terça, 26 de janeiro de 2021

Economia
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Trabalhador criativo tem mais chances de ganhar mais e salário pode chegar a R$ 6 mil

Celina Modesto / 16 de abril de 2017
Foto: Divulgação
O trabalho criativo no Brasil pode ainda ser considerado incipiente em termos de influência na economia nacional – o tamanho da economia criativa no Brasil varia entre 1,2% e 2% do PIB – mas o mesmo não se pode dizer acerca do salário pago ao profissional que se encaixa neste segmento. De acordo com o volume II da Coleção Atlas Econômico da Cultura, lançado no início deste mês pelo Ministério da Cultura (MinC), o salário médio mensal do profissional criativo brasileiro foi de R$ 6.270 em 2015, mais de duas vezes superior ao do empregado comum (R$ 2.451).

A informação consta no artigo “Mapeamento da Indústria Criativa no Brasil: os profissionais criativos no cenário de crise”, de autoria dos pesquisadores da Firjan Tatiana Sánchez, Joana Siqueira, Cesar Bedran e Gabriel Bichara Santini Pinto. Além disso, o texto apresenta um fluxograma da Cadeia de Indústria Criativa no Brasil e a análise da indústria criativa entre 2013 e 2015, período marcado por profunda crise econômica nacional.

De acordo com a pesquisa trazida pelo Atlas, mesmo com pequeno recuo em relação ao registrado em 2013, os trabalhadores criativos permaneceram recebendo vencimentos pouco mais de duas vezes e meia superiores aos empregados formais brasileiros. Além disso, o Atlas aponta que a publicidade foi o segmento que mais cresceu em número de empregados: foram 19 mil postos de trabalho criados, o que representa um incremento de quase 17% dessa mão de obra qualificada em relação a 2013.

Outro artigo que integra o segundo volume do Atlas, “Panorama da Economia Criativa no Brasil”, dos pesquisadores João Maria de Oliveira, Bruno César Pino Oliveira de Araújo e Leandro Valério Silva, que atuam nas universidades do Rio Grande do Norte, São Paulo e de Goiás, respectivamente, aborda o conceito de economia criativa. De acordo com os estudiosos, “trata-se do conjunto de atividades econômicas que dependem do conteúdo simbólico – nele incluído a criatividade como fator mais expressivo para a produção de bens e serviços”.

Ou seja, entende-se por trabalhador criativo o profissional que atua na chamada “indústria criativa”, aquela em que a cultura é utilizada como um insumo e que, embora possua a dimensão cultural, tem como propósito principal a fabricação de produtos funcionais. Dessa forma, as indústrias consideradas do tipo criativo podem integrar elementos criativos em processos mais amplos, como é o caso da arquitetura e do design.

Mais de 850 mil empregados

De acordo com o Atlas Econômico da Cultura, o Brasil registrou, em 2015, 851,2 mil profissionais criativos com carteira assinada, ou seja, formalmente empregados. O quantitativo supera o verificado dois anos antes, que foi de 850,4 mil registros. Para se chegar a esse número, os pesquisadores consideraram as quatro grandes áreas criativas segmentadas pela Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan): consumo, cultura, mídias e tecnologia.

Dentre essas quatro grandes áreas, somente consumo e tecnologia representam mais de 80% dos trabalhadores criativos da economia brasileira em 2015. Conforme aponta o estudo, ao restringir ainda mais se percebe que a área de consumo é a que possui mais empregados, respondendo por pouco menos da metade dos profissionais criativos brasileiros (44,2% do total).

Por sua vez, a tecnologia manteve a tendência de crescimento que mostrou nos últimos anos, de acordo com os pesquisadores. O Atlas apontou um aumento de 2,4% no número de profissionais criativos que atuaram na área tecnológica entre 2013 e 2015, embora tenha havido uma leve queda no segmento de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) no período avaliado.

