terça, 11 de dezembro de 2018
Tecnologia
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Mulheres tentam fortalecer mercado da computação

Márcia Dementshuk, especial para o CORREIO / 15 de outubro de 2018
“Bom dia, cavalheiros e quatro senhoras”, saudou o palestrante na abertura de um evento internacional de infraestrutura da Internet, na África, para um auditório lotado de homens e apenas quatro mulheres. Era por volta do ano 2000 e uma delas era a professora gaúcha Liane Tarouco, uma pioneira da Internet no Brasil.

“Eu entrei para a computação no início da década de 1970, numa época quando ainda não existiam redes de computadores por aqui. Eu conheço muito bem o esforço que exige o trabalho em redes. Não pode desconectar, ‘cair’, sob pena de serviços dependentes dela pararem, mas, não se pode afirmar que homens são mais capacitados para cumpri-lo. Na década de 1990, quando implementamos a rede acadêmica no Rio Grande do Sul, eu dormia com a caixa de ferramentas ao lado; ao primeiro toque do telefone, saía correndo, fazer a manutenção, a qualquer hora da noite ou do dia”, conta Liane Tarouco, sumidade na área de redes.

Antigamente, as mulheres chegaram a ser maioria nos cursos de computação em universidades brasileiras, segundo Andreia Malucelli, professora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). A presença feminina no mercado de trabalho também aumentava até a metade da década de 1980, chegando a 36% entre os profissionais de computação. Para Malucelli, isso acontecia porque a computação estava mais próxima aos departamentos de Matemática das universidades, curso basicamente frequentado por mulheres, então.

Contudo, o quadro mudou gradativamente e, após a virada do milênio, a imagem masculina passa a predominar na tecnologia. Tanara Lauschner, professora da Universidade Federal do Amazonas e membro da diretoria do programa Meninas Digitais, da Sociedade Brasileira de Computação (SBC), fala em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD): “O percentual de mulheres ingressantes em tais cursos, em 2016, foi em torno de 10 a 12% e a maior parte delas abandonam o curso no meio”.

Meninas se reúnem em grupos para se fortalecerem

No primeiro dia de aula, depois de comemorar por ter passado no Enem para Ciência da Computação na Universidade Federal da Paraíba, Luyza Domingos entrou na sala, escolheu um lugar, sentou-se na cadeira e aguardava a chegada do professor. Ela observava os colegas entrando: um menino, outro e outro… “Quando a aula começou e constatei que só eu era menina, fiquei tão constrangida… Queria sair dali, não voltar mais; mas não tinha coragem nem de me levantar”, confessou Luyza.

Presa à timidez, Luyza enfrentou a aula até o final sem deixar-se vencer. Pouco tempo depois, conheceu um grupo de meninas na universidade que passava pelos mesmos problemas, o “Meninas da Ciência da Computação”. Os dias tornaram-se mais agradáveis e as dificuldades, comuns à todas, eram superadas pela união.

“Na aula prática, os meninos ‘avançam’ para cima do ‘protoboard’ (uma ferramenta para montar circuitos eletrônicos), se apossam, tomam à frente e assumem o controle. Não temos nem chance. O pior é na hora de fazer um trabalho em grupo, os meninos se dividem nas tarefas práticas e me falam: ‘você escreve o relatório, porque sua letra é bonita’. Ah, é? Então não tenho capacidade para executar o trabalho? E aprendi a não aceitar mais essa condição”, contou, com uma ponta de indignação, Ana Flávia Silva Aragão, colega de Luyza no grupo.

As professoras que lecionam no Centro de Informática da UFPB, Giorgia de Oliveira Mattos e Josilene Aires conhecem o problema. Um levantamento local feito em 2017 nos três cursos de graduação do Centro de Informática da Universidade Federal da Paraíba (UFPB/CI) constatou que 13% dos estudantes eram mulheres. E nos anos anteriores a situação era a mesma, de minoria feminina e desistência. (Não muito diferente da Ciências da Computação da USP, em São Paulo: em 2016, dos 41 alunos formandos, apenas seis eram mulheres, 15%.)

“Tivemos uma oportunidade para começar a reverter isso quando o CNPq, com outras instituições, lançou um edital em 2013 incentivando projetos na área de Exatas que estimulasse a participação feminina. Assim, foi possível a nossa junção como ‘Meninas da Ciência da Computação’, em 2014”, contou Giorgia Mattos.

