quinta, 15 de abril de 2021

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Bandolinista Hamilton de Holanda lança o disco autoral ‘Harmonize’

Kubitschek Pinheiro / 21 de maio de 2019
Foto: Dani Gurgel/Divulgação
A produção do bandolinista carioca Hamilton de Holanda é gigantesca. Ele vem da fonte de Jacob do Bandolim. Ou bem antes, em casa, com os pais Seu Américo e Dona Teba que tinham vários instrumentos musicais. Do avô, que ele herdou o nome (e o chama Vô Rámilton), o artista ganhou aos 5 anos, o primeiro bandolim e nunca mais parou de tocar.

A novidade é que depois de uma safra de discos em homenagem a compositores brasileiros como Chico Buarque, Milton Nascimento e Jacob do Bandolim, o artista apresenta agora um trabalho autoral com oito composições inéditas e duas regravações. Harmonize (Brasilianos) é o nome de seu novo trabalho. Com direção dele e seu empresário, Marcos Portinari, gravado em quarteto com Daniel Santiago (violão), Thiago do Espírito Santo (baixo) e Edu Ribeiro (bateria). O disco é muito bom.

“Nasceu o Amor”, o primeiro single a chegar aos aplicativos e ouvidos musicais, é uma canção que ele fez pensando no som do bebê na barriga de sua mãe. Ele falou da importância da aparição de uma nova pessoa. “Eu gosto muito de criança. É o eterno recomeço, é a vida pulsando, chegando. Tudo vem do sentimento e isso eu coloco em minha música”, disse ele em entrevista pelo telefone ao CORREIO.

Gravado no estúdio Da Pá Virada, com engenharia de áudio de Thiago Rabello, Harmonize é o 38° álbum de Hamilton de Holanda. Com distribuição digital da Altafonte, o disco traz canções brasileiras, com imagens de signos retirados do cotidiano das cidades. “Exatamente. Isso já é a profundidade da musica. Têm dias que eu vibro com a produção, outros terminam e a gente vai seguindo. Eu componho todos os dias. Acabei de fazer um samba”, comenta ele, rindo.

A primeira faixa é “Tá” (dele e letra de Thiago da Serrinha), seguida de “Canto da Siriema Nasceu o Amor”, “Harmonize”, “Alô Arlindo”, “Samba Blues”, “Tamanduá- Deus é Amor Pra Tudo Que é Fé”, Chama” e “Meu Coração é Seu” ( todas de Hamilton).

A faixa “Tá” tem um clima de “tá bem, essa é a realidade, então vamos viver, enfrentar as dificuldades e curtir os bons momentos”. Essa canção foi gravada antes no disco Bossa Negra, em duo com Diogo Nogueira, e diz: “Tenha honestidade pra ser, seja puro, aprenda a ceder, sedento aos caprichos de ser feliz”, fala Hamilton: “Um som de esperança que a coisa vai melhorar. Tem uma palavra que está nessa canção e em mim, que é solidariedade. Sem a solidariedade não iremos a lugar nenhum”, arremata.

A faixa “Canto da Siriema” é um abraço na natureza. É a resposta de Hamilton ao homem que destrói a natureza todos os dias. HH disse que para essa melodia, ele fez um poema e nos enviou. Vejamos: “Ei Periquito-rei/Jaó, Sabiá Canário, Jacu/Ei Uirapuru Curió, Juriti Gavião, Tuiuiu Iuiu/ Ei Galo de campina Arara, azulão Pardal, tico-tico/ Ei Uru, pintassilgo Guará, maritaca Urubu/ Condor, beija-flor/ Saracuraçu/ Anu, bem-te-vi/ Mãe-da-lua-parda/ Topázio de fogo/ Pica-pau-amarelo/Araçari-negro Tuim, Siriema/ E rê rê rê...”.

