domingo, 24 de janeiro de 2021

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Toninho Fúria venceu a luta contra as drogas e hoje desponta como um dos próximos paraibanos a lutar no UFC

Marques de Souza / 02 de abril de 2017
Foto: Antonio Ronaldo
Das Malvinas para o mundo. Para Gleristone Santos, de 28 anos, essa frase pode ser bem aplicada. Do começo difícil, no bairro de Campina Grande, o agora conhecido "Toninho Fúria" largou a juventude com separação dos pais e entrada nas drogas para estampar as manchetes como um dos lutadores de maior destaque do Brasil. “Eu entrei no MMA através do meu irmão, quando eu tinha 16 anos. Eu estava um pouco afastado da escola. Tive uma adolescência complicada. E meu irmão, que praticava Jiu-Jítsu, me chamou para treinar. Passei a ter curiosidade, treinei durante três meses e, no quarto mês, estreei em uma luta. Eu nem ia lutar, ia só prestigiar a luta do meu irmão, mas acabaram me chamando”, disse.

Antes da estreia nos tatames, porém, a curiosidade conduziu Gleristone, mas foi pelo acaso que o talento do jovem até então cheio de problemas foi descoberto. O primeiro contato com a prática esportiva, no entanto, não foi dos melhores. Nos primeiros treinos, faltava habilidade, mas sobrava vontade de aprender. “Eu treinei com um garoto que tinha 10kg a menos que eu, e ele me finalizou umas dez vezes. Eu não entendi porque aquilo tinha acontecido. Daí então passei a ter curiosidade, comecei a treinar”. Insistência que começou a fazer com que os resultados aparecessem. A realidade das artes marciais mistas, que eram praticadas pelo irmão mais velho, acabou entrando na vida do irmão mais novo. E não poderia ter dado tão certo. “Viram que eu tinha potencial, talento. Não parei mais”, afirmou.

Quando fala em potencial, talento, Fúria abre um sorriso discreto. Faz uma pequena pausa para, em seguida, lembrar das pessoas que conheceu pelo caminho. Parece ser um de seus maiores orgulhos. Uma dessas pessoas é Jean Silva, campeão do “Cage Rage Championships”, um dos principais eventos de MMA da Inglaterra, e também um dos pioneiros da modalidade na Paraíba. “Foi um segundo pai pra mim, me colocou na escola para estudar”, contou. A chegada de Silva na vida de Toninho Fúria foi marcante porque o devolveu à escola, em uma época onde tudo parecia estar fora do lugar.

A trajetória do atleta, recém chegado da Coréia, onde participa da equipe “Pitbull Brothers”, de Natal/RN, é motivo de muita felicidade. Após assinar com o Road FC, importante evento de MMA no continente asiático, o lutador olha para a trajetória com orgulho. “Em 2010, quando eu era o melhor da Paraíba na categoria, fui buscar a sorte no Rio de Janeiro com uma mão na frente e outra atrás. Passei muita dificuldade lá. Fome, principalmente. Eu não tinha renda. Fui morar em uma comunidade da Rocinha. Era muito desgastante. Ficava nos treinos, muitas vezes, sem comer. E meu corpo sentia isso”, desabafou. Eram horas subindo e descendo os morros da maior favela do país. Faltava alimento, roupas, acompanhamento. Sobrava cansaço, e muita fé.

Fúria viajou para o Sudeste para participar de uma luta. Ele teria que ganhar o dinheiro da bolsa, para comprar a passagem de volta. Mas decidiu ficar. Foi um momento crucial na vida do atleta, onde provações moldaram o caminho, o tornando resistente, principalmente dentro dos tatames.

Toninho foi obrigado a enfrentar desafios na sua própria equipe, que o colocou na geladeira por oito meses. Foram dias de espera, meses de dúvidas. Que logo, contudo, cessaram. A qualidade de Fúria logo se destacou. “Eles viram que eu tinha potencial e tinham que me botar pra lutar. Eu comecei a ganhar competições em todo o Brasil”, desabafou. A geladeira, fase em que a equipe não escala o atleta para participar dos eventos, serviu como uma motivação para agarrar bem as oportunidades, que logo apareceram.

Quando está em Campina Grande, sua cidade natal, o atleta reconhecido mundialmente dá lugar ao menino tratado sempre de forma carinhosa pelo bairro. O treino de alta performance, planejado em várias etapas e diferentes horários, se torna uma atividade entre amigos, na academia do bairro onde cresceu, e ficou gigante. A impressão que dá após chegar ao local é que, cada detalhe daqueles equipamentos fazem parte de um momento da vida do lutador. Todos vibram muito pela presença de Fúria no local. Um olhar de admiração e gratidão. O lutador, mesmo vencendo, não esquece as origens.

A importância da trajetória de Fúria vai além da sua capacidade de superação. Significa para a Paraíba um exemplo de técnica, de um lutador ágil e que coloca o nome da região sempre no lugar mais alto do pódio. É a prova da vocação paraibana não somente para o futebol, por exemplo, mas para tantos outros esportes. Que seguem revelando talentos, mas que permanecem anônimos nos bairros a fora pela falta de cuidado, de investimentos e de atenção. São muitos os jovens com potencial, mas poucas as oportunidades.

Desde 2013, quando foi eleito o melhor peso-pena do país, Toninho Fúria coleciona vitórias, que já somam mais de 33 em toda a carreira. Só por nocautes, foram 13. Sonhando alto, mas com os pés no chão, Fúria quer manter o bom momento e não descarta o UFC. “Muita gente pergunta isso. Já tive negociações com o UFC. Infelizmente, por questões do meu treinador na época, não pude ir para o evento. Tenho muito a crescer no evento onde estou. Se eles quiserem me contratar, estarei de braços abertos”, afirmou.

Toninho Fúria volta a lutar em abril ou junho, na continuação de seus desafios pelo “Road FC”. Na mente, a ansiedade por mais uma vitória em meio às muitas já conquistadas nestes 12 anos de carreira. E no coração, o desejo que mais jovens tenham a mesma oportunidade. “Eu sou um desses. Passei muita dificuldade, comecei a andar com amizades erradas. E o esporte fez eu esquecer tudo isso (sic). Hoje, sou muito bem visto. Quem conhece minha história no bairro e na cidade, sabe que eu sou vitorioso”, concluiu.

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