As “Meninas da Ciência da Computação” adquiriram força. Em uma salinha própria, aprimoram as capacidades e transmitem o aprendizado para outras meninas. Atualmente, elas aplicam dois projetos para estudantes da Escola da Polícia Militar da Paraíba. Um deles ensina conceitos iniciais de programação para alunas do 1º ano do Ensino Médio. A intenção é aproximar as meninas da tecnologia, desmistificar o estereótipo de que é “coisa de menino” e transformar para melhor, através da educação, as condições de vida das pessoas.

O outro é uma ferramenta – um aplicativo – para monitorar a violência cotidiana. Um sistema onde são registradas as ocorrências e pode ser feita a coleta de dados. O projeto está servindo de temapara trabalho de conclusão das alunas de lá.

“Através desses projetos conseguimos pleitear bolsas que auxiliam as meninas, ir nas escolas e mostrar que a tecnologia está ao alcance. Aqui, elas se ajudam. Umas se apoiam nas outras. Aqui nós podemos falar sobre o tema, relembrando nossos objetivos”, complementa Giorgia Mattos.

Ícones mais populares da tecnologia são masculinos



Pense rápido: quando falamos em tecnologia, quais os ícones vêm à mente? Steve Jobs, Bill Gates, Mark Zuckerberg, Elon Musk, homens, homens e homens. Onde estão as mulheres?

Giorgia Mattos salienta que a ausência de referências femininas influencia na segurança das meninas com relação às suas capacidades. Mulheres inventoras, tecnólogas e cientistas existem hoje e no passado. À Ada Lovelace, filha do depravado poeta Lord Byron, atribui-se a formulação lógica do primeiro algoritmo possível de ser usado para programar uma máquina de computar, por volta de 1843, quando os computadores eram seres humanos a calcularem tábuas numéricas à mão. Grace Hopper trabalhou em uma das primeiras máquinas de calcular digital considerada eletrônica, concluída em 1944, o Mark I. Hopper desenvolveu uma linguagem de programação referencial para a criação do Cobol, usado até hoje. E Sheryl Sandberg, você conhece? Atualmente, chefe operacional do Facebook, é considerada a quarta mulher mais poderosa do mundo em 2017 pela revista Forbes. E quantos ouviram falar dela?

“Um fator simples, como ter um ícone feminino na profissão, em quem se espelhar, é difícil para as meninas. O assunto não é pautado pela mídia. Mais e mais, as meninas não se sentem à vontade com a tecnologia. Se confrontarmos um menino e uma menina frente à máquinas, as mulheres são, espontaneamente, mais retraídas”, avalia Giorgia Mattos.

“Depois que eu me formei, senti mais o peso por ser mulher trabalhando nessa área. O mais grave era a desconfiança que as pessoas transpareciam quando eu me apresentava como candidata a um emprego ou a uma tarefa. Eu sentia que tinha que trabalhar dobrado para mostrar minha capacidade”, lembra.

Era só o que faltava!

Assim como o “Meninas da Ciência da Computação”, vários grupos surgiram em universidades do Brasil inteiro desde o início dessa década, não só apoiando as mulheres na caminhada universitária como também no alvorecer da escolha por uma carreira profissional.

Em 2011, a Sociedade Brasileira de Computação apoiou a criação do Programa “Meninas Digitais”, sob a coordenação da Secretaria Regional da SBC em Mato Grosso. Em 2013 o CNPq abriu editais incentivando projetos relacionados e, em 2015, o programa “Meninas Digitais” “foi institucionalizado pela SBC, recebendo sua chancela, como programa de interesse nacional da comunidade de Computação”, conforme publicado no site meninas.sbc.org.br.

“Nós percebemos que nas universidades onde existe esse tipo de projeto um número menor de meninas desistem do curso. Aqui na Universidade Federal do Amazonas (UFAM),onde trabalhamos com o projeto Cunhatã Digital, constatamos isso”, afirma Tanara Lauschner.

O Meninas Digitais é um projeto no qual estão ligados vários projetos: São 52 ativos, espalhados pelo Brasil, inclusive em universidades do interior, e três regionais.

