terça, 20 de abril de 2021

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Chico César relembra momentos de sua trajetória em que JP foi palco

André Luiz Maia / 05 de agosto de 2018
Foto: Divulgação
João Pessoa sempre foi um lugar de renascimentos para Chico César. As memórias construídas ao longo de décadas servem de base para sua potência criativa. Ao ser convidado para realizar uma apresentação ao lado da Orquestra Sinfônica da Paraíba (OSPB), o cantor e compositor compartilha com o Correio as primeiras lembranças com a cidade e também os detalhes da performance.

Em seus 433 anos, João Pessoa foi o nascedouro e local de florescimento de centenas de artistas e Chico César definitivamente foi um dos que fez história. Seu trabalho autoral é refinado, mas sem perder a conexão com a veia popular. O show deste domingo (5) será baseado em seu trabalho mais recente, Estado de Poesia, com canções compostas durante o período de seis anos que o artista viveu em João Pessoa quando assume a função de gestor público.

O show não é inédito, mas é a primeira vez que ele traz a performance para a cidade. “Esse concerto eu já fiz com a OSMG. Foram dois dias em Minas Gerais, com esse repertório, contando com arranjos feitos pelos membros da orquestra de lá. Quando veio este convite da Fundação Espaço Cultural, com o objetivo de homenagear João Pessoa, decidimos fazer esse Estado de Poesia sinfônico”, conta Chico César, em entrevista ao Correio.

O público poderá ouvir músicas como a que dá título ao disco, além de “Caninana”, “Da taça”, “Palavra mágica”, “No Sumaré” e “Reis do agronegócio”. Outras inserções na apresentação são oriundas do show referente ao disco, como o medley “Mama África / Brilho de beleza / Caminhando” e as dobradinhas “Negão / Mandela” e “Miaêro / Espumas ao vento”. Também há espaço para citações musicais: “Onde estará o meu amor”, grande sucesso gravado por Maria Bethânia, e “Diana”, de Paul Anka. Completam o repertório clássicos da carreira de Chico, como “À primeira vista” e “Pensar em você”. Os primeiros ensaios do show aconteceram na semana passada, que deixaram o artista empolgado para conferir o resultado final e a recepção do público.

À primeira vista

João Pessoa tem cheiro de pão e de terra molhada. Pelo menos é assim que a cidade ficou gravada nas memórias afetivas infantis de Chico César. Natural de Catolé do Rocha, em pleno Sertão da Paraíba, vinha à Capital apenas durante as temporadas de chuva, entre junho e novembro, hospedado na casa nos Expedicionários, de sua tia Maria, já falecida.

“Para mim, João Pessoa é a cidade que chove, principalmente comparada ao clima seco e com as estiagens de Catolé. Quando estava por aqui, lembro de cruzar o bairro com meu primo para comprar pão. A gente ia correndo no meio da chuva, uma sacolinha de papel dentro de uma sacolinha plástica para proteger da água, aquele cheirinho de pão incensando”, recorda. As andanças eram quase uma obrigatoriedade, já que era o fim da década de 1960 e a cidade ainda estava se desenvolvendo. Um de seus passeios favoritos era até a praia do Cabo Branco, descendo pela Beira Rio, com o percurso da volta feito também a pé.

Anos depois, já adolescente, teve uma experiência marcante já enquanto artista. "Tenho uma lembrança muito viva sobre a primeira vez que toquei em João Pessoa, com o grupo Ferradura, que montei lá em Catolé. A gente ganhou um festival de composições em Cajazeiras, devia ter uns 15 anos. Alguns contatos fizeram com que a gente se apresentasse no Circo Teatro Piollin", conta. Na época, o grupo de teatro promovia apresentações musicais diversas em seu espaço mantido no bairro do Roger.

Aquele ambiente era mágico para Chico. "Quando a gente chegou na cidade, tinham cartazes nossos espalhados, algo muito surreal. Fomos recebidos por Luiz Carlos Vasconcelos, que fez a luz para o nosso show", afirma. A experiência acabou solidificando em sua cabeça a ideia de que era a hora de mudar.

No ano seguinte, se instala na Casa do Estudante, na Rua da Areia, se preparando para fazer vestibular para Jornalismo. Eram tempos de escassez e dificuldades. “A gente tinha muitas privações. Teve um dia em que a gente foi pedir comida no quartel de polícia, próximo ao Teatro Santa Roza, pois a gente estava morrendo de fome. Comemos inhame e uns pedaços de galinha, uma delícia”, enfatiza o artista.

Dessa fase, outra memória viva é o Teatro Santa Roza. Em uma de suas peripécias, pulou o muro, com a ajuda do bilheteiro do teatro, e assistiu a Macunaíma, peça dirigida por Antônio Filho. "Não tinha dinheiro, nem idade para entrar, mas João, que era o bilheteiro, me deixou entrar. Fiquei encantado com tudo aquilo, um deslumbramento. É para mim uma das peças mais importantes do teatro brasileiro, ao lado de Roda Viva e Vau da Sarapalha", opina.

Em João Pessoa, também foi "adotado" pelos irmãos Pedro Osmar e Paulo Ró, integrando diversos projetos como Jaguaribe Carne, Fala Bairros, Movimento dos Escritores Independentes, Musiclube da Paraíba, parte de seu despertar político. Como jornalista, passou pelo jornal O Norte e chegou a participar de uma coletiva de imprensa com Nara Leão.

Anos depois, retorna ao estado, como gestor público da cultura e também conhecendo sua atual esposa, Bárbara Santos. "Tenho uma relação de afeto com este lugar", define Chico César.

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