quarta, 19 de dezembro de 2018
Tecnologia
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Tecnologia permite impacto social em grande escala

Márcia Dementshuk/ Especial para o CORREIO / 03 de setembro de 2018
A equipe de uma startup recebeu há poucos dias o depoimento de um menino do Amapá sobre o uso do aplicativo que auxilia a estudar. Ele saiu do Ensino Médio e não sabia a diferença entre a geometria analítica e a plana, não sabia resolver equações, não conhecia assuntos de biologia nem de química. Seria derrotado no Enem ou em vestibulares. Por conta própria, estudou através do aplicativo educacional, fez um cursinho complementar e passou em diversas universidades. “São histórias como essa que nos motivam a seguir com o trabalho”, declarou Leonardo Prates, um dos fundadores da Studos, startup de impacto social da área da educação.

Essa modalidade de empreendimento tecnológico vem crescendo. Hoje, na Fundação Parque Tecnológico da Paraíba (PaqTcPB/ITCG), das 21 empresas incubadas, 11 são negócios de impacto social. A maioria no setor de educação e saúde.

“As startups de impacto social são criadas com o intuito de desenvolver soluções para os problemas da população de baixa renda; para que pessoas negligenciadas pela economia tradicional tenham acesso à melhoria da qualidade de vida”, esclarece Mayara Costa, coordenadora e analista da Fundação PaqTcPB/ITCG.

Geralmente são projetos voltados para a área de habitação, saúde, educação, saneamento, entre outros. Têm que ser escaláveis, como uma startup tradicional, porque os problemas sociais atingem um grande número da população. Consequentemente, a solução gera lucro porque não deixa de ser um negócio, como uma empresa tradicional. No entanto, encara o lucro de forma consciente; a atividade principal da empresa é gerar impacto social gerando melhorias para todos.



“O objetivo do nosso negócio é que as pessoas tenham acesso à educação. Nesse ano, mais de 700 mil alunos estão usando a plataforma da Studos no Brasil. Na Paraíba, estudantes da rede pública do Ensino Médio têm acesso gratuito em função de um acordo de cooperação que fizemos com o Governo do Estado”, revela Leonardo, que fundou a empresa com o sócio Wilson Fernandes, ambos de Florianópolis. Na fase de incubação, a Studos recebeu o apoio da Fundação PaqTcPB/ITCG, por cerca de um ano e meio. A monetização é obtida pela venda do sistema para escolas privadas ou por parcerias público/privadas.

Carlos Eduardo Silva Moraes, conhecido como Novinho, da aceleradora paraibana Avati, afirma que “no instante em que a startup de impacto social chega à encruzilhada na qual precisa optar por ampliar os lucros ou manter o impacto social, ela vai preferir continuar prestando serviço que traga melhorias na qualidade de vida e desenvolvimento social.” Esse é o tema principal da trilha de Startup que vai ser abordado na Expotec 2018, Feira e Congresso de tecnologia e inovação, que será realizada em novembro. “Será o momento para fomentarmos essa atividade demonstrando as vantagens em iniciar um negócio nesse nível”, avalia Novinho, que também é coordenador da trilha.



Escalabilidade social gera melhorias para todos

O conceito de startup de impacto social partiu de Muhammad Yunus, um professor de Bangladesh, da área de economia, que conquistou o Prêmio Nobel da Paz em 2006, por criar crédito para pessoas pobres. Os personagens de seu discurso eram pessoas atingidas por fatores que levam à pobreza, mas com clara habilidade para trabalhar e superar essa condição. Yunus viu na tecnologia a possibilidade de beneficiar maior número de pessoas usando a tecnologia e começou a fomentar globalmente o modelo da startup de impacto social.

