terça, 26 de janeiro de 2021

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Confira a coluna do Professor Trindade deste domingo

Professor Trindade / 22 de abril de 2018
Foto: Divulgação
 

Um texto não é um amontoado de ideias soltas, mas sim um todo que, mesmo quando observado por partes, exige uma análise em que se levam em conta aspectos contextuais.

Nas provas de concursos, as questões podem incidir sobre o todo ou sobre partes do texto.

Antes de mais nada, é preciso salientar o seguinte: para se interpretar bem um texto, é preciso lerbem.

Como ler bem?

Para LER BEM um texto, o candidato deve ter um MÉTODO, que se resume em leituras em que se obedece a certas “regras”:

1ª leitura: Leitura de Contato

Nessa fase, o candidato deve ler o texto SEM PARAR, para não perder a noção do TODO do texto. Não caia na tentação de se preocupar com o vocabulário, se não você vai PERDER a noção do TODO. Mesmo que não esteja entendendo NADA, NÃO PARE! Não se preocupe: as ideias do texto vão ficar no seu SUBCONSCIENTE.

2ª Leitura: Leitura de Análise

Aí sim, você vai parar e analisar, detalhadamente, os diversos aspectos do TEXTO:



  1. a) VOCABULÁRIO (aqui, o dicionário é imprescindível!)


  2. b) ESTRUTURAS GRAMATICAIS




Nas nossas aulas, é muito comum o aluno perguntar:

- Mas, professor, o que tem a ver gramática com interpretação?

TUDO A VER!

As estruturas gramaticais são feitas para você ENTENDER textos, e não para  DECORAR REGRAS.

Responda o seguinte:

É mais fácil entender uma conversa que está na ordem DIRETA, ou na ordem INVERSA?

A resposta é óbvia: É mais fácil entender uma frase na ordem direta do que na ordem inversa.

Como saber, então, se uma frase está, ou não, na ordem DIRETA?

A ordem DIRETA tem a seguinte estrutura:

SUJEITO + VERBO + COMPLEMENTOS VERBAIS + ADJUNTOS ADVERBIAIS

Ex.:

Os homens (sujeito)compraram (verbo)uma briga grande (complemento),   na festa de ontem. (adjunto adverbial)

Qualquer mudança nessa ordem, acarretará a INVERSÃO.

Ex.:

Na festa de ontem, os homens compraram uma briga grande.

Em frases simples, a inversão não traz muitos problemas de interpretação. Mas observemos este verso de Vinícius de Moraes:

“DE TUDO, AO MEU AMOR SEREI ATENTO ANTES.”

Será muito mais fácil de entender o que o poeta está querendo dizer se você colocar a frase na ordem direta.

SEREI ATENTO AO MEU AMOR, ANTES DE TUDO.

Uma observação importante:

QUANDO A FRASE COMEÇAR COM PREPOSIÇÃO, estará, inevitavelmente, na ordem inversa.

Por quê?

Ora, porque não existe sujeito preposicionado.



  1. c) LEIA GRIFANDO. Grife passagens que apresentem, para você, dificuldade de entendimento.




3ª leitura: Leitura de Confirmação

Aqui, é preciso ter muito cuidado. Geralmente, quem faz prova tem uma tendência a querer ACHAR uma alternativa correta e NOMEÁ-LA como a resposta do gabarito.

Não caia nessa. Leia o texto sem uma ideia predeterminada. Após ter formado uma ideia SOBRE O TEXTO (mas não sobre uma “resposta”), compare-a com cada uma das alternativas, escolhendo aquela que melhor se enquadra à ideia formada.

O QUE AS COMISSÕES QUEREM?

As questões relativas a texto pedem, com prioridade, os seguintes aspectos1:



  1. a) Substituir palavras, expressões ou estruturas oracionais por outras equivalentes quanto ao sentido.


  2. b) Compreender o sentido de certos termos e expressões à luz de um determinado contexto.


  3. c) compreender como um TODO o pensamento desenvolvido em um texto, em qualquer nível de generalidade.


  4. d) Distinguir afirmações básicas de afirmações acessórias.


  5. e) compreender as inter-relações de ideias num texto.


