quinta, 04 de março de 2021

Esportes
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Capilé: o garoto que trocou o futebol pelo forró

Marques de Souza / 23 de junho de 2017
Foto: Chico Martins
No início da década de 80, em Campina Grande, o agora “Maior São João do Mundo” dava os seus primeiros passos rumo à afirmação como uma das maiores festas populares do Brasil. Nesse mesmo período, um menino de 19 anos colocava as roupas em uma mala e saía da Serra da Borborema rumo a uma viagem de quase três mil quilômetros. O destino era o Rio de Janeiro para realizar um sonho de infância e tentar carreira no Vasco da Gama. Esse menino é Lenilson Costa de Macedo, mais conhecido como Capilé. E, se não deu certo com o esporte, hoje ele anima milhares de pessoas pelos palcos afora. Em comum: futebol e música, duas palavras sempre presentes na vida do cantor que foi dos gramados ao São João. Comente no fim da matéria.

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Início nos Maiorais.

Capilé recorda com saudade, olhando os quadros na parede de sua casa, em Campina Grande, os inúmeros registros de quando era jogador. Ao lado das fotos, algumas camisas autografadas, fruto de uma caminhada que começou quando ele ainda era garoto. “Comecei no futebol desde menino. Aos 13 anos eu já estava envolvido com futebol. Aqui não tinha aquela coisa da escolinha, da forma que tem hoje. Eu fui para o “Galinho” e, aos 15, o Campinense abriu a escolinha, foi quando eu fui para “Raposinha”. No Campinense, fiquei dos 15 aos 18 anos e aí voltei para o Treze. Nesse meio tempo, joguei profissional no Campinense e também no Treze”, disse.

Nesses quase sete anos em que passou primeiro pelo Treze, e depois pelo Campinense, na base e no profissional, Capilé alcançou o feito de jogar pelos dois clubes de Campina Grande, que alimentam uma rivalidade histórica e movimentam milhares de torcedores por toda a Paraíba. A preferência do agora músico, no entanto, não foi confidenciada. “É uma felicidade muito grande. Tanta gente queria fazer e eu consegui, que é jogar nos dois clubes. As pessoas perguntam até por qual eu torço, mas na verdade, eu amo o futebol, não torço por nenhum”, afirmou.

Sonhos cariocas e fanatismo.

Em 1979, Capilé recebeu a maior oportunidade de sua carreira. A chance de treinar e, posteriormente, jogar no Clube de Regatas Vasco da Gama, encantou o menino. Foi uma viagem que, além das expectativas levadas na mala durante a viagem inter-estadual, revelou outros sentimentos como a saudade, que também contribuiu para o fim da carreira do atleta no esporte. “O Jairo Mendonça me indicou para o Vasco e eu me organizei, viajei e fui treinar lá. Mas não fiquei muito tempo, eu vim embora logo, estava com saudade de casa. Foi muito interessante, uma grande experiência, e podia dar certo, mas eu era muito jovem, tinha 19 anos, e a saudade pesou”, desabafou.

Hoje em dia, a paixão se resume as telinhas de sua sala. Como os problemas no pé atrapalham Capilé de “bater uma bola” com os amigos, o segredo é assistir futebol, toda hora, em todos os canais. “Estava batendo bola até outro dia, mas os tendões estão preocupando. Achei melhor dar uma segurada. Mas assisto futebol o dia inteiro. A minha mulher questiona que não sabe como existem tantos jogos na televisão. Acompanho os jogos, campeonatos internacionais... A forma como os caras jogam hoje parece um vídeo-game”, declarou, aos risos.

Bom de jogo.

Capilé bate no peito para exaltar uma das suas maiores virtudes do tempo em que era jogador de futebol: a versatilidade. Questionado sobre qual posição jogava, ele interrompe. “Ah, os treinadores elogiavam, eu conseguir ser polivalente”, exaltou, abrindo um sorriso. O cantor não é modesto quanto a essa característica que, segundo ele, agradava aos “professores”, tanto no Galo, quanto na Raposa.

“Os treinadores falavam que eu tinha facilidade de adaptação nas posições e boa leitura de jogo. Ainda no Treze, eles sempre falavam isso, que eu conseguia enxergar bem o campo. Já joguei de centro-avante, lateral, ponta esquerda. Em todas, conseguia ser regular, dar bons passes”, comentou.

