terça, 19 de janeiro de 2021

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Carminho e Danilo Caymmi lançam CDs com a obra de Tom Jobim

Kubitschek Pinheiro / 01 de fevereiro de 2017
Foto: Divulgação
Gravar Tom Jobim não é tarefa fácil, mas Carminho dá esse pulo numa dimensão ímpar, com o sotaque lusitano e está muito bem ao lado da Banda Nova, que acompanhou o maestro por dez anos: o violonista Paulo Jobim (filho de Tom), o pianista Daniel Jobim (neto), o violoncelista Jaques Morelenbaum e o baterista Paulo Braga.

Carminho canta Tom Jobim, CD gravado no Rio de Janeiro, reúne 14 faixas e participações de artistas brasileiros, como Marisa Monte em “Estrada do sol”, (de Tom com Dolores Duran), Maria Bethânia em “Modinha” (de Tom e Vinicius de Moraes), e Chico Buarque em “Falando de amor” (só de Tom). Chico já tinha gravado com ela sua "Carolina", no álbum Alma, que a cantora portuguesa lançou em 2012.

Em entrevista ao CORREIO, Carminho releva que a ideia de gravar o disco partiu de um convite da família de Tom Jobim. Ela recebeu de Paulo 220 canções, de variados tempos do artista, para a escolha do repertório.

"Só acreditei que ia acontecer quando de fato me encontrei com o Paulo, e percebi que tinha grande parte da obra de Tom Jobim em minhas mãos, para poder escolher as canções que queria. Foi uma honra e uma emoção muito grande gravar este disco", conta ela.

Tudo foi feito com um critério: que fosse respeitado o português falado em Portugal. “Um dos critérios foi escolher só os poemas que respeitassem o português de meu país e excluir canções em que os versos usassem o pronome de tratamento 'você'", explica. "Tornava-se impossível a missão de interpretar, se eu não usasse as palavras que a música utilizaria, como ‘você’. Nós não dizemos ‘você’. Nós dizemos ‘tu’, ‘tu queres’, com o pronome conjugado com a sua figura verbal definida”.

Assim, as canções tiveram que estar na segunda pessoa. “Tentei não abdicar da minha própria linguagem, que me trouxe até aqui, que me formou. E que vem muito do fado, naturalmente, porque o fado é que me ensina não só a escolher poemas como a interpretá-los ou a ouvir as palavras para perceber como é que as vou cantar”, registra.

Por isso, foi preciso usar certos subterfúgios. “'Por causa de você' entrou no disco, mas em inglês, porque era uma das minhas preferidas", conclui.

Sobre as gravações, com esses músicos que têm uma identificação maior com Tom Jobim, ela agradece: “Eles foram orientando-me dentro do universo do Tom, acolheram-me. Senti-me completamente acolhida”.

A amizade das famílias Caymmi e Jobim vem de longe. Danilo era integrante da Banda Nova, que acompanhava Tom Jobim e era o produtor dos shows. Agora lança Danilo Caymmi Canta Tom Jobim, gravado já há um ano.

Essa história é bem longa. O pai dele, Dorival Caymmi, gravou o disco Caymmi visita Tom em 1964. Anos depois, Nana, Dori e Danilo, com Daniel e Paulo, neto e filho de Tom, gravaram juntos Falando de Amor (2005), com as canções de Tom.

“Ele era muito amigo de meu pai. Eu sou padrinho de casamento de Paulinho e Eliane Jobim. Eu e Simone somos padrinhos da Maria Luiza (a filha mais nova de Tom, com Ana Lontra). E tem mais: meu sogro, Manuel Matagreti, era casado com a escritora Helena Jobim, irmã de Tom”, conta Danilo ao CORREIO, por telefone.

O CD traz 11 canções, começando por “Bonita”, feita em inglês por Tom para a atriz Candice Berger. No CD de Danilo, ele canta a versão em português, feita por Vinicius de Moraes. “A Ana Lontra, até perguntou se eu ia cantar em inglês, mas lembrei a ela que essa versão foi achada nos arquivos de Vinicius”, diz.

A sensação que se tem ao ouvir o disco é que Danilo canta as canções de Tom como interpreta os clássicos de seu pai. Ele explica: “É a tônica, o timbre. Desde pequeno a gente canta as canções de papai com as interpretações que ele fazia; as canções praieiras, principalmente. Isso acontece com Nana e Dori, também”.

Danilo arremata: “Por exemplo, 'Por causa de você', eu interpreto como a minha mãe, Stella, cantava. Lembro-me dela cantando a canção, eu ainda menino e achava tocante”.

Com algumas canções, Danilo tem ligação ainda mais próxima. "Eu vi Tom compondo e trabalhando em 'Querida'. Era para uma novela (O Dono do Mundo, 1991). Ele refez várias vezes, corrigia e cantava, burilava, como dizia meu pai”.

Em “Chora coração”, ele participou da gravação original. “Eu tinha 22 anos e participei tocando flauta, na trilha que Tom compôs para o filme A Casa Assassinada (1971)". E também "Luíza". “Ah, 'Luiza' é uma canção completa. Era a preferida de meus pais. Minha mãe cantava muito. Tem um tom emocional para mim”, registra.

E em “Tema de amor de Gabriela”, feita para o filme Gabriela (1983), Tom recria uma obra de Caymmi ("Modinha para Gabriela", criada para a novela de 1975). Danilo canta igual a Tom, repetindo com ênfase "Gabriela, Gabriela, Gabriela" no final da canção. “Lembro que Tom ligou para meu pai pedindo para fazer isso na canção, que remete à 'Gabriela' do velho Caymmi"

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