  6. f) resumir as ideias de uma frase, parágrafo ou texto.




ERROS “CLÁSSICOS” NA INTERPRETAÇÃO



  1. a) EXTRAPOLAÇÃO: Ir além dos limites do texto; acrescentar, indevidamente, elementos desnecessários à compreensão do texto.


  2. b) REDUÇÃO: Abordar apenas uma parte, um aspecto do texto; quebrar o conjunto; isolar o texto do contexto.


  3. c) CONTRADIÇÃO: Chegar a uma conclusão contrária à do texto; perder passagens do desenvolvimento, invertendo o sentido.




Exemplo:

Soneto de fidelidade

Vinícius de Moraes

De tudo, ao meu amor serei atento

Antes; e com tal zelo, e sempre, e tanto,

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento.

 

Quero vivê-lo em cada vão momento

E em seu louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento.

 

E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte – angústia de quem vive

Quem sabe a solidão – fim de quem ama

 

Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama,

Mas que seja infinito enquanto dure.

(Obra Completa. Aguillar)

Extrapolação: o texto trata de um amor que o eu lírico viveu e que o fez muito feliz.

Redução: o texto trata de um grande amor entre duas pessoas

Contradição: o texto diz que o amor não é duradouro e facilmente substituível.

Contradição: o texto diz que o amor não é duradouro e facilmente substituível.

LINGUAGEM FIGURADA: elemento essencial.

Engana-se quem pensa que as provas de concurso não trazem textos literários; muito ao contrário: mesmo nas provas dos concursos ditos “profissionais”, é frequente o uso de textos literários, o que não exclui a presença de textos não-literários. Geralmente, as comissões colocam, na mesma prova, um texto literário e um não literário, sendo os do segundo grupo um jornalístico, ou técnico.

É preciso lembrar que, mesmo nos textos “TÉCNICOS”, é possível se usar a linguagem FIGURADA; observe-se, por exemplo, a linguagem que o famoso jornalista JOELMIR BETING usava nas suas análises sobre ECONOMIA.

CONOTAÇÃO E DENOTAÇÃO

A CONOTAÇÃO é a linguagem FIGURADA, enquanto que a DENOTAÇÃO é a linguagem OBJETIVA.

São níveis diferentes de linguagem, sendo que a primeira parte de uma ideia da segunda:

Ontem, comi doce de goiaba (linguagem denotativa).

“Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos, que são doces.” (linguagem conotativa)

Observe-se um belo exemplo de conotação:

“Pus o meu sonho num navio

O navio em cima do mar

Depois abri o mar com as mãos

Para meu sonho naufragar...”

TEXTO EM PROSA/ TEXTO EM VERSO

O texto em prosa é dividido em PARÁGRAFOS, tem pontuação regular, não tem um ritmo definido e não tem rima:

“E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida, talvez fosse mais triste (...).

Creio que será permitido guardar com uma leve tristeza, e também uma lembrança boa;  que não será proibido confessar que, às vezes, se tem saudade; (...)”

(Rubem Braga)

O texto em verso é dividido em ESTROFES; não tem pontuação regular, tem um ritmo definido, podendo, ou não, ter rima:

“De tudo, ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento.”

Atenção:

Quem vai interpretar um texto em verso deve ter cuidado para não ler parando no final da linha, porque muitas vezes um verso começa numa linha e termina na outra.

Por exemplo:

No poema citado de Vinícius de Moraes, o primeiro verso começa na primeira linha e termina na segunda; é para ser lido assim:

De tudo, ao meu amor serei atento antes.

(na ordem direta: serei atento ao meu amor, antes de tudo).

Note, leitor, que se você parar a leitura em atento (como, infelizmente, se costuma fazer), a frase perderá o sentido.

Uma palavra final:

JAMAIS COMECE A PROVA PELA INTERPRETAÇÃO DE TEXTO E, POR HIPÓTESE ALGUMA, DEIXE-A PARA O FINAL. AÍ, É SUICÍDIO!

O que fazer, então?

Vá para as questões de “gramática”, escolha uma fácil (a mais fácil!) e volte ao texto.

 

 

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