quarta, 20 de setembro de 2017
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Nova promessa na bocha, paraibano Matheus de Oliveira mira nas Paralimpíadas Escolares

Marques de Souza / 16 de setembro de 2017
Foto: Antonio Ronaldo
Quem olha para o Matheus de Oliveira, em uma cadeira de rodas, não imagina a relação que existe entre ele e o esporte. O simpático menino de 16 anos agora coleciona o título de campeão na competição de bocha dos Jogos Escolares e Paraescolares da Paraíba. Em meio à medalha e ao reconhecimento em todo o estado, Matheus faz da disputa esportiva, com o apoio da mãe e o auxílio de um professor, um motivo para ser ainda mais feliz.

O esporte

A bocha paraolímpica é um esporte destinado a pessoas com limitações cerebrais e nos membros. É disputada entre dois times. Um fica com seis bolas azuis, e outro, com seis bolas vermelhas. E existe uma branca, chamada bola alvo. O objetivo final do jogo é que um dos dois participantes consiga o maior número de bolas da sua cor próximas a bola alvo. No final dos lançamentos, que vão se alternando entre azuis e vermelhos, quem conseguir mais bolas próximas a bola alvo, conquista o set e, posteriormente, o jogo. O jogo é disputado em quatro parciais e o resultado do primeiro set se soma ao segundo, ao terceiro e ao quarto, para se ter um resultado global.

Início

O desejo de participar das competições começou em junho, durante os atendimentos na Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE), em Campina Grande. No início, a mãe de Matheus, dona Maria Rejane, não aceitava. O medo da mãe era que o filho se machucasse na prática do esporte, mas depois o professor conseguiu convencê-la. Esse professor é Danilo Queiroz, 36 anos, formado em Educação Física e voluntário da APAE. Há um ano na instituição, Danilo resolveu trazer a bocha olímpica. E Matheus foi um dos alunos que embarcou na nova aventura.

“Eu sempre gostei de trabalhar com educação adaptada. O Matheus treina há menos de seis meses conosco. É um esporte novo para ele. Foi apresentado, e ele começou a treinar. É um trabalho social, de inclusão. Tudo foi feito sempre com muita paciência, sem pressão, mas os resultados começaram a ser positivos. O Matheus demonstrou um talento muito grande para esse esporte”, comentou Danilo.

A resistência da mãe, no início, para que Matheus participasse de alguma atividade esportiva tinha motivo. O agora campeão estadual tem uma trajetória de vida de muita superação. “Quando ele foi nascer, o médico disse que ele não ia escapar. Ele veio para eu amadurecer, dar valor as coisas, mudar, evoluir. Dos nove filhos da minha mãe, eu fui à escolhida, e sou muito feliz por isso”, disse dona Rejane, emocionada. O Matheus que carrega uma medalha no peito, no entanto, é somente uma extensão do bom menino que é em casa. “É um menino tranqüilo. Toma banho só, se alimenta, faz as tarefas. Na escola ele se dá bem com todo mundo, e no bairro também. Todo mundo fala bem dele”, concluiu a mãe.

O título

Na competição, que aconteceu em João Pessoa, a expectativa do treinador Danilo era sobre as vantagens que a disputa iria trazer para seus alunos, como a socialização com outros desportistas. O que o treinador não esperava era que retornaria à Campina Grande com a medalha de campeão do estado no peito. Mesmo com as dificuldades, principalmente de treinamento, prevaleceu o talento e a aptidão esportiva do aluno.

“Na verdade, foi uma emoção muito grande pela medalha, mas já estávamos satisfeitos com a participação. Não temos recurso material, quadra apropriada. Ficamos felizes quando ele conquistou o resultado lá, disputando com pessoas que treinam há mais de dois anos, três anos, que tem todo o recurso material”, comemorou o professor. A principal mudança, no entanto, é na vida de Matheus e em suas relações sociais.

O esporte, nesse caso, aparece como um transformador na vida dos alunos especiais. Com os treinos e competições, a modalidade deixa de ser apenas uma ferramenta esportiva e passa a ser uma forma de inclusão, tirando pessoas como o Matheus de casa, e colocando-as na quadra, em contato com outras pessoas, e com vontade de vencer e evoluir.

“O Matheus há seis meses era uma pessoa de cadeira de rodas, com paralisia cerebral, que não ia para lugar nenhum, que a sociedade deixava a margem. Hoje, ele é referência na própria família. Falam que ele é o filho campeão, o primo campeão. Isso é o mais importante”, analisou o treinador.

Orgulho e futuro

As atenções de Matheus, do treinador e da família agora ganham proporções nacionais. Depois de conquistar a Paraíba, o Brasil surge como o próximo compromisso. A etapa brasileira dos jogos escolares está prevista para acontecer entre os dias 20 e 25, em São Paulo/SP. O nível técnico aumenta, mas o que não muda é a certeza de um bom trabalho, independente dos resultados.

“Estamos atrás de apoio, não somente para o Matheus. Apoio principalmente material. Nós sabemos que no nacional vamos enfrentar atletas de Curitiba, de São Paulo, do Rio de Janeiro, e que treinam todos os dias com recursos muito melhores do que os que nós temos. Vamos seguir motivando e dando confiança para o atleta”, afirmou Danilo.

Para a mãe, dona Rejane, a ansiedade aumenta, mas o orgulho continua o mesmo, desde o primeiro título. “É um orgulho ver que ele é capaz de conseguir os objetivos. O sonho dele era ser desportista, e ele começou bem. Eu queria que as pessoas acreditassem mais nessas pessoas, às vezes eles são muito oprimidos. É muito gratificante. Eu me lembro muito de João Pessoa, do professor dele. Antes de começar, ele não exigiu dos meninos, disse para fazerem o que puder. Mas eles ganharam. A gente não pode exigir, deve deixar a vontade. Agora é mais um obstáculo. Eu fico ansiosa. Mas vamos confiar e acreditar que virá mais uma medalha”, concluiu a mãe.

Na etapa nacional, quando estiver a caminho de São Paulo, Matheus vai levar na mala a força de quem soube superar as limitações e adversidades na tentativa de ser feliz sendo atleta. Junto com ele, estará também o pensamento de outras milhares de crianças que não tiveram a mesma oportunidade. No final de cada arremesso, a certeza de que, assim como aconteceu com o menino sonhador de Campina Grande, o esporte muda vidas, transforma realidades e realiza muitos sonhos.

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