No Brasil, a aceleradora pioneira foi a Artemísia, uma ONG, com sede em São Paulo e um dos maiores exemplos nacionais é a Vivenda, que trabalha com pequenas reformas em favelas do Rio de Janeiro. “O apelo inicial era melhorar a saúde das pessoas combatendo a raiz do problema: as infiltrações nas casas. Quando a empresa oferecia o serviço por esse viés, recebia um “não”. Mas no momento em que passaram a anunciar “reforma, embelezamento e conforto”, eram contratados. O importante, contudo estava no monitoramento da saúde dos moradores e a redução de casos comuns como alergias, intoxicações, problemas de pele, entre outros”, conta Novinho.

Na Paraíba, a Sinapse Virtual é um case de sucesso. Criada para incluir crianças com qualquer deficit de atenção, através de jogos a partir dos quais é possível acompanhar, desenvolver e diagnosticar essas crianças. Os professores dessa crianças ou profissionais de saúde tradicionais recebem auxílio dessa plataforma. Há jogos gratuitos e os pais conseguem acompanhar o desenvolvimento das crianças. Esse jogo foi acelerado pela Samsumg junto com a Fundação PaqTcPB/ITCG em 2016 e hoje tem mais downloads na Índia do que no Brasil. O impacto é global.

Incubação no Brejo Paraibano



A 70 Km de Campina Grande, as empresas de base tecnológica encontram apoio na Brejo Criativo, sediada em Solânea, uma associação montada por Pablo Ramon com o objetivo de criar o parque tecnológico na região. Ramon passou por uma experiência de incubação no Parque Tecnológico, mas não conseguiu entrar no mercado. “Para um projeto dar certo, além do esforço e planejamento, há uma questão de momento, de oportunidades”, justifica Ramon.

“Temos 52 municípios em um raio de 70 Km para trabalhar o desenvolvimento da economia criativa, do empreendedorismo e da tecnologia. Temos apoio do município. Hoje, depois de quase dois anos de trabalho, quatro empresas da região estão incubadas na Brejo Criativo: duas estão aqui, uma está em Brasília e outra em Campina, abrindo mercado. Nós promovemos eventos, fazemos mentoria e conexões com redes nacionais  das startups que nascem lá. O que vem de fora a gente traz pra Paraíba e o que surge na Paraíba, levamos para fora”, afirma Ramon que tem contatos com a InovAtiva Brasil e a Mentores do Brasil, programas de aceleramento.

De impacto social ou não, é um negócio de alto risco

A rapidez é uma característica fundamental da startup, tanto a tradicional quanto a de impacto social. Novinho, da aceleradora Avati, alerta que “tem que ser um modelo negócio que seja escalável, ou seja, que possa crescer rápido, sem muitos entraves. Pode inovar na tecnologia, trazendo um recurso tecnológico diferenciado; no mercado, ao encontrar um nicho não explorado; e a inovação do benefício, ou seja, a facilidade para se obter a solução para o problema em questão. Encontra-se em um contexto de extrema incerteza. É de alto risco, portanto.”

O retorno do investimento geralmente é rápido, em função do modelo de negócio. Mas a visão de lucro é diferente, pois prioriza a efetivação de mais investimento para aperfeiçoamento do negócio. Em alguns casos, de acordo com Novinho, o retorno se dá através de rodadas de investimento. É quando investidores apostam em startups iniciantes e que, em dois ou, no máximo, cinco anos, tenham obtido um valor de mercado, ou atraído um grande fundo de investimento, ao ponto de, na saída o investidor tenha seu lucro multiplicado. Contudo, o risco é grande; o investidor sabe disso.

Os criadores de startups procuram pessoas que entendem melhor o ecossistema, já têm alguma experiência e, principalmente, network. É nesse foco que as aceleradoras trabalham; no amadurecimento do negócio. A startup que passou por um programa de aceleração e mostrou resultados tem mais chance de sucesso nas rodadas de investimentos. As incubadoras oferecem uma infraestrutura para a startup nascente e auxiliam através dos mentores mais experientes.

Na Paraíba:



  • Operam três aceleradoras, mais a Fundação PaqTcPB/ITCG.


  • 21 espaços coworking em João Pessoa; 3 em Campina Grande.


  • Cerca de 250 starups já rodaram no estado da Paraíba, de 2 anos pra cá.




(Fonte: Avati)



 

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