quinta, 18 de abril de 2019
Futebol
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Multicampeã, Gleide Costa conta sua trajetória no futebol paraibano

Gabriel Botto / 08 de março de 2019
Foto: Allan Hebert
Uma acumuladora de títulos e conquistas, reconhecida em todo o estado por brilhantes trabalhos, tanto nas categorias de base, como no futebol profissional. Gleide Costa é um dos exemplos vencedores do futebol feminino paraibano. Atleta desde os primeiros anos de vida, a treinadora do Botafogo-PB contou sua história no esporte, escancarando problemas corriqueiros que vão desde o preconceito e o machismo, até a falta de investimentos na modalidade feminina do esporte mais praticado no Brasil: o futebol.

“Sempre fui uma criança que gostava de praticar esportes. Iniciei na escola e na rua, sempre interagindo com as outras crianças. Eu gostava muito de futebol, mas sempre pratiquei também outros esportes, como voleibol e basquete. No entanto, comecei de fato no futebol no início da década de noventa, no clube Monte Castelo, do bairro do Castelo Branco. A partir de 1995, começamos a treinar futsal e a disputar competições a nível nacional, inclusive pela Seleção Paraibana, que na época se chamava ‘Estudantes’. No futsal fomos de 1995 até 2010 por aí, jogando. Ao mesmo tempo, comecei a atuar como treinadora de futsal feminino em 2007”, disse a treinadora do Botafogo-PB, Gleide Costa.

Tetracampeã e entre as oito melhores do país



Gleide iniciou os trabalhos como treinadora em 2009, mesmo ainda atuando como jogadora. De lá para cá, ela conseguiu faturar todos os títulos das competições oficiais que disputou, tanto no comando técnico, como dentro de campo. Pelo Botafogo-PB, Gleide conquistou no ano passado o quarto título consecutivo do Campeonato Paraibano. Além disso, a treinadora colocou as ‘Belas do Belo’ entre as oito potências nacionais do futebol feminino em 2015.

“No futebol, enquanto treinadora, nós assumimos em 2009 e aí vencemos todas as competições oficiais no estado desde aquele ano. Antes disso tiveram duas competições oficiais apenas, onde em uma fui campeã pelo Monte Castelo em 1995 e na outra, em 1998, pela Portuguesa. Pelo Botafogo-PB em 2015, conseguimos colocar a equipe entre as oito melhores do Campeonato Brasileiro da Série A e em 2018, fomos semifinalistas da Taça Nordeste”, completou a multicampeã.

Amor pelo esporte supera preconceito

Formada na área de Educação Física, Gleide nutre um amor especial pelo esporte que, segundo ela, fez parte de toda a sua vida desde quando era criança, até a atualidade. Porém, ela falou sobre o preconceito que enfrentou, principalmente na infância, por gostar de atividades que, culturalmente, eram praticadas hegemonicamente por meninos.

“O esporte é minha vida. Não me lembro se em algum momento o esporte não esteve atrelado em minha vida seja quando criança ou agora. Na infância sempre tinha a questão de interagir sempre com meninos, um preconceito, mas estamos aqui, na batalha por dias melhores para o futebol feminino”, comentou Gleide.

Sobre esse preconceito evidenciado historicamente, principalmente no futebol, Gleide falou que conseguiu senti-lo na pele enquanto treinadora, onde ela constatou a desproporcionalidade entre profissionais do sexo masculino e feminino atuando no futebol em ambas as modalidades. De acordo com a treinadora, ela precisou, por diversas vezes, provar que era uma boa profissional, apenas por ser mulher.

“Então, na realidade eu tive um momento que consegui enxergar as barreiras que eu transpus, tendo em vista quando eu me vi em uma foto onde só tinham homens e só eu de mulher. Ali eu senti. Acho que tinham uns quarenta homens na foto e só eu de mulher. Então, trabalhar com futebol que, historicamente já é um esporte masculino, tive que provar várias vezes de minha capacidade, pois as dúvidas que surgiam eram apenas em relação ao meu sexo, e não ao meu trabalho. Mas, acaba que a gente se acostuma, pois é a luta da vida e isso fez a gente (mulheres) crescer bastante, inclusive lutando por outros espaços na sociedade”, relatou Gleide Costa.

Investimentos baixos comprometem o futebol feminino



Sobre os investimentos no futebol feminino no Brasil, Gleide disse que não tem como comentar o que é óbvio. Por exemplo, este ano, o Botafogo-PB faturou R$ 525 mil reais por apenas participar da Copa do Brasil com seu time masculino, enquanto que, o mesmo clube só embolsou R$ 10 mil pela participação no Campeonato Brasileiro da modalidade feminina em 2018. Para Gleide, a missão de quem faz o futebol feminino é mostrar que a modalidade é viável financeiramente e quebrar as barreiras do machismo existente no meio futebolístico.

“Não tem muito que falar sobre o que está óbvio. Temos que lutar para viabilizar o futebol feminino. Procurar atrair investimentos, pois o futebol é isso. Temos que mostrar o quanto é bonito e o quanto pode ser viável financeiramente o nosso esporte. E isso vai se dar com a quebra de barreiras, do machismo existente e de outras situações ideológicas e políticas, de entender a prática de futebol pelas mulheres”, lamentou.

Esperança de melhora



A treinadora já percebe algumas mudanças. Com as licenças da CBF e Conmebol, que obrigam as equipes profissionais a terem representação no futebol feminino, os investimentos vão aumentar, melhorando o aspecto do futebol feminino no país. Mas claro que não chegará perto da quantia que é investida no futebol masculino, mas contribuirá para uma melhora.

“A gente percebe que as coisas estão melhorando. Se pegar um comparativo com anos atrás, dá para perceber que está melhorando, seja por uma imposição, seja por adequação às licenças da CBF ou Conmebol. A gente acredita que nos próximos dois anos vai ser dado um salto de qualidade no futebol feminino. É claro que não vai ser equiparado ao masculino, mas continuamos a acreditar que isso será determinante para uma melhora”, finalizou a treinadora das ‘Belas do Belo’.

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