“Nós constatamos que existia uma demanda reprimida nas universidades por esse tipo de ação que discutisse questões sobre o que as mulheres enfrentam nas universidades. Quando você divulga, não só o interesse é grande, mas desperta também o da imprensa e das mulheres, que já estão no mercado de trabalho”, explica Tanara.

O Meninas digitais se volta para as escolas, para incentivar as meninas a escolherem cursos de TI, mostrando que elas têm capacidade; para as universidades, como um apoio e empoderamento para que as meninas não desistam do curso e superem mais facilmente as dificuldades; e atua no mercado de trabalho, onde, muitas vezes, se enfrenta o machismo, a misoginia, os salários menores. “Nós incluímos os homens nas atividades, pois, a maioria das vezes eles causam o problema inconscientemente, sem perceberem o mal que estão fazendo. Eles precisam perceber que determinadas brincadeiras e comentários prejudicam. Temos que insistir muito nessa política para vermos mudanças”, argumenta Tanara Lauschner.

Na Paraíba, além do projeto “Meninas da Ciência da Computação”, conversamos com coordenadoras e participantes de grupos do mesmo caráter: o “IT Girls”, da UFPB/Campus IV (Rio Tinto); e o “Women in Engineering” (WIE), um projeto internacional aplicado pelos ramos estudantis de João Pessoa e de Campina Grande do IEEE (Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos).

Cecília Flávia, presidente do WIE – Ramo estudantil IEEE João Pessoa:

“Desde criança, tive afinidade e curiosidade em tecnologia. No 9º ano, conheci uma menina que fazia Engenharia da Computação – o curso que eu fiz e agora faço o mestrado – e  acompanhava um blog onde ela publicava artigos sobre área.

No ano que eu prestei vestibular, em 2011, abriu esse curso, na UFPB. Na minha turma foi a que mais teve meninas: entre seis e oito! E uma menina da minha aula foi o primeiro lugar do curso no Enem.

Num determinado momento, entendi que estava na hora de compartilhar o que havia aprendido. Conheci o pessoal do ramo estudantil de João Pessoa, do IEEE e começamos a organizar atividades até que chegamos ao WIE; conhecemos um projeto de recepção às alunas novatas. Nós dávamos um suporte para as meninas que entravam. Fizemos o primeiro WIE Day em 2017 e começamos a fazer nossos eventos.

Em uma mesa redonda, no WIE Day, três professoras que trabalham na área tinham em comum o fato de não terem tido distinção de gênero na infância. Elas brincavam com os irmãos, com as brincadeiras “de menino”; os meninos brincavam de boneca com as bonecas delas, e os pais não interferiam. Então, vimos que temos que começar a trabalhar na base onde a influência cultural ocorre. E percebemos que nossos eventos eram voltados só para universitários e que para termos meninas na Engenharia precisávamos falar com estudantes das escolas. Nossa equipe, hoje, tem 48 participantes: 25 são meninas e três professoras.

Assim, montamos os três cases: o Junior, o Juvenil e o universitário, que é o que já fazíamos.

No dia 7 de setembro, fomos ao Parque Solon de Lucena e fizemos um joguinho de energias renováveis com doze crianças, meninas e meninos. Explicamos primeiro o conceito e depois jogamos “Caça ao Tesouro”: eles tinham que relacionar a energia renovável com a fonte: Vento = Energia Eólica. Mostramos circuitos elétricos simples para elas montarem e elas adoraram. Essa foi a experiência como “Junior”.

No “Juvenil”: Sabemos que a ideia de engenharia e ciência para os adolescentes é muita matemática; difícil, chato. Então, damos algumas aulas teóricas que complementam as aulas que eles têm e depois damos aulas práticas, para que eles vejam uma aplicação. Por exemplo, em eletricidade, levamos um circuito elétrico para eles montarem e verem funcionando. E entramos com alguns conceitos de programação. Aplicamos na E.E.E.F. Pedro Lins Vieira de Melo; eles fizeram uma horta inteligente. E nós tivemos um artigo aceito num congresso com esse projeto.”

Renata Viegas, do “IT Girls”:

“A mulher sofre por escolher a área de TI porque somos minoria e ser minoria acarreta um pouco de preconceito. Em uma sala com 52 meninos e oito meninas, ocorre, naturalmente, uma disparidade de forças. Nossas alunas ouvem dos meninos que programação não é para elas, que matemática não é para elas, e escanteiam as meninas.

