quarta, 27 de janeiro de 2021

Geral
Compartilhar:

‘A Peleja do Fute’ acontece neste final de semana em JP

Audaci Junior / 25 de março de 2017
Foto: Divulgação
Quando o tarimbado ator e diretor Fernando Teixeira quis adaptar um conto de Machado de Assis (1839-1908) para o manancial teatral, não pensou duas vezes em homenagear outro bastião da literatura: o paraibano Ariano Suassuna (1927-2014).

O resultado é o espetáculo A Peleja do Fute, montagem do Grupo de Teatro Bigorna sob a direção de Teixeira que será encenada hoje e amanhã, sempre às 20h, no Espaço Tamarindeira Processos Criativos, localizado próximo à Praça das Muriçocas, no Miramar, em João Pessoa.

Baseado no conto machadiano A Igreja do Diabo, o diretor fez a adaptação na base do cordel. “Dei uma ‘cordelizada’ no texto porque me lembrei de Ariano. Ele já falava que eu fazia um teatro armorial”, relembra Fernando Teixeira. “Sai do peso da literatura por causa da rima do cordel”.

Teixeira explica que o formato armorial se faz presente tanto na arte visual como nos atores. Em cena Vladimir Santiago, Evaldo de Souza e Fabíola Morais.

No conto A Igreja do Diabo, publicado originalmente em 1884, Machado traz as contradições do homem, suas fraquezas e a peleja do demônio pela posse da alma do homem, nessa busca desenfreada e sempre sem sucesso. Com esse cenário, a cultura católica é materializada através da dualidade do bem e do mal e da força persuasiva daquele que acredita ser o grande dono da humanidade: o Diabo.

“Há uma certa mítica popular com o Diabo”, informa o diretor paraibano. “Aquele texto é muito teatral, mas, pensando nisso, a maior dificuldade de adaptar é porque Machado de Assis é Machado de Assis”.

Na trama do conto, cansado de sua inferioridade diante de Deus, o Diabo decide criar sua doutrina e fundamentá-la em uma igreja.

Ele procura Deus e o avisa de seu projeto, empolgado na crença de que o homem facilmente aceitará as suas leis. O Divino, no entanto, não faz nada para impedi-lo. Assim, o tinhoso vai a Terra e afirma que todos os antigos conceitos eram falsos e que todos os pecados se tornam virtudes.

Quando a nova doutrina se espalha, o Diabo se surpreende ao ver que a única coisa que era proibida aos seus servos está sendo praticada até mesmo por seus mais fiéis seguidores – a bondade.

“É uma crítica a índole e personalidade do povo. A coisa é muito parecida hoje em dia”, comenta Fernando Teixeira.

A mistura do o popular com o erudito – essência do movimento armorial – é a fonte do teatro de A Peleja do Fute, que bebe da música popular, dos folguedos e de seus personagens ligados ao imaginário do povo para vislumbrar outra mistura entre o conceito "machadiano", a sabedoria "ariana" e a criatividade "bigordiana" através dos personagens de Catirina, Mateus e o Fute (o apelido do “Cão” – como diz a expressão popular “Está com o Fute”).

De acordo com o diretor e dramaturgo, a peça é curtinha, assim como sua obra original, pois sua intenção é ser encenada na rua.

O problema maior – ainda segundo Teixeira – é o preconceito dessa onda do "politicamente correto", que quer apedrejar antes de saber do que se trata a obra, uma crítica da nossa sociedade que permanece atual.

“Estamos testando no teatro, mas nossa intenção é ir para a rua”, garante Fernando Teixeira.

Relacionadas