quarta, 17 de outubro de 2018
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Professor João Trindade fala sobre o canto e os encantos do bem-te-vi

João Trindade / 16 de setembro de 2018
Foto: Rafael Passos
O canto (e o encanto) de um bem-te-vi

Confesso que ando desanimado em relação a e descrente com a poesia brasileira; sobretudo, a paraibana.

Não surgem mais poetas; surgem versejadores e alguns candidatos a poeta arrogantes ou narcisistas, querendo impor seus versos ou escrevendo para “ganhar concursos literários”.

Foi nesse universo de descrença e desânimo que me deparei com o livro “Versificando – Bem te vi e outros poemas”, do estreante poeta paraibano Luiz Antônio de Souza Almeida, de apenas 16 anos. O livro foi-me entregue pelo pai dele, Sérgio Almeida, meu colega de ofício.

Gostei muito do que li. O poeta, apesar da pouca idade, já se revela quase maduro. É claro que há imperfeições, porque ninguém estreia na literatura, sobretudo em poesia, com textos perfeitos.

Empolguei-me já com o primeiro poema, que dá subtítulo ao volume: lirismo suave, metáforas bem colocadas, versos bem enleados, nos quais não sobram palavras.

Transcrevo alguns momentos:

“Bem te vi chegando a minha vida

Talvez até já tenha visto mas não pude crer

Qual seria minha existência tida

Se tu não viesses a aparecer?

(...)

Bem te vi antes da tua chegada

Não consigo fechar o olhar

Tamanho o golpe da espada

Mais forte que as ondas do mar

Bem te vi e não sei explicar

Este sentimento banal que sinto

Seria eu digno de amar?”

Sem dúvida, um poema em que a poesia habita no simples da linguagem, mas no complexo da estrutura poética, que o poeta soube “esconder” e não deixar o “peso” para o leitor.

É claro que esse bem-te-vi não é apenas o pássaro; é uma imagem mais profunda, que habita no “eu-lírico”, de forma singular e cujo sentimento transfere para o leitor, que pode ver esse “pássaro” de várias formas; e nisso reside a poesia.

O arremate (presente no primeiro verso da última estrofe) é divino:

“Bem te vi e não sei explicar”

No jogo lúdico-gramatical da junção verbo/substantivo, está a essência do poema, como se fora uma “chave de ouro”, mesmo não se tratando de um soneto.

Tem razão o avô/intelectual/escritor Antônio Sobrinho, quando assinala no prefácio:

“Todo poeta traz uma centelha do fogo que o gelo das relações procura apagar.”

Luiz Antônio trouxe para mim a centelha do fogo que não as relações, mas a mesmice e pasteurização da poesia brasileira atual estavam gerando gelo e tentando apagar.

Bem-vindo, poeta, a um mundo com o qual você ainda terá muito o que aprender. Mas cada percalço desse caminho ensinará, cada vez mais, a você que a poesia é – e tem que ser – um fazer despretensioso. E como bem ensinou você nas “palavras do autor”, o importante é estar feliz com o fato de sua poesia, por ventura, ser compartilhada com o mundo. Ela já está sendo. E o mundo literário agradece.

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