quinta, 24 de janeiro de 2019
Economia
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Vocações produtivas bem definidas moldam economia da Paraíba

Arthur Araújo / 29 de julho de 2018
Foto: Jô Santana
Basta falar em redes para um paraibano e a produção da cidade de São Bento é lembrada de imediato. Abacaxi é a cara do município de Sapé. Mamão, de Mamangupe. A cachaça, aquela branquinha, remete ao Brejo paraibano. E mesmo quando a origem não é conhecida, o produto é. Os laticínios de Sousa já ganharam o gosto dos consumidores. Em Patos se destaca a indústria de calçados e em Guarabira a avicultura. Aos poucos, cada região ou município da Paraíba desenvolveu sua própria vocação produtiva, o que molda o perfil econômico do Estado e direciona as políticas de qualificação profissional e a geração de emprego.

Ao todo, A Paraíba conta com 4.146 empresas, de acordo com dados da Federação da Indústria do Estado da Paraíba (Fiep-PB). Deste total, 90% corresponde às micro-empresas, restando apenas 10% para aquelas de pequeno, médio e grande porte. Em um levantamento realizado para a reportagem, a Fiep-PB considerou as cidades com maior apelo industrial, que juntas somam 2.453 indústrias.

No litoral, a construção civil lidera o mercado com 47,8% das empresas, ela é seguida pelo setor de confecção de artigos de vestuário e acessórios, com 11,8% e pela área de fabricação de produtos de metal (exceto máquinas e equipamentos), com 9,2%.

A Borborema vem logo em seguida, com 35,8% dos empreendimentos. A vocação regional de forma generalizada se assemelha à litorânea, sendo puxada pelo setor da construção (21,6%) e confecções (15,8%). O diferencial fica por conta do trabalho com o couro. Nesta região, a preparação de couros e fabricação de artefatos de couro, artigos para viagens e calçados ganha destaque, correspondendo a 13,7% do total de empresas.

Confecção de couro

O couro também movimenta a economia de algumas cidades sertanejas, como Patos, que tem muitas famílias envolvidas na confecção de artigos desse material, principalmente, sapatos, bolsas e cintos.

De acordo com o coordenador de couros e confecções da Prefeitura Municipal de Patos, Edvar Sátiro, o setor vem lutando para manter sua importância. “Hoje estamos atrás do comércio em importância econômica, mas é um setor que emprega muita gente, principalmente em pequenas empresas. Patos tem uma produção que vai ao Brasil inteiro”.

De acordo com ele, há planejamento atual para a criação de um Polo Coureiro Calçadista, que deve incrementar e revitalizar o mercado na região. Além disso, haverá uma feira permanente no Centro de Comércio da cidade, localizado às margens da BR-230, com grande fluxo de tráfego.

O Sertão, por sua vez, comporta 17,2% das empresas do Estado, totalizando 424 empreendimentos. Nessa região, o carro é puxado pelo setor têxtil, já que a fabricação de produtos nesse segmento corresponde a 18,6% dos negócios da região. A confecção de artigos em vestuário e assessórios vêm em seguida com 17% do mercado e a fabricação de produtos em metal aparece em terceiro, com 15%. Outro diferencial do Sertão é a agricultura, pecuária e serviços relacionados, que aparece com 12,5% dos empreendimentos.

A cidade de São Bento se destaca na produção têxtil, principalmente com o comércio de redes. De acordo com o prefeito Jarques Lúcio, a vocação para o setor diferencia o município.

O gestor destacou a queda na arrecadação do setor têxtil a partir da chegada dos tecidos chineses. “Sofremos muito porque não dá para competir com os preços deles. Houve uma grande recessão que se somou a crise do país”, explicou. Para tentar recuperar a pujança econômica, houve maior investimento na divulgação dos produtos, levando esses artesãos à feiras e promovendo os próprios eventos, como o São João e a Expotêxtil, que terá em setembro sua segunda edição.

Empresas em uma mesma região

A concentração de empresas de determinado setor em certas regiões ou cidades é vista como positiva por entidades do setor público e privado. Para a presidente da Companhia de Desenvolvimento da Paraíba (Cinep), Tatiana Domiciano, essa formação garante um maior know-how para cada setor. A possibilidade de formação de clusters industriais é outro benefício, apontado pela gerente executiva de Articulação Institucional da Fiepb, Denise Gadelha.

