. Agora, tenho uma responsabilidade não só comigo, mas com os autores que eu trabalho. Não vai dar pra mudar de ideia agora", brinca.

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