segunda, 24 de junho de 2019
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De livro novo, Solha prometeu não voltar à pintura, mas não abandona a literatura

André Luiz Maia / 15 de julho de 2018
Foto: Nalva Figueiredo
Artista de múltiplos talentos, Waldemar José Solha decidiu assumir um compromisso definitivo com a palavra. Com quase 80 anos, ele se dedica à literatura, deixando de lado suas atividades nas artes cênicas e plásticas. Fruto mais recente de sua mente inventiva, A Engenhosa Tragédia de Dulcineia e Trancoso é definida pelo próprio autor como um "rimance", unindo prosa e poesia banhada de referências à cultura e humor refinado.

O livro surge por conta de um pedido do compositor Eli-Eri Moura, que queria criar a primeira ópera armorial. Para isso, convocou Solha para escrever seu libreto, resultando em Dulcineia e Trancoso. Não contente com o resultado final, o escritor decidiu expandir aquela história e continuá-la em um livro propriamento dito. E é aí que surge "a engenhosa tragédia" que antecede o título.

Toda contada em rimas, com versos sem métrica definida, a história nos transporta para o Sertão pernambucano, mais especificamente São José do Belmonte, apresentando uma salada de referências a várias outras obras.

“O próprio livro brinca com seu título, explicando o que é essa ‘engenhosa tragédia’, além de questionar a própria distinção entre fantasia e realidade. Em um momento, o próprio palhaço Trancoso do título puxa seu parceiro, São Chupança e diz: 'Rapaz, você não reparou, a gente está falando em versos, isso não existe!'", explica W. J. Solha.

Sob a cobertura ostensiva de flashes e câmeras, a Pedra do Reino citada por Ariano Suassuna em sua obra-prima está prestes a se abrir. "No livro original de Ariano, a lenda dava conta que o próprio D. Sebastião de Portugal estava lá dentro e que sua saída significaria a cura dos males do mundo. Aqui, eu decido mostrar o que aconteceria caso ela se abrisse", completa o autor.

Para anunciar esta chegada triunfal, nada mais, nada menos que o próprio Ariano e seu ídolo, Miguel de Cervantes. No meio dessa história, o palhaço Trancoso e sua amada Dulcineia, uma beldade não tão bela que se submete a um banho de loja para conquistar o amado.

A ameaça fica por conta das Forças Armadas brasileiras, que querem explodir a pedra antes que qualquer coisa aconteça. A narrativa bem-humorada de Solha inclui uma série de menções à imprensa, inclusive a paraibana: o poeta Astier Basílio é quem entra em campo para fazer a cobertura do evento surreal.

 

Conclusões. Obras como Cantata para Alagamar, também em parceria com Eli-Eri Moura, marcaram o nome de W. J. Solha no teatro. Um painel feito em homenagem a William Shakespeare, exposto na Reitoria da UFPB, é um de seus vários trabalhos nas artes plásticas. Ao longo dos anos, Solha foi encerrando capítulos nessas expressões artísticas, um de cada vez.

“Eu vivia pulando de galho em galho. Quando chegou em 1990, quando fiz uma peça sobre a vida de Jesus, disse que não iria fazer mais teatro. Eu achei que se eu fosse continuar a fazer, eu estaria me repetindo. Em 2004, fiz uma exposição com quadros baseados em fotos de Antônio David e quando eu vi a exposição pronta disse que também não iria mais pintar", relembra.

A atuação também foi outra arte que decidiu não exercer novamente. Seus últimos trabalhos no cinema foram Era uma Vez Eu, Verônica, de Marcelo Gomes, e O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, em 2013. Este último, por sinal, tem uma relação com Dulcineia e Trancoso. Convidado para assistir à estreia da ópera no Recife, Solha subiu ao palco no fim da apresentação, chamando a atenção do diretor de elenco do filme.

No dia seguinte, o paraibano recebe uma ligação, oferecendo-lhe o papel de Francisco, o velho coronel inserido no contexto contemporâneo. “Eu disse que não. Estava com 70 anos, cansado em trabalhar em filme ruim. É uma trabalheira que muitas vezes não vale a pena. Pedi que ele me mandasse o roteiro, pois poderia ler e recusar a oferta. Mas aí quando eu li, vi que era muito bom. Não tive como recusar”, recorda.

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