sábado, 12 de junho de 2021

Comportamento
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Conheça os pequenos influenciadores digitais

Lucilene Meireles / 25 de novembro de 2018
Foto: Nalva Figueiredo
Elas ainda são muito pequenas, mas dominam com maestria os conteúdos digitais, colocando em prática uma criatividade impressionante no universo tecnológico. São ‘estrelas’ mirins, atuando como influenciadoras digitais inspiradas nos perfis que seguem nas redes sociais. Por enquanto, produzir e postar conteúdos para elas é pura diversão, mas especialistas afirmam que, mais do que lazer, a brincadeira pode se tornar, inclusive, profissão, desde que sob o olhar atento dos pais.

Todo esse envolvimento pode ainda contribuir para um melhor aprendizado escolar, potencializando o rendimento em sala de aula e favorecendo a socialização. É uma forma de extravasar energia e mostrar ao mundo – literalmente – a engenhosidade das mentes infantis. Pode ser positivo ainda para o desenvolvimento da autonomia, da concentração, do raciocínio lógico, de um comportamento mais espontâneo e até a vencer medos, como a timidez.

Sofia e Natália são totalmente ativas, diferente de outras crianças que não têm a mesma imaginação ou que não foram estimuladas a desenvolver a inventividade. Têm talento nato, mas de acordo com uma psicóloga clínica e uma psicopedagoga, para garantir essas vantagens precisam crescer tendo orientação e aliando isso aos estudos. Do contrário, o outro lado da moeda pode surgir e o que era para ser construtivo passa a ser prejudicial.

Autonomia e concentração

Ser parte do mundo dos youtubers e influenciadores digitais pode ajudar no desenvolvimento intelectual de crianças e adolescentes, segundo a psicóloga clínica Cássia Freitas. “É uma nova perspectiva de educação no contexto do desenvolvimento deles, uma faceta a mais no universo das mídias sociais”, disse.

Para crianças até os 5 anos, ela observou que o fato dos pequenos conseguirem acionar uma rede social, como o YouTube, é uma autonomia que representa crescimento. “Isso precisa ser trabalhado e transferido para a experiência de vida na escola. Aí, estão envolvidos, além da autonomia, a capacidade de concentração, a possibilidade de entendimento e aceitação de certos contextos psicológicos e sociais como empatia, solidariedade, educação ambiental. Essa utilização tem um lado positivo, como todo processo de educação, coisas que vão enaltecer o ser humano, e um lado que precisamos orientar”.

Entre os benefícios estão também a facilitação de relacionamentos de adolescentes e crianças. “Não dá para excluir os recursos que estão cada vez mais aperfeiçoados. Nossa espécie tem sofrido alterações neurológicas a partir dessa vivência, nos pensamentos, raciocínio lógico, na atenção”, avaliou. Crianças e adolescentes mergulhados na experiência de ser um youtuber ou influenciador digital têm outro benefício, perder a timidez. “Existe uma relação de melhoria da aprendizagem da criança. Isso é comprovado pela Academia Americana de Pediatria e Sociedade Brasileira de Pediatria. Há uma relação direta da criança melhorar na escola, na socialização, nas interações, nas competências, na atenção, raciocínio lógico”. Isso, como ressaltou a psicóloga, deve ser estimulado, mas com horário previsto. Na opinião de Cássia Freitas, a experiência deve ser valorizada pela escola e pelos pais, deixando claro para a criança e o adolescente que ela está envolvida em algo importante, onde expõe conteúdos construtivos.

Criatividade em alta

O tempo que a criança ou o adolescente passa na mídia pode ser positivo desde que haja um controle da família para que a criança ou adolescente possa ter outras aprendizagens. Com essa ‘rédea’, é possível somar diversos pontos positivos na participação de meninos e meninas – elas com frequência bem maior – à frente de canais infantis e teens.

“O estímulo, o comportamento mais espontâneo, a questão da criatividade, da comunicação são pontos positivos. Porém, vale ressaltar que se comunicar com inúmeras pessoas com quem não se tem uma relação social é diferente. Precisamos estimular nelas a interação social, o contato olho no olho, com a fala do outro”, avaliou a psicopedagoga Mônica Dias Palitot, professora do Departamento de Psicopedagogia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

Para ela, muitas vezes esse isolamento acaba se tornando prejudicial. “Não podemos isolar essa criança do meio. Aquilo que ela vive é virtual e, com isso, não vai ter a capacidade de interagir com o outro”, alertou. Por outro lado, suprida essa necessidade, ela afirmou que a criatividade e o desenvolvimento da linguagem são muito positivos. “Elas são muito bem articuladas. A criança é muito natural. Ela não tem os controles externos da sociedade. Ela é o que ela é. Se ela fala bem, é porque ela é assim”.

A psicopedagoga Mônica Palitot observou que, no futuro, essas meninas podem continuar com seus canais como um trabalho que pode render lucros. “Por enquanto, porém, estão em desenvolvimento e é possível que surjam outros interesses. Hoje pode ser brincadeira, mas pode virar negócio”, enfatizou.

Fazendo um paralelo com o que ocorre com os atores mirins, ela afirmou que esta é uma nova aba nesse universo. Anos atrás, conforme a especialista, muitos pais levaram seus filhos para testes de ator, seja para realizar o sonho dos pais ou das próprias crianças.

“Isso também acaba sendo uma profissionalização. Muitos continuaram, outros fizeram uma novela e sumiram. Existem outras profissões e, a partir do momento em que percebem o mundo com outros olhos, tudo pode mudar”, completou.

