segunda, 12 de abril de 2021

Esportes
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Paraibana representa o Brasil no Karatê internacional

Marques de Souza / 22 de abril de 2018
Foto: Antonio Ronaldo
Entre as formações rochosas de sua geografia irregular, a cidade de Queimadas, região metropolitana de Campina Grande, à 145km de João Pessoa, esconde um diamante das artes marciais japonesas. Ainda em processo de lapidação, tal como acontece com as pedras preciosas, Caline Castro da Silva, de 14 anos, luta contra os adversários, enfrentando as dificuldades e prestes a realizar um feito notável: representar a Paraíba e o Brasil em uma competição internacional de Karatê.

De sorriso fácil e fala firme, é difícil acreditar sobre a idade que a menina diz completar. Parece ser mais velha. A maturidade que a jovem atleta exala é reflexo de uma trajetória construída em cima de muito foco e do sonho em ir mais longe, uma dupla imbatível que levou Caline a um lugar de destaque. A partir desta segunda-feira (23), ela veste o kimono com a bandeira do Brasil para defender o país no Campeonato Sul-americano de Karatê, em Guayaquil, maior cidade do Equador.

O início no esporte e a conquista da classificação

Era o início de uma tarde quando Caline recebeu o Correio em uma rua no centro de Queimadas. Apenas um lado do portão estava aberto. A pouca iluminação do local era compensada pelos muitos troféus e medalhas que se amontoavam no canto da parede. O local é simples, mas um sacrário para o coração da carateca. Foi nessa mesma academia que, há seis anos, o destino da jovem encontrou o esporte. Uma relação que envolve escola, família e cinema. Acaso, presente e futuro.

“Eu comecei em um programa social da escola que tinha a modalidade. Na época, eu pedi para os meus pais me colocarem, e fui gostando. Depois, quis entrar na academia. Criei uma paixão enorme pelo esporte e estou até hoje. O engraçado é que eu também assistia a filmes e isso me empolgava muito”, disse. Do primeiro treino até hoje, muita coisa mudou na vida de Caline. Mas uma coisa, em especial, transformou a atleta. A possibilidade de superar novos limites e aumentar o nível de competitividade. Uma chance que não será esquecida.

Sabendo da seletiva para o Sul-americano que iria acontecer em João Pessoa, a jovem não perdeu tempo. Mas tudo parecia muito difícil. Distância, estrada e um detalhe: o nível era alto. As concorrentes eram atletas com experiência em competições internacionais e até com passagens pela seleção brasileira. Mas nesse momento, como entre tantos, o esporte protagonizou mais uma cena onde o talento faz o caminho inverso à lógica e sempre vence. Não deu outra. A tensão enquanto comentava todo o caminho percorrido deu lugar a uma feição de alívio. E orgulho.

“Eu consegui, fiquei em primeiro lugar. Foi um momento muito especial para mim, difícil. Todas as competidoras eram experientes. E eu não. É a primeira vez que vou pra seleção e é a primeira competição internacional que disputo”, comemorou. Da escola para a academia, da academia para o Brasil. E agora, para o mundo.

O desafio de tornar real a ida para o Equador

A vida tranquila ilustrada pelos treinos e experiências normal a qualquer pessoa de 14 anos de idade, se transformou em uma grande correria após a classificação de Caline para a Seleção e para o Sul-americano. Foi preciso uma mudança completa em duas vertentes que modificaram a vida da atleta: física e financeira. Guayaquil, no Equador, é uma cidade que não tem uma altitude muito elevada, mas suas temperaturas são extremas durante todo o ano. Um lugar com características diferentes. Tempo, clima, ar. Uma nova realidade.

O treinamento de Caline precisou ser adaptado. Um dos momentos marcou a atleta e o seu treinador, o professor Silvino. “Eu fechei todos os portões. Queria que ela treinasse no calor mesmo, para suportar. Teve uma hora que ela falou que não aguentava. Eu insisti: Vamos, “Pretinha”! Lá (no Equador) vai ser dessa forma!”, comentou o treinador. A outra mudança necessária na rotina da jovem era a base para a realização do projeto de disputar a competição. Sem o dinheiro, era impossível planejar alimentação, translado e a segurança necessária para um bom rendimento em outro país.

Ela vestiu a camisa e, junto com a família, equipe de treino e amigos, foi em busca do impossível. Os valores para uma competição desse nível se aproximam dos dez mil reais. Com muitas economias, claro. Campanhas, bazar, apoio. Qualquer alternativa que tornasse viável uma arrecadação de dinheiro para a participação na competição era aceita. A carateca pode afirmar com todas as letras que vai chegar preparada. A luta começou antes dela entrar no tatame. Foi nas ruas.

