sábado, 20 de julho de 2019
Eleições 2018
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Partidos perdem a unidade e filiados migram para oposição

André Gomes / 21 de outubro de 2018
O processo eleitoral deste ano escancarou a falta de fidelidade, unidade e institucionalidade das legendas. Na corrida pela presidência da República vários partidos tiveram filiados que foram para o lado oposto ou não seguiram o direcionamento da cúpula partidária.

Para especialistas, o Brasil vivencia uma profunda implosão política causado pelos crescentes escândalos de corrupção e pela falta de ideologias, o que faz as legendas vivenciarem o pragmatismo extremado, onde cada político luta desesperadamente para ser reeleito e, no caso da Paraíba, abandonando seus respectivos candidatos à presidência para seguir outras possibilidades.

De acordo com o cientista político e professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), os partidos tradicionais foram engolfados em escândalos de corrupção. Para ele, nunca antes os políticos estiveram em tão baixa conta. Bastante distanciados do conjunto da população. “Os políticos vivem a fase do salve-se quem puder. Procuram permanecer no poder e rompem com as ‘ideologias’ partidárias, buscando novos espaços e parcerias”, disse.

O professor e cientista político Augusto Teixeira disse que é importante separar momentos de atuação dos partidos políticos. Durante os mandatos existe uma tendência de fidelidade partidária, controle da agenda e votações por parte dos líderes dos partidos. Contudo, no período de campanha predominam em geral os condicionantes da política local e regional.

Teixeira destaca que o fato da magnitude dos "distritos" ser enorme (município, estado ou país a depender do pleito) a dinâmica local-regional se impõe. “Nesse sentido, relações políticas de apoio se sobrepõem à ideologia ou agenda programática das legendas. Por isso a conotação de infidelidade, mas na prática é a adequação do comportamento dos políticos ao desenho institucional”, afirmou o professor.

Sistema deve ser mantido

De acordo com Augusto Teixeira, mesmo observando a situação atual das siglas não deve ocorrer o esfacelamento do sistema partidário no sentido ideológico. “A muito ele não é caracterizado por um forte componente ideológico, vide a própria fragmentação partidária. Espero que com a minireforma eleitoral de 2015 logremos a redução do número de partidos e a relação eleitor partido possa ser reforçada pelo fim das coligações no próximo pleito”, destacou.

Para Teixeira, os partidos como máquina partidária são importantes para conquistar recursos e poder institucional. Ele entende que isso não impede que nos diversos níveis os partidos tenham caciques que imprimem uma lógica de ganho próprio ao invés de uma coerência partidária. “O componente ideológico não é o forte de nossas legendas. Nesse sentido, o comportamento aparentemente infiel é explicado por uma lógica racional que reforça o cacique, a versão local do partido. No segundo turno vários partidos liberaram as bases para apoiar quem quisessem ao declarar neutralidade. É reforço do localismo na arena política”, afirmou.

Polarização acirrada

Lúcio Flávio lembra que desde a redemocratização, ocorrida a partir de 1985, não se vê uma polarização política tão extremada, superando em muito a disputa entre Collor e Lula, na eleição presidencial de 1989. “Agora nós temos uma nítida polarização entre direita e esquerda, com muitos militantes de Bolsonaro clamando pelo retorno dos militares ao poder”, disse.

Na Paraíba, alguns políticos já discordaram dos seus partidos desde o primeiro turno, como é o caso do prefeito de Campina Grande, Romero Rodrigues. Mesmo sendo do PSDB, que teve como candidato a presidente o ex-governador Geraldo Alckmin, o prefeito anunciou voto no candidato do PSL, Jair Bolsonaro.

O senador José Maranhão (MDB), que era candidato ao Governo do Estado, também não se posicionou em defesa do candidato a presidente do seu partido, o ex-ministro Henrique Meireles. Maranhão preferiu se calar durante toda campanha e sequer recebeu o candidato emedebista na Paraíba.

Também não foi manifestado apoio ao candidato do Podemos a presidente, Álvaro Dias. O presidente da sigla na Paraíba, Genival Matias, não se posicionou durante o primeiro turno, mas agora anunciou apoio ao candidato do PT, Fernando Haddad. Outro que não teve apoio no Estado foi o candidato Cabo Daciolo, do Patriota. A legenda que tem como presidente o deputado estadual Janduhy Carneiro não apresentou defesa e nem pediu votos para o representante.

Realidade regional influencia

Para o professor Augusto Teixeira a neutralidade de candidatos ao governo de alguns Estados que estão disputando segundo turno em relação ao apoio a um dos dois candidatos a presidente da República não é causada apenas pela polarização do processo eleitoral, mas para poder acomodar melhor as distintas realidades regionais.

Ele explica que no caso da Paraíba, teve coligação que unia partidos cujas ideologias seriam diametralmente opostas, em outras, existiam coligações ideologicamente mais homogêneas. De acordo com ele, a queda da regra de verticalização das coligações pelo STF ainda na década passada contribuiu para esse desacerto no sistema partidário.

“Contudo, voltando ao ponto da polarização, é interessante notar a disputa pelo voto antipetista mesmo entre candidatos que nacionalmente apoiaram o PT como o PDT no Amazonas e o PSB em São Paulo. É um fenômeno interessante de como a polarização nacional ofuscou as disputas regionais, apesar de sua força”, disse Teixeira.

O professor Lúcio Flávio acredita que como a eleição presidencial está muitíssimo polarizada, alguns candidatos a governador que foram ao segundo estão evitando se posicionar, para não perderem votos. “Mas alguns candidatos como João Doria (PSDB) em São Paulo, Wilson Witzal no Rio de Janeiro e Romeu Zema em Minas Gerais (principais colégios eleitorais, anunciaram apoio a Bolsonaro. Isso é resultado de uma onda política conservadora e uma descrença nos políticos tradicionais)”, lembrou.

Composições

Outra questão já discutida por especialistas é, na vitória de um dos candidatos, a possibilidade da construção das alianças com a dificuldade para acomodar todos os aliados do mesmo lado do balcão. A estratégia para formar maioria na Câmara e no Senado passa pela distribuição de cargos, incluindo o controle de ministérios e estatais. Mas a diversidade de visões políticas aumenta a possibilidade de atritos que, se mal administrados, poderão implicar em paralisação do governo. Isso teria ocorrido no início do governo Lula, de acordo com as investigações da Lava-Jato. O motivo para trancamento da pauta do Congresso teria sido forma de pressão dos integrantes da base aliada até nomeação de Paulo Roberto Costa, indicado do PP, para uma diretoria da Petrobras. Anos mais tarde, por meio da força-tarefa do MPF, ele acabaria condenado por corrupção na estatal.

Enquanto os encontros entre partidos e candidatos para adequar propostas visando a eleição são amplamente divulgadas pela imprensa, nos bastidores, as negociações apontam para a barganha de espaços no novo governo a partir de 2019.

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