Saudosista, Capilé saiu das suas características e começou a falar sobre os grandes jogadores que admirava. Entre eles, dois brasileiros e um francês. O tom crítico também foi mantido. O cantor, enquanto listava as qualidades de uma geração vencedora, questionou a “safra atual” de jogadores e fez um comparativo com a seleção.

“Meu primeiro ídolo foi Paulo Roberto Falcão, mas depois vieram outros, como Ronaldo Fenômeno, Zidane, que estava em grande fase. Todos jogavam muito futebol, eram craques. Esses jogadores inspiravam muito. Naquela época, era possível montar duas seleções brasileiras, hoje, o termo craque no futebol se resume há uns três”, afirmou.



Insatisfação. 

A crítica maior de Capilé, porém, é para aquilo que acontece fora das quatro linhas. Na opinião do músico, são os dirigentes os maiores culpados pelo momento em que vive o futebol campinense. Mas o problema está generalizado. Da década de 70, quando ainda menino ele começou no futebol, até os dias de hoje, muita coisa mudou, principalmente a maneira como são contratados os jogadores e tomadas as decisões. “A forma como o futebol tem sido administrado não me agrada. E não é uma coisa local, de Campina, é nacional. Está sendo gerido de uma forma errada, o futebol virou um mercado, e se perdeu a essência. Isso me entristece”, revelou.

Capilé, quando jogou em Treze e Campinense, entre 1970 e 1980, vivenciou uma época onde quase que 100% dos elencos eram formados com atletas “nascidos em casa”, em Campina Grande. E foram épocas gloriosas, com títulos e construção da história e grandeza que representam os dois clubes atualmente. Mas o mercado mudou e a forma de contratar jogadores também. Mudança que não convence o ex-atleta.

“Campinense e Treze têm grandes marcas. Acho que os jogadores precisam saber o tamanho desses clubes e o que eles significam. Por isso estamos dessa forma. No meu tempo, o plantel do Campinense foi todo feito aqui, e foi campeão. Não que isso seja a forma certa, mas o investimento na base tem que existir. Dado as devidas proporções, Alemanha e Inglaterra estão aí de exemplo. Estamos sem renovação, sem peças de reposição”, analisou.

Futebol e São João.

Por volta dos 20 anos de idade, a música entrou na vida de Capilé. E ficou. Os passes, finalizações e comemorações pelo gol foram substituídas por acordes, tons e vibrações do público. O agora cantor busca explicações divinas para o início na música e ressalta a “forma espontânea” como tudo aconteceu. No período em que foi necessário fazer uma escolha entre a música e o futebol, suas grandes paixões, a música foi à escolhida. Um acerto na vida do menino que saiu dos gramados e entrou nos palcos de toda a região.

“A música foi uma grande surpresa pra minha vida. Todos os meus sonhos foram construídos em cima do futebol, do esporte. Eu fui estudar na casa de um amigo, no terceiro ano científico, e ele tocava violão. Ele jogava comigo no Treze, também. Ele tocou uma música e, quando eu cantei, ele falou que eu era afinado. Foi o que Deus escolheu pra mim. Tive algumas dificuldades com o futebol mas, na música, aconteceu tudo de uma forma natural e rápida”, afirmou.

Da surpresa com o início, em 1982, a uma carreira de mais de trinta anos, Capilé teve a sorte em puder escolher entre duas artes e, após a decisão, faz da irreverência a sua principal marca nos shows em que faz nos grandes eventos do Brasil. Uma trajetória que tomou um caminho que não havia sido planejado, mas que foi surpreendente na forma mais positiva da palavra. É difícil listar o que seria Capilé hoje caso tivesse insistido no futebol, mas é possível declarar o amor por ambas às profissões.

“Cada um tem as suas particularidades. A forma de conduzir as duas profissões é muito parecida. Futebol e música são coisas abstratas, você não consegue pegar. Você tem que estar na hora e no lugar certo para que as coisas aconteçam. Existem profissões que você sabe como pode terminar, mas na música e no futebol, não. Você não determina um futuro, vai caminhando e vê como acontece”, concluiu.

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