terça, 11 de maio de 2021

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Confira coluna do Professor Trindade deste domingo

Redação / 08 de julho de 2018
Foto: Divulgação
As cidades pequenas são pródigas em músicos e histórias bonitas.

Essas histórias são, ao longo do tempo, contadas pelos nossos avós, pais, de preferência ao luar, quando falta luz na cidade, e ao anoitecer.

Das muitas histórias recolhidas por mim, oriundas de Piancó, conto, hoje, uma cheia de ternura. Trata-se da história de “Pedoca”, Pedro Lima de Azevedo, um misto de tabelião e músico, que sempre alegrou Piancó com as sinfonias emanadas do sax, o qual ele tocava tão bem.

“Pedoca” era uma figura. Como tabelião, misturava os nomes da gente. Por exemplo: meu Cavalcante é com E, enquanto o de outros meus irmãos é com I; eu sou João Trindade Cavalcante, enquanto alguns irmãos meus são Cavalcante Trindade, e por aí vai... Os erros contavam com a conivência do meu pai, é certo; porque Zé Trindade deixava um papelzinho com os dados do filho para, muito mais tarde, quando precisasse, ir buscar o registro. O mais engraçado, porém, é a certidão de casamento de minha mãe. A princípio, é Cavalcanti; algumas linhas mais à frente, no mesmo documento, é Cavalcante.

Mas deixemos “Pedoca” tabelião. Falemos de “Pedoca” músico, que embelezava as noites de Piancó, segundo contava minha mãe.

A história de amor é sublime. “Pedoca” era apaixonado pela esposa, falecida prematuramente. Dali em diante, resolveu fazer uma forma inusitada de homenagem à amada morta. Sempre que a saudade batia, ia ao cemitério e, na porta, entoava não só uma canção a todos os mortos, como também à morta querida. E, de quebra, ainda embalava a cidade, embevecida com o som perfeito do instrumento dele, um dos maiores músicos de que se tem notícia.

No instrumento, sim, “Pedoca” era super cuidadoso. Não admitia improvisos, nem troca de notas, como o fazia no cartório.

A história de “Pedoca”, assim como outras, já contada por mim, aqui, neste mesmo espaço, são retalhos de uma Piancó até hoje adormecida na memória dos filhos dela que se mudaram ou dos mais novos, cujos pais perderam o costume de contar histórias.

Não podemos deixar de contar essas histórias. Elas fazem muito mais a História de uma cidade do que mil episódios políticos juntos.

 

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