quinta, 21 de novembro de 2019
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Cantora Clara Nunes é personagem de uma nova biografia

Kubitschek Pinheiro / 02 de abril de 2019
Foto: Wilton Montenegro
Primeiro morre a pessoa, depois seu nome. Mas hoje completam-se 36 anos da morte de Clara Nunes e seu nome e sua obra continuam vivos na biografia Clara Nunes, Guerreira da Utopia, de Vagner Fernandes, com selo da Editora Agir, que ativa a memória da legião de fãs da artista.

A ideia veio em 2013 e logo o inicio da pesquisa. O autor foi longe para esmiuçar toda a história de Clara Francisca Gonçalves Pinheiro, que nasceu em família humilde no interior de Minas Gerais, em Caetanópolis.

Fernandes percorreu lugares, palcos, ruas que cantora passou e entrevistou mais de 300 pessoas, o que resultou em uma vasta documentação, com cerca de 400 horas só de depoimentos. Da terra da artista, em Minas Gerais, ao popular bairro de Oswaldo Cruz, no qual se encontra a quadra da escola de samba que se tornou uma das paixões de Clara, a Portela.

Nesse livro, Vagner Fernandes desnuda esse mítico personagem, trazendo à tona a dimensão humana da artista. Para ele, o personagem sempre lhe fascinou. Mas a Clara que ele e outras pessoas da sua geração conheciam era outra: com roupas brancas que aludiam às vestes das filhas de santo da umbanda e do candomblé.

“Iniciei a pesquisa a partir de um material audiovisual raro dela que chegou até mim. Fiquei estarrecido com a atemporalidade de Clara, uma cantora ainda tão presente”, diz o autor em entrevista ao CORREIO.

As tais descobertas, remeteram, avisa Vagner Fernandes, a sua infância, quando seu tio (e padrinho, um dos diretores de harmonia da Portela, na época) e sua mãe o levavam à quadra.

“Em uma dessas idas, a Clara estava lá, no palco, cantando. Eu fiquei hipnotizado quando vi aquela mulher, linda, lá em cima, toda de branco, com aquela energia cênica incrível. Estava fascinado com a cantora que eu tanto admirava da TV. Todos esses fatores me levaram a pesquisar mais e mais, a ir em busca de informações que me direcionassem para a descoberta daquele personagem”, lembra o escritor.

Ele lembra Ruy Castro, autor das biografias de Garrincha, Nelson Rodrigues e Carmen Miranda, para reforçar a formação de seu livro. “O Ruy Castro tem uma tese interessante. Ele diz que só biografa morto. E de preferência que tenha sido solteiro, estéril e órfão de pai e mãe. Isso ele declarou em função das polêmicas levantadas pelas famílias de biografados, que transformaram o gênero em um verdadeiro filão caça-níqueis, como se biógrafo no Brasil ficasse milionário”.

Em campo, Fernandes foi chegando aos fatos até então não revelados pela imprensa da vida da cantora, coisas outras que dariam um catatau.

“Seria leviano destacar este ou aquele ponto descoberto durante o processo de produção da biografia. Acho pouco producente levantar polêmicas a partir de fatos isolados ocorridos durante a trajetória de um personagem. Muitos detalhes sobre a vida e a obra da Clara poucas pessoas conhecem certamente, mas o que importa no trabalho é o conjunto”.

Voltemos à estrada. O autor lançou mão de uma metodologia que seguisse determinados critérios. Cada autor organiza a pesquisa e seleciona o material da forma que lhe convém, é a liberdade do texto.

“No meu caso, que tenho formação jornalística, eu parto para a descoberta de fontes que possam me contar boas histórias sobre o biografado. Estabeleço contatos e faço entrevistas. Paralelamente, realizo buscas em arquivos de jornais, revistas, bibliotecas, um amplo levantamento de tudo o que foi publicado sobre o personagem”.

Fernandes acredita que essa foi a melhor etapa, a do cruzamento de informações para a verificação dos dados. “As fontes também se enganam. Por isso, a necessidade do cruzamento”, alerta ele. “Você tem de criar, de imediato, uma rede de fontes confiáveis. Uma entrevistado te leva a outro e assim sucessivamente”.

"Foi um árduo trabalho, mas extremamente prazeroso. Durante a pesquisa nada pode ser desprezado. Eu fui em busca de tudo e de todos que considero peças fundamentais para construir o 'quebra-cabeça', como maridos ou ex-maridos, esposas ou ex-esposas, filhos, irmãos, pais, amigos." - Vagner Fernandes, autor do livro

Uma morte chocante



A morte de Clara Nunes parece nunca ter ficado clara ou bem esclarecida. E sempre intrigou o escritor.

“Eu fui cauteloso ao narrar o fim trágico. Clara morreu em função de um choque anafilático durante uma cirurgia de varizes. Ela teve uma reação alérgica a um dos componentes do anestésico e isso evoluiu para uma parada cardiorrespiratória. Em seu cérebro formou-se um enorme edema. Clara teve morte cerebral imediata, mas os médicos só descobriram que ela realmente estava descerebrada cerca de 10 dias depois da intercorrência na Clínica São Vicente, na Gávea, onde ela se internou”.

E segue: “Na época tomógrafo era um aparelho 'top de linha' na medicina. No Rio só havia dois: um na Santa Casa e outro na Clínica São Vicente. O da clínica estava quebrado”.

Segundo a documentação a que o autor teve acesso, não houve erro médico. “Mas persistem os boatos de que o anestesista teria abandonado a sala ou que houvera uma suposta falha dos equipamentos da sala de cirurgia. Está tudo na documentação a que tive acesso. Clara não morreu porque foi tentar um aborto ou fazer uma inseminação artificial ou ainda porque usava drogas. Nada disso. Esses boatos também foram propagados na ocasião. Ela foi fazer uma cirurgia de varizes e o seu organismo reagiu mal a uma das substâncias do anestésico. Qual? Ninguém sabe e jamais saberá”, fecha o autor.

"Pela primeira vez, o médico que chefiou a equipe que operou a Clara concedeu uma entrevista. Ele não só falou comigo revelando detalhes sobre a cirurgia e tudo o que aconteceu nos 28 dias de agonia até a morte da cantora." - Vagner Fernandes, autor do livro

Trajetória



Cinco discos históricos de Clara Nunes

'Você passa e eu acho graça' (1968)

Não foi sucesso de vendas, mas a canção-título fez sucesso e apontou o futuro no samba.

'Clara Nunes' (1971)

No seu quarto disco, batizado com seu nome, Clara chega ao sucesso de vendas. É o disco de "Ê, baiana".

'Claridade' (1975)

Foi o disco de maior sucesso de Clara, batendo o recorde de vendagem entre cantoras. É o disco de "O mar serenou".

'Canto das três raças' (1976)

O disco traz um de seus maiores sucessos, a faixa-título, de Mauro César e Paulo César Pinheiro, seu marido.

'Esperança' (1978)

É o disco em que Clara canta 'Feira de mangaio', com o próprio Sivuca na sanfona. Ela gravaria mais três discos até 1982.

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