“Tudo fica mais intenso, mais difícil, complicado. A gente tem que treinar mais e, ao mesmo tempo, tem que buscar ajuda financeira, protetores, acessórios, essas coisas que a gente precisa para ir bem. Os custos são muito altos e, para conseguir dentro de um mês, é muito difícil. Tive que correr muito atrás”, confessou Caline que, antes de ser questionada novamente, interrompeu. “Eu corro tanto atrás que, às vezes, chego ao treino cansada. É até difícil de treinar”, desabafou.

A dura caminhada com o professor Silvino

São seis anos que Caline pratica o Karatê. Foram muitas as pessoas que participaram dessa caminhada e contribuíram diretamente ou indiretamente para ela chegar onde está hoje. Mas um personagem, em especial, é parte importante nesse amor pelo esporte: o professor Silvino. Alto e sempre sério, mas atencioso, o treinador se derreteu em elogios quando perguntado sobre essa parceria com a atleta por tantos anos. Aos 56 anos de idade, Silvino já pratica o Karatê a 35. Uma vida destinada à modalidade, que se reinventa, fortalecida pelo exemplo de praticantes como Caline.

“Ela começou comigo novinha e sempre gostou muito da modalidade. Dava para perceber. Com oito meses de treino, ela já fazia a diferença das demais. E era pontual, viu? Vinha para todos os treinos. Eu notava a qualidade e a evolução dela. Eu chamei até o pai dela para conversar uma vez, falei para a gente investir nela, que ela chegava lá. E chegou mesmo”, comentou.

Essa sensibilidade em perceber a qualidade da jovem toma forma quando ela fala sobre a relação que mantém com o treinador. Pai e filha. Um laço naturalmente humano que, motivado por um sonho, se torna presente também na academia. Entre Silvino e Caline. Professor e atleta. Se ela se esforça nos treinos para manter os bons resultados e conquistar ainda mais medalhas, ele se molda, preparando a atleta e cultivando o trajeto com respeito e empenho. Nessas idas e vindas, essa estrada já conduziu a dupla a grandes vitórias.

“O karatê fez muito na minha vida. Faz o ser - humano crescer enquanto cidadão. Ter paciência, disciplina, respeitar as pessoas. É muito importante chegar na escola e receber o elogio dos alunos. Ela (Caline) correu muito atrás, junto com a família. Todo mundo sabe que é muito difícil”, afirmou Silvino, completando sobre o atual momento técnico da atleta, prestes a disputar uma competição continental. “Ela chega bem, tecnicamente está bem. Tenho esperança de medalha nela. É uma atleta madura, mostra isso no dia-a-dia, pode chegar ao pódio”, concluiu.

A retribuição ao esporte e a formação de novos talentos

Enquanto divide suas responsabilidades com a escola, Caline resolveu compartilhar sua vocação com outras pessoas, multiplicando o amor pelo esporte. Através de um projeto social, a atleta dá aulas de karatê para crianças e jovens de 5 a 18 anos, em uma das praças da cidade. Essa novidade na vida da atleta, que começou no início do ano, está sendo responsável por alimentar ainda mais os projetos para o futuro.

“É uma experiência muito legal que estou gostando muito. Eu não esperava. Cada treino é um momento muito especial, diferente. E são pessoas de todas as idades, eu aprendo muito também”, comentou. Sempre seguindo orientações, Caline passou a ficar do outro lado, passando instruções, dicas, e isso despertou novos desejos. A carateca, que pensa em seguir carreira no Direito ou na Educação Física, revelou um novo objetivo. “Quero ser a técnica da seleção brasileira. Não custa sonhar, né?”, questionou.

Não. Não custa nada. Para quem já foi tão longe, qualquer nova meta se torna possível a partir da determinação. A atleta, de origem simples e de uma cidade de pequeno porte, cresceu através da dedicação e hoje representa todo um estado. A história da menina de pouca idade mas muita experiência se confunde com a caminhada de milhares de jovens pelo país que, através da paixão pela atividade esportiva, tem a possibilidade de mudar de vida, evoluir enquanto pessoa e se tornar referência.

“É uma responsabilidade grande. Sempre passa um filme na cabeça, fico relembrando as coisas. Quando eu comecei, ninguém dava nada por mim. Hoje, represento o meu estado. Foi uma mudança enorme na minha vida e estou muito feliz por tudo isso que está acontecendo”, concluiu. Olhar para Caline é sentir orgulho de uma história escrita por mãos firmes e cheias de fé, comemorando a Paraíba de tantos talentos esportivos e destacando o exemplo de quem, através do esforço, alcançou a vitória.

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