De acordo com Domiciano, a concentração econômica potencializa a cadeia produtiva. Segundo ela, o resultado disso pode ser sentido por toda a região, já que traz conseqüências como o aumento da renda média dos habitantes e movimenta a economia e a arrecadação do poder público, que pode reverter isso em investimentos para os cidadãos.

Para a gerente da Fiepb, a formação de clusters é o maior benefício dessa realidade. Um cluster industrial seria uma cooperação mútua e permanente entre empresas com características semelhantes, o que permite maior desenvolvimento e eficiência. “É um quadro que permite a especialização e favorece a inovação, pois a pesquisa acaba sendo aplicada para desenvolvimento da região e do mercado”, avaliou Gadelha. Ela aponta que é importante a realização de parcerias entre os poder público e a esfera privada para incentivar e viabilizar o investimento nessas especializações.

O Estado tem trabalhado, de acordo com a presidente da Cinep, Tatiana Domiciano, para identificar essas vocações e desenvolver políticas públicas que as favoreça. “Esses estímulos estão relacionados à melhoria da infraestrutura, da formação de mão de obra e à garantia de um bom ambiente de negócios”, explicou. Um exemplo seria a construção do Centro de Comercialização Calçadista de Patos, que teve ordem de serviço assinada ontem pelo governador do Estado, Ricardo Coutinho. “É uma ação que busca incentivar a formalização dos fabricantes e aumentar a visibilidade dos produtos no mercado. Patos possui vocação para o setor calçadista, mas a informalidade ainda é alta”, complementou.

No Sertão, para estímulo do setor de confecções, foi criado um regime especial de tributação, beneficiando 88 municípios que compõem o chamado Polo Sertanejo de Confecções. A alíquota de ICMS para as operações interestaduais, ou seja, comercialização para outros estados é de apenas 1%, enquanto a alíquota do ICMS para as vendas internas será de 2%. O investimento em escolas técnicas também busca atender à especialização produtiva, sendo que cada unidade oferece cursos de qualificação profissionais vinculados à demanda de cada setor de mercado.

Destaque para cana e abacaxi na agricultura

Não é apenas na indústria que as vocações econômicas se revelam. A agricultura também acaba tendo produção centralizada influenciada por uma diversidade de fatores, como o clima. Com dados da Pesquisa Agrícola Municipal (2016) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é possível verificar a produção de certas culturas por município, sendo a cana de açúcar e o abacaxi o destaque da produção paraibana.

Naquele ano, a Paraíba produziu 6,9 milhões de toneladas de cana de açúcar e o município de Pedras de Fogo é um dos principais produtores, com 1,3 milhão de toneladas. Santa Rita e Sapé também se destacam, garantindo uma produção de 990 mil e 935 mil toneladas respectivamente. No que se refere ao Abacaxi, a Paraíba produziu 283 mil toneladas em 2016. Itapororoca (75 mil), Santa Rita (54 mil) e Araçagi (52,2 mil) são os principais produtores, apesar da fama de Sapé. Este último aparece apenas na 10ª posição, com 4,5 toneladas.

A mandioca é o terceiro item em produção de acordo com a Pesquisa, somando pouco mais de 146 mil toneladas. Pedras de Fogo (15,5 mil) e Mari (15 mil) garantem a maior parte da produção. A banana vem em quarto na lista, com 133,5 mil toneladas produzidas. O maior destaque é Alagoa Nova, com 37,2 toneladas. Bananeiras faz jus ao nome, aparecendo logo em seguida com produção de 22,4 toneladas. Pitimbu, Santa Rita e Lucena lideram a produção de Coco-da-baía. Eles produzem 5,2, 4,8 e 4 mil toneladas respectivamente. No total, a Paraíba produziu 34,5 mil toneladas. A produção de mamão chegou a 32,6 toneladas. Aqui, o destaque é absoluto para Mamanguape, com quase 50% dos itens. O município produziu em 2016 15,2 mil toneladas.

Na produção agricultura, em 2016, Pedra de Fogo produzia 1,3 milhão de toneladas de cana de açúcar, já Itapororoca, 75 mil toneladas de abacaxi. E Alagoa Nova, 37,2 mil toneladas de banana.

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