No mercado de trabalho a situação é igual. As atividades em computação são consideradas masculinas. Mulher não é para ser programadora, é para ir para banco de dados ou engenharia de software. Na área de redes, o menino fala: “Já que você está aqui, faça um cafezinho!”

O IT Girls surgiu da mobilização de duas alunas da Ciência da Computação e Bacharelado da Computação no campus IV da UFPB. As alunas organizaram um evento, no final de 2015, uma tarde de encontro das meninas, porque elas se viram em pouco número e dispersas no curso. Chamaram as professoras; eu e a professora Vanessa Dantas participamos. Ficamos encantadas e resolvemos montar um projeto, o qual começou, oficialmente, em 2016.

Já percebemos várias mudanças, desde quando iniciamos. O nosso curso é em uma cidade no interior paraibano. As meninas sofrem preconceito simplesmente por estarem lá, morando sozinhas. Tinham receio até de marcar um dia de estudo em casa, com algum menino, e ficarem mal faladas na região.

Detectamos vários casos de misoginia e de assédio sexual dentro da universidade e nosso grupo foi como uma ponte de confiança, pois nunca havia se falado desses problemas. Recebemos muitas denúncias, no inicio.

Também fizemos conscientização junto aos meninos, afirmando que as meninas são capazes, estão ali para serem capacitadas, assim como eles. Eu noto que agora os meninos estão aceitando melhor; as meninas estão mais unidas e se posicionando com mais firmeza diante dos meninos.

No Ensino Médio as meninas têm essa característica de não gostarem de matemática, de raciocínio lógico. Historicamente, a menina é criada para assumir as atividades do lar: ela ganha bonecas, panelinhas… Ao passo que o menino ganha joguinhos de montar, carrinho de controle remoto, coisas que realmente desenvolvem mais o raciocínio lógico. Isso influencia na escolha da menina pela computação. Chega um ponto em que o menino está, realmente, à frente dela em raciocínio lógico. Vendo esse menino à frente, a mulher tende a recuar,

E no interior, o pai acha muito esquisito que a menina faça computação. Ele quer que ela faça letras ou pedagogia!

Às vezes nós aplicamos jogos em competições em salas mistas, em escolas em Rio Tinto. O menino começa a ganhar, a caçoar da menina, e ela recua, se intimida. Nesse ponto, entramos com a conscientização.”

Poucas mulheres nos cursos

O relato de Marianna Barros, – Presidente do WIE – Ramo Estudantil IEEE – IFPB – João Pessoa, mostra também a ausência de mulheres nos cursos. Nos cursos do IFPB, em João Pessoa, onde tem disciplinas de programação, engenharia e cálculo, geralmente tem poucas mulheres nas turmas. "Olha o meu caso: estou na metade do curso de Engenharia Elétrica e tenho quatro colegas em uma turma de 30 alunos. Só o fato de estarmos em minoria, nos sentimos intimidadas. Os meninos acham que não podemos fazer algumas coisas porque somos mulheres e isso ‘não é serviço de mulher’. É o que estamos querendo mudar.  Foi a primeira situação que observamos; e identificar o problema é o primeiro passo para combatê-lo".

E ela complementa. "Temos 20 voluntários trabalhando conosco! Nós fazemos mini-cursos ministrados por mulheres e damos preferência para elas nas inscrições; nesse ano fizemos Robótica Educacional; Programação HTML; e Montagem de Braços Hidráulicos. Também nos engajamos em atividades em benefício às pessoas em geral, como o Setembro Amarelo, o Outubro Rosa; promovemos sessões de cinema com debates depois do filme; sessões de relaxamento; e a Speak up: atividades para treinar o inglês. Todas são abertas ao público. Tenho certeza de que estamos fazendo a diferença e vamos ver em números, nos próximos anos!", falou.

 Seminário MulheresTec

A fim de reunir pessoas atentas à essa evasão feminina nos cursos de tecnologia para debater meios de contornar essa situação, será realizado o “Seminário MulheresTec”, dia 9 de novembro, juntamente com as atividades da Expotec 2018. A participação é gratuita e as pessoas que nos deram depoimentos nessa matéria estarão lá!

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