sexta, 18 de outubro de 2019
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Amante da vida e da arte, Domingos Oliveira deixa uma obra única

Renato Félix / 26 de março de 2019
Foto: Divulgação
No velório de Domingos Oliveira, ele fez mais uma das suas. O escritor Joaquim Assis leu em voz alta duas cartas-testamento escritas pelo dramaturgo e cineasta há 20 anos: uma endereçada à esposa, a atriz e roteirista Priscilla Rozenbaum, e a outra à filha, a também atriz e roteirista Maria Mariana. Depois de duas décadas esquecidas, Domingos as havia encontrado há três meses e as confiado a Assis.

Os textos são cheios de poesia e humor, como costumavam ser os textos de Domingos, um dos grandes cineastas brasileiros, que morreu sábado, no Rio, aos 82 anos. “Ele fez a dramaturgia do próprio enterro”, disse Maria Mariana ao jornal O Globo. Domingos, como sempre na vida, fez seu público rir e se emocionar.

Quem conhece a obra deste homem de teatro, TV e cinema não se surpreende. Domingos era, antes de tudo, um amante da vida e do amor. Em uma entrevista concedida ao repórter do CORREIO em 2013, durante o Festival de Gramado, ele filosofava sobre a ideia da morte.

“Se todo mundo buscar modos de se distrair, não fica pensando besteira – porque pensar na morte é besteira, você vai morrer mesmo. Uns pensam em dinheiro, outros pensam até no amor”, disse. “São ‘alienativos’, digamos assim, são forças – umas mais construtivas, outras menos construtivas, outras até destrutivas – que podem afastar tua cabeça da ideia inexorável e inaceitável de que você vai morrer. Porque a natureza botou no homem um desejo imenso de fazer uma coisa que você não vai poder fazer – que é permanecer vivo”.

É aí que entra a arte. “A melhor de todas as opções, digamos assim, a que constrói humanidades, constrói civilizações, é a arte. Eu sou inteiramente regido pela arte. Penso na arte o dia inteiro! Assim, eu não penso em besteira”.

E Domingos trabalhou até o fim. Lutou contra a falta de orçamento e contra os problemas de saúde e o mal de Parkinson. Deixou vários projetos em andamento: uma peça, uma série para o Canal Brasil, um filme e um livro.

A montagem era uma atualização de seu primeiro texto como dramaturgo, História de Muitos Amores. O livro é um rascunho de memória e crônica, ainda sem título.

A série é Mulheres de 50 e está quase pronta. Ele reúne o mesmo quarteto (Cacá Mourthé, Clarice Niskier, Dedina Bernadelli e Priscilla Rozenbaum) com o qual montou nos palcos Confissões de Mulheres de 30, que gerou o filme Feminices, e Confissões de Mulheres de 40. Ele também já havia abordado o universo jovem ao dirigir a peça Confissões de Adolescente, baseada nos diários da filha. Os dois episódios finais serão gravados em abril.

E o filme seria Todo Mundo Ainda Tem Problemas Sexuais, sequência da comédia de 2011, baseado em sua peça homônima. Mas como novas tramas e personagens.

“Sobre o amor, eu fiz muitos filmes, posso dizer que estudei isso a minha vida inteira”, disse, na entrevista ao CORREIO. Isso é verdade desde seu primeiro longa: Todas as Mulheres do Mundo (1967), em que convidou o público a amar com ele a mulher com quem ele havia vivido até pouco tempo antes: Leila Diniz.

Esse filme amoroso, fincado como uma bandeira no meio do politizado e carrancudo cinema novo, mostra como Domingos Oliveira foi um cineasta único no Brasil. Quando o orçamento se tornou um problema, ele inventou as produções BOAA (Baixo Orçamento e Alto Astral). Sempre os reunia em torno do palco e da câmera. E amou e foi amado por eles. E, por eles, se mostrou vivo no próprio enterro.

"Acho que a morte é uma coisa que não deveria existir, que é absurda. Que torna toda a aventura humana uma coisa ridícula. E minha posição quanto à morte é que eu sou contra! Minha função na vida é lutar contra ela o tempo inteiro." - Domingos Oliveira, ao CORREIO, em 2013

Trajetória



Cinco grandes filmes de Domingos Oliveira

‘Todas as Mulheres do Mundo’ (1967)

Domingos Oliveira e Leila Diniz viveram um amor, mas já estavam separados quando Domingos resolveu dirigir seu primeiro longa. Para Todas as Mulheres do Mundo, ele convidou Paulo José para ser seu alter-ego e Leila como Maria Alice, a mulher que faz o protagonista considerar abandonar todas as mulheres do mundo. O filme é uma declaração de amor a Leila e, pelo filme, todo mundo entende por quê.

‘Edu, Coração de Ouro’ (1968)

Lançado um ano depois de Todas as Mulheres do Mundo, com o mesmo casal de atores nos papéis principais e de novo com a conquista e o universo feminino como temas, este tem cara de continuação ou variação do filme anterior. Há um pouco mais de melancolia, através de um personagem que se deprime depois de ser abandonado pela mulher. Mas Edu (Paulo José) interpreta o jovem que flana inconsequente pelo Rio.

‘Amores’ (1998)

Domingos havia ficado 20 anos sem filmar, quando retorna ao cinema com uma adaptação de uma peça dele e da mulher Priscilla Rozembaum, com um painel de diversos personagens, uma ciranda amorosa com bastante humor e pensamentos sobre a vida. A peça já havia sido lançada em livro ainda antes do filme ser rodado. Os diálogos rápidos, a naturalidade, a aproximação com o teatro, as referências culturais consolidaram a marca do diretor.

‘Separações’ (2003)

Separações é bem parecido com Amores em muita coisa, e ainda bem. Da mesma forma, o filme é baseado em uma peça e também segue a ciranda amorosa que envolve vários personagens, com referências culturais, humor e amor. Domingos é Cabral, em crise com a esposa Glorinha. Quando se separam, há relações com outros personagens, aproximações e distanciamentos, e uma ode ao amor de qualquer maneira.

‘BR, 716’ (2016)

Também conhecido como Barata Ribeiro, 716, o título se refere ao endereço do apartamento que protagoniza o filme. Caio Blat é um jovem hedonista que vive ali, com cheiro do golpe militar já no ar, vai precisar vender o apartamento. O personagem de Blat é nitidamente inspirado por próprio Domingos (o ator chega a interpretar alguns dos trejeitos do diretor). Sophie Charlotte é a musa inspiradora que vira a cabeça do protagonista. E o filme é em preto-e-branco.

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