Na contramão desse crescimento, as áreas de mídias e consumo apresentaram recuo na quantidade de trabalhadores com carteira assinada no mesmo período: -6,2% e -1,2% respectivamente. A pesquisa da Firjan propõe-se não apenas a atualizar as estatísticas sobre a classe criativa, mas também a responder aos seguintes questionamentos: Como se comportou a indústria criativa no Brasil durante o período de crise? Profissionais criativos seriam de fato estratégicos à atividade econômica em um momento de necessária diferenciação de produtos e serviços?

No estudo, os pesquisadores da Firjan afirmam que “será necessário fazer cada vez mais com cada vez menos, avançando nas agendas de eficiência e otimização de recursos, financeiros ou não. Este é o momento de renascimento e reorganização da economia, no qual a área criativa terá papel estratégico. Criativos buscam soluções para as questões que já existem e, mais importante, para aquelas que sequer estão totalmente formuladas”.

Profissionalização é maior entre criativos

Os pesquisadores da Firjan atribuem a remuneração mais elevada do setor criativo em relação aos demais setores da economia nacional ao nível de qualificação e a especificidade do trabalho criativo. “A indústria criativa demanda trabalhadores com grau de formação e especialização cada vez mais elevado. Criativos gostam de desafios e são remunerados por isso”, aponta a pesquisa.

De acordo com a pesquisa do Ministério da Cultura, a despeito da estabilidade dos empregos criativos frente a um mercado de trabalho em contração, foram observadas mudanças importantes no rol de profissionais que compõem os segmentos e áreas criativas, fenômeno identificado, em maior ou menor grau, em toda a economia criativa.

Além de apontarem para a maior exigência de qualificação profissional – principalmente por causa da ascensão de ocupações de maior complexidade técnica – os números observados evidenciam um claro movimento direcionado pela urgência em conhecer, ou melhor, reconhecer, o consumidor final e suas expectativas e comportamentos.

Um dos segmentos que registrou avanço, mas também importantes mudanças no perfil ocupacional, foi a publicidade. De acordo com o Atlas, houve o avanço de profissões voltadas tanto à compreensão e avaliação das necessidades do mercado consumidor quanto à obtenção de melhorias na experiência de consumo. Neste sentido, na área de consumo, os segmentos de design e moda registraram importante mudança no perfil dos empregos gerados, com aumento das contratações em profissões específicas que indicam a maior preocupação das empresas com a agregação de valor e a valorização da experiência de consumo, em contraposição ao resultado agregado negativo da área.

Indústria tradicional também tem criativos

Profissionais criativos estão presentes em quase todos os setores da economia e, inclusive, em sua maioria, estão fora dos setores considerados estritamente criativos, a exemplo de escritórios de arquitetura e agências de publicidade. Em 2015, de acordo com o Atlas, quatro em cada cinco profissionais criativos trabalhavam em outras empresas que não as usualmente associadas ao setor criativo, o que ratifica a importância e a geração de valor obtidas por meio de um diferencial criativo.

Tais profissionais têm posição estratégica, inclusive dentro da indústria clássica: em 2015, dos 851 mil trabalhadores criativos mapeados, 199 mil atuavam na indústria de transformação e, em que pese a crise econômica e o recuo de quadros no período analisado (-9,0%), a mão de obra criativa empregada no setor registrou queda menos abrupta (-6,3%). Dessa forma, ainda que tenha ocorrido uma contração em termos absolutos, a participação dos criativos na indústria de transformação avançou em termos relativos, saindo de 2,7% do total em 2013 para 2,8% do total em 2015.

Audiovisual e editorial reúnem mais dados entre setores

Os setores de Audiovisual e o de Editorial são os que mais reúnem dados sobre o impacto econômico que exercem sobre a Cultura, de acordo com o Atlas Econômico da Cultura. O mercado audiovisual brasileiro é responsável por 0,44% do valor agregado da economia brasileira, com receita operacional estimada das empresas que compõem o setor de R$ 42,7 bilhões em 2015.

