terça, 02 de março de 2021

Futebol
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Itamar Schülle abre o jogo em entrevista exclusiva ao Correio

Allan Hebert / 11 de junho de 2017
Foto: Rafael Passos
O trabalho de técnico de futebol é um dos menos estáveis no país, mas, pelo menos para Itamar Schülle, isso tem sido diferente. No Botafogo desde o final de 2015, ele é o terceiro treinador há mais tempo no cargo entre os 60 clubes que disputam as Séries A, B e C do Campeonato Brasileiro. No quesito tempo de trabalho, ele só perde para Claudio Tencati, do Londrina-PR, e Rogério Zimmermann, do Brasil de Pelotas

Em conversa exclusiva com o CORREIO, o gaúcho de 50 anos contou detalhes sobre as suas duas passagens pelo Botafogo, falou sobre a família, adaptação a João Pessoa e muito sobre futebol, é claro. Em um dos momentos, visivelmente emocionado, revelou que estava fechado com um clube paulista, mas aceitou voltar o Alvinegro da Estrela Vermelha porque sempre sonhou em ser campeão aqui.

Itamar, não sei se você sabe, mas entre os 60 técnicos que dirigem os clubes das Séries A, B e C do Brasileirão, você é o terceiro mais longevo no cargo. Só perde para os treinadores do Brasil de Pelotas e do Londrina. Como você encara isso? É uma afirmação de que você se tornou um grande treinador?

- Em primeiro lugar, eu sempre falo isso, sou muito grato a Deus por me dar a capacidade para estar trabalhando e me direcionando nas coisas que faço. Eu passei por alguns clubes, mas dos últimos oito anos para cá eu tenho tido bastante tempo nos clubes. Por exemplo, fiquei muito tempo no Novo Hamburgo-RS. Nas duas passagens foram uns três anos e só na última foram quase dois. Vinha de um trabalho no Juventus de Jaraguá-SC de quatro anos e fui para o Novo Hamburgo e passei dois anos. Depois fui para o Operário-PR, passei um ano e pouco e fui campeão paranaense lá. Sábado (ontem) vai fazer um ano e seis meses que estou aqui, então, pare que isso aconteça os resultados têm que aparecer. Mas, além disso, acho que a gestão das pessoas com quem você trabalha é muito importante. Você tem 30 atletas, com personalidades diferentes, temperamentos, pensamentos diferentes, então é muito mais fácil você agradar só os 11 que jogam, mas você tem que manter os outros treinando em alto nível e mostrar que eles são importantes e que daqui a pouco podem ser titulares. Isso é um cuidado muito grande que eu tenho. Ás vezes deixo o meu auxiliar com a equipe que vai jogar e trabalho com os que não vão jogar. Acho que o dia a dia de gestão é muito importante para o trabalho, para sempre manter um bom ambiente.

Você passou por alguns momentos conturbados esse ano, como nas eliminações precoces na Copa do Brasil e na Copa do Nordeste, em algum momento achou que seria dispensado?

- A gente sempre acha (que vai ser demitido). Duvido um treinador que diga ou pense que está seguro. Se você me perguntar se eu estou seguro eu vou dizer que não. Você sempre conversa com diretores e eles sem querer falam assim: “hoje eu falei com treinador fulano de tal e ele disse isso, isso e isso”, então, se tem alguém falando com outro treinador não tem como você estar seguro. Recordo de um jogo aqui que o time não vinha bem e tinham quatro, cinco treinadores assistindo ao jogo. Deus segura a gente, junto com o bom trabalho e resultados. No Brasil, muitas vezes o trabalho de treinador é colocado em segundo plano. Agora, com o nosso sindicato, com o nosso nome colocado no Bid, acho que ganhamos um pouco de força. Antes o treinador era descartável. O clube normalmente não vai mexer no grupo, é mais barato passar a culpa para o treinador que é mais barato.

Itamar, você acha que a torcida está devendo um pouco no quesito comparecimento ao Almeidão? Ultimamente você tem cobrado bastante a presença de pelo menos 10 mil torcedores no estádio.

- Eu sou apaixonado pelo torcedor do Botafogo, um torcedor de origem, que nem eu que venho de origem humilde, que sofreu muito e que batalha para vencer na vida. O torcedor do Botafogo é assim, tem suas raízes humildes e são apaixonados pelo clube. O que me causa tristeza são seis, sete pessoas, até manipuladas por alguém, que às vezes o jogo nem começou e já estão xingando os jogadores, me xingando, jogando coisa em mim. Se terminou o jogo e o time não jogou bem, eu até acho normal jogarem coisas em mim, mas antes eu não aceito. Mas são só meia dúzia, às vezes até com envolvimento com política, que fazem isso. O verdadeiro torcedor do Botafogo é aquele que está sempre junto, que ajuda o clube a construir academia, a fazer piscina e que tem identidade com o clube.

