domingo, 17 de fevereiro de 2019
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Carmen Miranda ainda precisa ser melhor conhecida pelos brasileiros

Renato Félix / 09 de fevereiro de 2019
Já é lugar-comum dizer que o Brasil é um país "sem memória” e que tantas vezes não valoriza sua cultura como deveria. Um dos maiores exemplos da combinação disso é Carmen Miranda. Ainda uma das mais emblemáticas imagens do Brasil, sua figura é bastante reconhecida pelos brasileiros, mas quantos conhecem sua história como uma das mais importantes cantoras do Brasil? Hoje completam-se 110 anos do nascimento de Carmen (que foi em Portugal, mas sua família se mudou para o Brasil quando ela tinha 10 meses de idade), mas o Brasil continua precisando conhecê-la melhor.

“Não só essa coisa meio estereotipada, das bananas na cabeça, mas como uma cantora que foi muito importante no início da era do rádio, do cinema brasileiro, do disco no Brasil”, conta ao CORREIO a escritora Heloísa Seixas, por telefone, do Rio de Janeiro. “E que foi uma cantora muito importante na formação das cantoras populares brasileiras. Antes de ir para a Broadway e para Hollywood”.

Quem viu, pôde celebrar a data antecipadamente com o musical infantil Carmen, a Grande Pequena Notável, com texto de Heloísa Seixas e de Julia Romeu, direção de Kleber Montanheiro e com Amanda Acosta no papel de Carmen. A peça estreou em setembro em São Paulo e concluiu sua primeira temporada em janeiro, com um grande sucesso que mostra o poder de atração que Carmen continua tendo.

O musical é baseado no livro infantil homônimo que Heloísa e Julia, mãe e filha, assinam juntas e foi lançado em 2014, com ilustrações de Graça Lima. Ao tomar conhecimento do livro e de que as duas já tinham escrito outros musicais (Era no Tempo do Rei e Bilac Vê Estrelas), Montanheiro entrou em contato as convidando para montar um musical, só que voltado para crianças.

"Por causa dessa ideia, que ele também tinha, de que, começando pelas crianças, o Brasil precisava conhecer melhor a Carmen. Mais profundamente", conta Heloísa, por telefone, ao CORREIO. A peça aproveitou uma ideia central do livro: o mundo preto-e-branco de Carmen vai se tornando multicolorido ao longo da história.

Antes do livro, elas já tinham elaborado o texto de um musical sobre Carmen, com base na biografia escrita por Ruy Castro, marido de Heloísa, e lançada em 2005. Mas era um musical adulto, que acabou não montado. As duas, então, refizeram o trabalho orientado para os pequenos.

“Aproveitamos coisas que achamos mais interessantes, coisas que nem todo mundo sabia sobre a Carmen: essa coisa de ela ter lançado tantas músicas importantes, de ter feito as próprias roupas, de ter inventado aquela baiana que hoje a gente associa tanto com ela e que hoje em dia as pessoas associam tanto com o Brasil”, enumera Julia Romeu, por telefone, do Rio.

Antes de embarcar para uma carreira de sucesso no teatro e cinema dos Estados Unidos, em 1939, Carmen Miranda construiu uma carreira como a principal cantora do Brasil, modernizando o jeito de cantar e com um repertório de canções populares até hoje como “Taí” (Joubert de Carvalho), “O que é que a baiana tem” (Dorival Caymmi), “Tico-tico no fubá” (Miguel Lima e Zequinha de Abreu), “E o mundo não se acabou” (Assis Valente). Ela tinha um ótimo faro para pescar grandes canções de seus compositores de estimação.

“Acho que os brasileiros conhecem a Carmen depois que ela foi pra Hollywood. E durante dez anos, aqui, ela foi a principal cantora do Brasil. E acho que os brasileiros desconhecem muito esse lado", diz Julia. “Acho que através do musical, quando a gente vê o repertório, as pessoas falam: 'Nossa, mas todas essas músicas foram lançadas pela Carmen Miranda?'. E aí elas veem quantos sucessos do Brasil foram feitos pra ela, foram lançados por ela”.

Não é fácil encontrar boas compilações de Carmen em CD novinhas nas lojas, mas há canções no Spotify e no YouTube. Os filmes brasileiros são mais difíceis: precisam de restauração ou estão desaparecidos. Alguns de seus filmes em Hollywood é que podem ser encontrados em DVD, ou eventualmente na TV paga.

Por exemplo, é possível vê-la hoje, na TV: o Canal Brasil exibe o documentário Carmen Miranda — Bananas Is My Business (1995), às 18h30, e o Telecine Cult programou seus dois primeiros filmes americanos em sequência: Serenata Tropical (1940), às 17h30, e Uma Noite no Rio (1941), às 19h15.

É muito pouco. O Brasil ainda deve a Carmen. Uma campanha para que Carmen ganhasse uma estátua no Rio não foi para a frente. E noje, até o Museu Carmen Miranda, que funcionava no Aterro do Flamengo, no Rio, está fechado. “Todo o museu vai se mudar para o Museu da Imagem e do Som, na Avenida Atlântica (o MIS, em Copacabana), e a Carmen vai ser uma espécie de âncora, como se fosse a principal figura do museu”. Mas a crise financeira do Estado do Rio adiou a conclusão da obra.

Enquanto isso, Carmen Miranda vai esperando que sua voz, brejeirice e balangandãs façam parte como se deve da vida brasileira.

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