Aprendizado

O lado bom também é reforçado no momento em que a criança ou adolescente busca novas informações para transmitir a outras pessoas e, nessa pesquisa, ela também está aprendendo. “Com isso, busca novas aprendizagens, se sente na obrigação de estar trazendo coisas novas para o canal dela, para manter aquele público”, comentou a psicopedagoga Mônica Palitot.

Antes de qualquer coisa, no entanto, é preciso estimular a autoestima da criança, ter o cuidado de não querer impor um padrão de beleza inalcançável. Para ela, se a criança assiste outra criança que estimula o cognitivo e ela se propõe a acompanhar o que a influencer está propondo, está estimulando a atenção, a memória, a inteligência e acaba sendo bom.

Em relação à influência que uma youtuber ou digital influencer pode exercer sobre a garotada e as adolescentes, a psicóloga destacou algumas influenciadoras passam conteúdos de forma lúdica. “Com isso, a criança aprende. Se tivermos mais influenciadores assim, que tragam a Matemática de forma lúdica, será um conhecimento fantástico. Aí, a gente volta para a questão da família, orientando essas atividades, coisas construtivas cognitivamente, leitura de livros”, frisou.

A força dos estímulos

O conhecimento que crianças e adolescentes vão detendo cada vez mais cedo são oriundos dos estímulos que recebem, segundo Mônica Palitot. “Estamos numa sociedade onde elas estão nascendo com muitos estímulos. Estamos cada vez mais ricos em formas de acesso e elas, naturalmente, vão usando. E é mais fácil para os pequenos aprenderem do que um adulto”, afirmou.

Isso, como acrescentou, é muito positivo. “E é bom porque desenvolve a memória, a atenção com aplicativos, formas novas de fazer, a curiosidade de aprender. A questão é que temos que dar o direcionamento para isso. Tem que estar na vigilância também em relação ao que está fazendo, acessando, aprendendo”, analisou.

No curso de Psicopedagogia da UFPB, onde é professora, os profissionais indicam muito para os alunos, crianças com dificuldade de leitura e escrita. “Quando observamos que, pelas estratégias regulares que utilizamos no dia a dia, não estamos alcançando os resultados que desejamos, colocamos aplicativos que trabalham a questão da leitura e da escrita. Eles se tornam mais participativos e aprendem”, relatou.

Nessa experiência, ela disse que as crianças passam a entender como transferir o que aprendeu na telinha do smartphone para o físico, separar as sílabas e transpor esse conhecimento para o papel. LM

Pode se tornar problema

Como tudo na vida tem o lado ruim, esse ‘domínio’ dos influenciadores digitais, youtubers e blogueiros sobre mentes ainda em desenvolvimento exige controle rígido dos pais para não se tornar prejudicial. Quando ultrapassa a barreira do entretenimento, o risco de se transformar em um problema sério é real.


Especialistas de diversas áreas avaliam que essa dependência pode ter uma série de desdobramentos como falta de diálogo dentro de casa, isolamento, queda no desempenho escolar, menos horas de sono, mudanças dos hábitos alimentares. Aumentam as chances de gerar ansiedade e criar a chamada ‘sociedade do narcisismo’. Em situações extremas, quando a influência começa a interferir em atividades importantes, pode ser o estopim, inclusive, para o surgimento de complicações de saúde.


Os pais afirmam que há preocupação e estão certos de que é preciso fiscalizar de perto os conteúdos. Estudiosos da área ensinam que a receita é viver mais o mundo real, e menos o virtual para que não se perca a própria identidade. Especialistas em educação observam que, em fase de transição, os adolescentes buscam um referencial e é isso que os influenciadores acabam se tornando. O problema, à luz da psicopedagogia, acaba levando alguns a alienação, dependência psicológica e até mesmo a se tornarem retraídos por não se encaixarem no que é alardeado como padrão.


Por outro lado, cada vez mais próximos dos pequenos e adolescentes pela facilidade do acesso às redes sociais, blogueiros, influenciadores, youtubers se defendem e garantem que só procuram oferecer informações e dicas construtivas, que facilitam o dia a dia. Afirmam, inclusive, que têm muita cautela com postagens que possam influenciar de forma negativa.




Medo de engordar. Sofia tem apenas 5 anos e, como toda menina de sua idade, gosta de acessar a internet e ver a programação infantil. Mas, a semelhança acaba quando a mãe relata que ela já se preocupa com o peso, com a aparência e quer ser igual às blogueiras e youtubers que segue. “Eu noto que ela se preocupa demais com a aparência. Quer copiar todos os looks que vê na internet. Tem medo de engordar, de ficar feia. Quer estar sempre bonita, e isso me preocupa bastante”, admitiu a maquiadora Mariana Chaves Medeiros.


Para ela, os youtubers e blogueiros têm, de fato, uma forte influência no comportamento das crianças. Mariana destacou que é importante, inclusive, filtrar o conteúdo que as crianças assistem. Por isso, não deixa a menina ficar muito tempo nas redes e supervisiona para que não atrapalhe os estudos.


Além disso, segundo ela, o uso excessivo das redes pode desencadear uma obsessão, podendo acarretar até mesmo na perda da identidade do adolescente.


 “Na medida em que se espelham nos youtubers e copiam seus comportamentos, perde-se um pouco da identidade e isso afeta a construção da personalidade”, constatou.   LM

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