Ano passado, durante a Série C, você recebeu uma proposta do Joinville, que estava na Série B. O que fez você ficar no Botafogo?

- Eu trato o Botafogo como a minha segunda casa. Eu tive inúmeras oportunidades de ir embora, inclusive com salários melhores, e fiquei. No Operário-PR, quando a gente foi campeão paranaense choveu de propostas. Era Santo André-SP, Sampaio Corrêa-MA, Tombense-MG, Avaí, Paraná... O cheguei a ir a Santo André para acertar com o clube para o Paulistão e no meio disso tudo recebi uma proposta do Breno Morais. O Breno ligou me convidando para voltar e mesmo com todas essas propostas, bem diferentes inclusive na parte financeira, eu falei ao Breno que viria. Falei com minha família e topei. Porque isso? Eu vim para cá em 2010 e peguei um time que estava lá em baixo no primeiro turno e, graças a Deus, o time conseguiu ir para final do campeonato, mas perdemos o título. Depois disso, houve uma reformulação no elenco, jogador sai, jogador vem, e perdemos quatro jogos na Série C. Eu tinha acabado de trazer minha família, fazia dez dias, e me mandaram embora. Na época, o diretor João Maria foi até a minha casa me dispensar. Eu me senti assim, você pensa num cachorro caindo de um caminhão de mudança, eu chorei na frente do dirigente. No dia em que fui embora, fui jantar com o pastor e falei para ele: “um dia Deus vai me trazer de volta ao Botafogo e eu vou ser campeão pelo Botafogo. Quando eu for campeão pelo Botafogo eu vou realizar um sonho meu”.

Você acha que o Botafogo, como instituição, já está preparado para jogar uma Série B?

- Eu vejo o Botafogo com potencial para chegar numa série B, porque existem times no campeonato que não tem a estrutura que o Botafogo tem hoje. O time pode chegar, agora se manter é mais complicado. Para permanecer, tem que continuar crescendo, mas uma coisa leva a outra. Se chegar à Série B, os investimentos serão mais altos e, consequentemente, a instituição vai crescer. Um detalhe interessante é o investimento que temos feito na base. Esse ano, em um jogo do Paraibano, chegamos a ter oito atletas da base, cinco titulares e três no banco. O reflexo disso é que o clube recebe propostas diariamente pelo Djavan, o zagueiro Walber está para ser negociado para o Fluminense, o Marquinhos foi emprestado para o Vitória-BA. Futuramente o Botafogo pode ter quatro, cinco jogadores titulares formado na sua base e outros três ou quatro negociados. São esses investimentos que fazem o time crescer.

Eu gostaria que você fizesse um paralelo entre o time que disputou a Série C em 2016 e o deste ano. Qual é o melhor? Eu vejo os dois times muito fortes defensivamente, mas o deste ano tem o diferencial de Rafael Oliveira, que vem muito bem na temporada.

- Eu vejo time do ano passado como um time que cresceu muito dentro da competição. O que a gente não tinha no passado eram peças de reposição no setor de meio e de frente. A gente lutou muito e teve muita dificuldade nisso. Peças de reposição nunca são demais. Às vezes a minha briga com a diretoria, sadia, diga-se de passagem, é justamente por isso. A gente pede algum jogador, mas nem sempre somos atendidos. Hoje eu só tenho dois jogadores de área, o Rafael Oliveira e o Warley. Saiu o Rafael, machucado, eu só tenho o Warley. De lado, temos o Dico, o Fernandinho e o Cleyton. Tipo, se eu quero mudar o time nos últimos 30 minutos de jogo, quem eu tenho para colocar do lugar deles? A gente não tem. Por isso, que é bom às vezes ter sete atacantes, porque você consegue mudar de acordo com as características de jogo. Por exemplo, atacantes de velocidade nós só temos o Fernandinho e o Dico. Atacante nunca é demais.

Por falar em Rafael, foi você quem resolveu apostar nele ou foi por um pedido da diretoria?

- Foi um pedido da diretoria. Eu conhecia o Rafael pelo desempenho que ele teve aqui até sair para o Botafogo-RJ. A diretoria me trouxe o nome dele, que foi um jogador que fez muito gol aqui, dizendo que queria recuperá-lo, e eu comprei a ideia. Nas primeiras vezes que nos encontramos, eu corria ao lado dele, para conhecê-lo e a gente foi apostando. Ano passado, na Série C, teve um jogo que o chamei para entrar e ele sentiu a panturrilha na corrida até mim. Hoje estou contanto porque ele é meu amigo, mas na época não contei isso para ninguém. A gente foi segurando o atleta e o resultado está aí, 18 gols na temporada. Temos um cuidado especial com ele pelo histórico de lesões, mas ele é um cara que se fizer mais uns gols vai ter um monte de time atrás dele. Opção de ir para a Série B ele já teve. Mas conversei com ele e disse para continuar assim que se fizer mais uns gols pode pintar uma chance de Série A. Um diretor do Avaí me ligou essa semana e perguntou se ia me quebrar se levasse o Rafael. Eu disse que sim, mas se arrumasse as coisas com a diretoria não ia barrar. Então, é um cara que tem muito potencial.