É o que revela o artigo “Panorama Geral do Mercado Audiovisual Brasileiro”, de autoria de Odete Cruz, coordenadora geral do estudo “Mapeamento e Impacto Econômico do Setor Audiovisual no Brasil”, organizado pela Associação Brasileira da Produção de Obras Audiovisuais (Apro), Sebrae e Fundação Dom Cabral (FDC) em 2016. Um dos destaques, segundo o estudo, é o aumento significativo de estabelecimentos de produção e pós-produção, passando de 1.091, em 2007, para 2.495 em 2014.

Em relação ao video on demand (VOD), há estimativas importantes de crescimento. O VOD muda as formas de consumo para muitos indivíduos, mas até 2020 é possível prever que os modelos tradicionais de consumo de serviços audiovisuais ainda vão se manter como mais relevantes. Em relação ao segmento cinematográfico, o número de salas de exibição no país passou de 2.110, em 2009, para de 3.005, em 2015.

O percentual de salas de cinema digitais dobrou em dois anos, passando de 31,1% (equivalente a 784 salas), em 2012, para 95,6% (equivalente a 2.874 salas) em 2015. O público total também cresceu 53% de 2009 a 2015, passando a 172,9 milhões de espectadores nesse último ano. As mudanças regulatórias promovidas pela Agência Nacional do Cinema (Ancine) elevaram o desempenho do setor, que passou a produzir mais de 100 obras nos últimos anos, bem acima das 70 a 90 obras nacionais lançadas até 2012.

Mercado editorial brasileiro é pungente

Estimado em R$ 5,4 bilhões, o mercado editorial brasileiro está entre os dez maiores do mundo, de acordo com a mais recente pesquisa anual da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), publicada em 2014, segundo o artigo “Setor editorial: Tendências da era digital no mercado brasileiro”, trazido pelo Volume I da Coleção Atlas.

O texto é de autoria dos economistas do BNDES Gustavo A. T. de Mello, Diego Nyko, Fernanda M. J. N. Garavini e Patrícia Zendron.  Segundo os autores, o setor editorial atrai grandes players internacionais, que investem no mercado brasileiro por meio da aquisição de editoras nacionais. FTD, Saraiva e Abril Educação figuraram na lista das maiores editoras do mundo em 2014.

No meio digital, há um enorme potencial a ser explorado, diz o texto. A base de smartphones e tablets cresce em ritmo acelerado. A penetração do livro digital, por sua vez, ainda é tímida, analisam os economistas, apesar de apresentar crescimento significativo. Em 2012, a participação dos livros digitais no número de exemplares vendidos foi de 0,5%. Em 2014, essa participação chegou a 3,5%, segundo estimativas do Publish News.

Sobre o Atlas

Os dois primeiros volumes da Coleção Atlas Econômico da Cultura, lançados no início deste mês, configuram um documento inédito no Brasil, elaborado pelo MinC em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O Atlas terá seis edições e deverá ficar completo até abril do próximo ano.

Apesar de existirem diferentes fontes de bases de dados para mensuração econômica de atividades culturais, o Brasil ainda não dispõe da totalidade das informações requeridas para a elaboração da matriz de recursos e usos do setor cultural. Os dados de economia da cultura de cada setor (audiovisual, editorial etc.) são heterogêneos e cada fonte usa diferentes metodologias. Além disso, há lacunas de informações que as pesquisas oficiais dos órgãos estatísticos não cobrem.

O Atlas trará os dados necessários para dimensionar o impacto de cada segmento cultural na economia do País, em levantamento construído com uma metodologia padrão nas diferentes regiões do Brasil. Os dois primeiros volumes do Atlas consistem na apresentação do marco referencial teórico e metodológico e reúnem artigos de pesquisadores renomados no setor, que apresentam dados já existentes, e cases de outros países. A Coleção completa terá seis volumes e deve ser finalizada em abril de 2018.

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