A faixa“Alô Arlindo” é emocionante. Hamilton homenageia o amigo Arlindo Cruz, que sofreu um AVC em março de 2017 e está em casa se recuperando. “Eu gosto muito de Arlindo. Ele é meu vizinho aqui no Recreio (Rio) Vou sempre lá tocar bandolim para Arlindo. Ele já está melhor, já come com uma colher”, registrou.

Segundo Hamilton, Arlindo representa o movimento musical que nasceu no Rio de Janeiro, o samba do Cacique de Ramos: Fundo de Quintal, Sombrinha, Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Luiz Carlos da Vila e a madrinha Beth Carvalho, que faleceu este mês. “Entre outros que inventaram um novo jeito de fazer samba que marcou definitivamente a história da música brasileira”, disse Hamilton que trabalha no Projeto Escolinha de Musica da Rocinha e Projeto Rio de Música de Jacarezinho.

O artista afirma com toda certeza que o choro e o jazz são irmãos. Como assim? “Pelo simples motivo de terem nascido na mesma época, em lugares diferentes, um no Brasil e outro nos Estados Unidos. São primos, da mesma família”, disse rindo.

A faixa “Deus é Amor Pra Tudo Que é Fé - Sempre o amor”, tem uma história familiar. Ele disse que quando sua filha Rafaela (hoje com 15 anos) tinha 7 anos, vivia perguntando “Papai, qual a nossa religião?”: “Você tem uma vovó da Igreja Batista, um vovô de formação católica, o outro vovô que é espírita e a outra vovó católica/espírita”. E a menina: “Ah, então a gente é misturado?”. Aí Cinara, sua mulher, entrou em cena: “Nossa religião é o amor e a solidariedade”. “Eu gosto muito dessa canção, é uma música que traz uma paz e gera amor”, comenta.

Para gravar Harmonize, Hamilton escutou muito Baden Powell, Vinícius de Moraes, Villa-Lobos, Pixinguinha, Chick Corea, Pat Metheny, John Coltrane, Wynton Marsalis, Bach, Debussy entre outros. “Até Legião Urbana”.

"Esse disco nasceu assim bem harmonizado. Esse foi o caminho que eu encontrei para lançar mais um trabalho autoral. O caminho de volta, o caminho das músicas." - Hamilton de Holanda, músico

Chico, Milton e Jacob



Antes de gravar Chico Buarque, Milton Nascimento e a caixinha com quatro discos da obra de Jabob do Bandolim, Hamilton de Holanda já tinha feito homenagens a Pixinguinha, Egberto Gismonti e Hermeto Pascoal. “Chico faz parte deste meu ‘time’”, disse

O disco Chico por Hamilton (da Biscoito Fino) tem 14 faixas. Duas delas, “A Volta do Malandro” e “Vai Trabalhar Vagabundo”, têm participação do próprio Chico Buarque: “Rapaz, eu gosto muito da obra de Chico. Fazer esse disco foi uma alegria sem tamanho”.

O CD Bicho Homem, tocando Milton Nascimento (Biscoito Fino), é uma obra prima. Desde menino que ele gosta da musica de Milton. O repertório traz Milton em parceria com Fernando Brant (“Canção da América”, “Ponta de Areia“ e “Bicho homem”, que abre o disco e traz a participação do próprio homenageado). Alcione faz participação em “Travessia”. “Bituca (o apelido carinhoso de Milton Nascimento) é um gênio”, disse.

Em 2018, centenário de Jacob do Bandolim, Hamilton de Holanda foi longe. Homenageou o mestre regravando alguns dos sucessos, em quatro discos de diferentes estilos - Hamilton de Holanda toca Jacob do Bandolim, com selo da Deck.

O primeiro é Jacob 10ZZ numa referência ao bandolim de dez cordas e som jazzístico do trabalho. O outro, “Jacob Bossa” foi gravado pelo Hamilton e Trio Mundo. Em Jacob Baby, ele toca bandolim de 10 cordas, cavaquinho e bouzouki, instrumento de origem grega. O último, Jacob Black, revela afinidades com os ritmos do universo afro-brasileiro. “Eu sou grato a Jacob, a Chico, Milton e a todos”, fecha.

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