Roger Gaúcho foi contratado agora e tem fama de jogador baladeiro, que não tem muito comprometimento com a equipe. Porque apostou nele?

- Me passaram o nome dele e eu concordei em trazê-lo pelo seguinte. Primeiro, ele veio dentro da realidade financeira do clube. Segundo, não é fácil contratar atletas para essa posição com a qualidade dele. Por exemplo, eu e o Breno no começo do ano estávamos conversando com o Morais, totalmente diferente da nossa realidade, e não deu certo. Tentamos o Clébson, que jogou no Atlético-PR e acertou com o São Bento. Buscamos o Zé Antônio, que jogou no Linense-SP e hoje está no Figueirense. Conversamos com o Thiago Humberto, que o valor que ele queria pagava três, quatro jogadores aqui. Nós fomos atrás do Gabrielzinho, que jogou no Linense e tinham clubes dispostos a pagar entre R$ 40 e R$ 50 mil. O Roger veio na realidade do clube e com contrato de produtividade, que isso é interessantíssimo. Todo jogador que chega eu tenho uma conversa e ele fica ciente que a estrela aqui é o clube. Ele já passou dos 30 anos e tem mais dois ou três anos para ganhar dinheiro. Para ele voltar a jogar uma Série B, por exemplo, vai precisar jogar dentro de campo e ter profissionalismo.

Quais as diferenças entre aquele Botafogo de 2010 e esse atual? Mudou muito?

- Mudou demais. Quando cheguei aqui em 2010 eu cortava grama com a máquina para fazer o treinamento. Hoje você chega aqui tem um campo arrumadinho para treinar, estamos terminando a academia, temos uma piscina coberta, então esse clube tem um potencial de crescimento muito grande. A área do CT é enorme e dá para fazer restaurante, campo de futebol sintético para alugar. O potencial de crescimento é enorme.

Itamar, você faz um planejamento a médio ou longo prazo para a sua carreira? Por exemplo, daqui a cinco anos, como você planeja estar?

- Eu planejo daqui para o final de 2018 chegar pelo menos a uma equipe de Série B. Aí você vai galgando. A cada bom trabalho você vai se firmando e abrindo portas. Nos últimos três anos, eu fui campeão em 2015, vice em 2016 e campeão em 2017, em times diferentes e regiões distintas. Se você for olhar hoje, não sei se vai ter três ou quatro treinadores que conseguiram isso. Primeiro agradeço a Deus, aos meus jogadores e a minha comissão técnica, mas são números importantes. São bons números que daqui a pouco lhe credenciam a chegar a uma equipe de Série B. Quem sabe a gente até não consegue aqui com o Botafogo.

Qual o seu grande sonho como treinador de futebol? Há algum clube em especial que deseja dirigir?

- Para ser sincero contigo, eu não tenho esse time preferido. Eu estou querendo é melhorar sempre, buscar um crescimento. No momento que estou crescer é ir para uma Série B, e depois seguir evoluindo. Não tenho aquela coisa de sonhar em dirigir um São Paulo, um Flamengo, por exemplo, eu quero é seguir crescendo. Um dos maiores sonhos era ser campeão pelo Botafogo e graças a Deus consegui realizá-lo.

Quais são os treinadores em que você se espelha?

- A geração de treinadores com quem trabalhei não é a atual. Na minha época, era o Carlos Alberto Froner, que foi treinador do Felipão. Trabalhei com Áureo Malinverni, Jober Pereira, com quem fui campeão no Brusque-SC em 1992, então procurei buscar um pouco de cada um, já que todos eles são pessoas de caráter e honestidade. Eu sempre procurei seguir o meu perfil mesmo, sem copiar ninguém. Dos técnicos de hoje, com quem tenho mais proximidade é com o Dorival Junior. Inclusive, ele já foi à minha casa e eu já fui ao local onde ele trabalhava. Ele é um treinador que tenho bastante afinidade e às vezes pergunto alguma coisa, tiro uma dúvida. Gosto muito do trabalho dele, mas não procuro copiá-lo.

No Brasil, muito se comenta, principalmente na imprensa do Sul e Sudeste, que os treinadores brasileiros estão ultrapassados. Você concorda com isso?

- Eu vou dar uma de Renato Gaúcho. Eu acho que estudar é sempre válido, você assiste a uma partida de futebol e aprende, você vê um vídeo e aprende. Eu todo dia aprendo algo vendo um jogo, vendo uma entrevista de alguém, procuro ler muito, então a gente sempre aprende. Quanto a se reciclar, eu vou citar o exemplo de um dos caras que mais ganhou títulos lá fora, o Hélio dos Anjos. Lá na Arábia ele é rei. Onde ele se reciclou? É que nos times que ele foi tinha dinheiro para contratar e deu certo. O Tite treinou o Corinthians, jogou comigo, fez estágio fora do país. Fez um estágio de dez, 15, 20 dias, isso não é estágio. Para você ir para fora e aprender alguma coisa você tem que passar dois, três, quatro anos. Isso aí eu faço aqui no Brasil. Fui ao Santos, fui ao São Caetano, passo ali no Flamengo. Acho que o futebol brasileiro ainda é o maior detentor de títulos, ainda é um dos que mais vende jogadores, então o treinador está ultrapassado? Quer ver se a gente está ultrapassado? Deixa o Tite, o Luxemburgo pegar um Bayern, um Barcelona, e pega os caras de lá no Botafogo, no Vasco, num Botafogo da Paraíba e vamos ver se eles conseguem os mesmos resultados. Se esses treinadores vierem aqui, ganharam títulos quatro, cinco anos seguidos vamos ver se eles são feras mesmo. Nosso futebol em vez de conseguir trazer peças ele perde. Os de fora escolhem os jogadores que querem, então é bem mais fácil.

Entre Cristiano Ronaldo, Messi e Neymar, qual deles você gostaria de ter no seu time?

- Todos esses jogadores que você falou são fora de série. O Neymar é um grande jogador, Messi é um craque, mas para mim, o Cristiano Ronaldo é diferente, até pelo que vi em vídeos e o no livro dele. Tem até uma frase dele que passei para os meus atletas. Eu vi algumas entrevistas e fiquei ainda mais fã desse cara. Mas por que ele faz tanto gol? Ele disse em uma entrevista que vai para o treino da mesma forma que vai para um jogo. Ele está na concentração e está vendo vídeos das defesas adversárias, estudando como se portam os zagueiros, os laterais, vendo quem é rápido, quem é lento... Ele estuda o cara para levar a melhor. Ele é o primeiro a chegar ao treinamento, um dos últimos a sair, então mostra que não foi por acaso que ele chegou onde chegou. Ele fez isso acontecer.

Como é o Itamar em casa? Você é daqueles que não conseguem esquecer da profissão e fica assistindo futebol o dia inteiro?

- As brigas que tenho com a minha mulher dentro de casa são justamente por isso. Porque quando estou em casa, estou sempre ligado no futebol. Vejo jogos de Série A, Série B, Série C, olho o futebol de fora. Porque se alguém me perguntar a escalação do Barcelona, por exemplo, você tem que saber como o time joga e tal. Quanto mais jogos a gente vê, mais a gente aprende a analisar os adversários. Sábado agora (03), o Lucas (Isotton, auxiliar técnico) foi lá em casa e a gente passou a tarde vendo jogos. Assistíamos dez minutos de um, dez minutos de outro, até a hora de ir para a concentração. Chegamos ao hotel à noite e continuamos assistindo ao jogo entre Fortaleza e ASA. Atrasamos um pouco a preleção por causa do primeiro tempo. Descemos para a preleção e depois voltamos a assistir o segundo tempo da partida.

O que o Itamar e sua família fazem nas horas vagas?

- Eu sou um cara muito família e clube. Quando estou em casa, nem telefone eu atendo, a não ser que seja meus pais ou o Breno Morais. Às vezes ele até briga comigo por conta disso. Só atendo a eles e alguém da comissão técnica quando é algo importante. Procuro brincar com as minhas filhas, a gente sai para tomar água de coco, comer. Outra coisa que gosto muito é correr na orla. Corro, sento em um daqueles quiosques e tomo uma água de coco. No fim de semana vou aos cultos com minha família. De vez em quando também faço um churrasco com a comissão técnica. É basicamente isso.

Está gostando dessa longa passagem por João Pessoa? A família está bem adaptada?

- Eu gosto muito daqui porque não gosto de frio e de onde eu venho é muito frio. A minha cidade, Rio do Sul, agora está passando por enchentes e meus pais moram lá. Nesse momento o rio lá está dez metros acima do nível. Então me adaptei bem aqui porque não gosto de frio. Meu sonho, se um dia Deus permitir, é comprar alguma coisa aqui, morar aqui. Mesmo que eu vá trabalhar em outro lugar, mas pretendo morar aqui com minha família. Minhas filhas se adaptaram bem, minha esposa também.


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