sábado, 16 de fevereiro de 2019
Tecnologia
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A perigosa hora de carregar o celular

Luís Eduardo Andrade / 29 de julho de 2018
Foto: Luís Eduardo Andrade
Que atire a primeira pedra quem nunca trocou mensagens enquanto o celular estava conectado ao carregador. Que denuncie-se quem nunca falou ao telefone enquanto o mesmo estava plugado à tomada. Muito provavelmente você já deitou na cama e usou seu aparelho enquanto ele carregava. O que talvez você não saiba, é que oito pessoas já morreram apenas este ano em decorrência deste hábito tão comum entre os brasileiros.

Para entender melhor como funciona um carregador de celular e porque tantas pessoas estão morrendo em decorrência deste hábito, a reportagem procurou o professor de eletrônica da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Euler Chaves, que mostrou, de maneira prática, como funciona o carregador de celular. “O carregador do celular é um conversor de energia. Ele converte os 220 volts que vem da tomada para o celular, que utiliza uma baixa tensão, de 5 volts, por exemplo. Dentre dele tem um circuito eletrônico que realiza esse processo. Porém, quando acontece algum problema nesse circuito, os 220 volts são transferidos diretamente para o celular e consequentemente para o usuário”.

Mas o que pode causar uma falha no circuito eletrônico do celular? Soa óbvio dizer que produtos falsificados podem não funcionar adequadamente depois de algum tempo, contudo, quando se trata de um carregador de celular, a atenção precisa ser redobrada. Isso porque, na maioria dos casos de acidentes com fontes de celular, os produtos não eram originais.

“Para baratear custos, as pessoas acabam utilizando equipamentos de qualidade secundária, que funcionam só por determinado tempo e depois causam falhas. Então se o circuito parar de funcionar, o acidente acontece”, disse o professor Euler.

Precariedade das instalações

O Brasil é conhecido como o país das desigualdades, e quando se trata de eletricidade, isso não é diferente. Enquanto as modernas usinas hidrelétricas de Itaipu e Belo Monte estão entre as maiores do mundo e chegam a produzir até 25.223 MegaWalts de potência, muitas casas pelo Brasil não têm acesso à energia elétrica ou dispõe de instalações elétricas precárias e irregulares.

Contudo, a desigualdade não é o único agravante para a situação das instalações nas casas tupiniquins, o perfil do brasileiro contribui para que acidentes aconteçam, como explica o professor. “O brasileiro tem perfil de ser construtor, arquiteto e engenheiro, achando que é simples. A eletricidade não tem cor, cheiro ou forma, e isso passa uma sensação de segurança”, atesta o especialista da UFPB.

O perito do Núcleo de Engenharia Forense do Instituto de Polícia Científica da Paraíba (IPC-PB), Sérgio Maia, confirma a teoria do professor afirmando que muitas vezes o que causa a morte nos acidentes com celulares, é justamente a instalação elétrica das residências.

“Quando um especialista avalia um acidente de eletroplessão com suspeita de ter sido motivada pelo celular, antes de mais nada, ele analisa a instalação elétrica residencial, que quase sempre figura como protagonista dos acidentes. Instalações mal feitas ou com ausência de manutenção podem provocar fugas de corrente para os equipamentos ou para suportes que conduzam a corrente, a exemplo de mesas e estruturas metálicas”, explica o perito.



Água potencializa riscos de choques

E como já sabe a água e a eletricidade causam uma mistura ‘de arrepiar os cabelos’. Dos oito casos no país de morte no ano de 2018, chovia em metade dos ocorridos. O professor Euler explica que em casas mais simples e construídas de maneira precária, as infiltrações podem fazer com que a água da chuva chegue até as instalações elétricas e provoque os acidentes.

Em um dos casos de morte que envolveu o adolescente Douglas Raphael, de 14 anos, na cidade de Garanhuns, em Pernambuco, a vítima havia acabado de sair do banho e entrou em contato com o celular que carregava.

Segundo o engenheiro Sérgio Maia, as chances de sofrer um choque quando se está molhado aumenta até 100 vezes.

“A resistência elétrica do corpo humano é de, aproximadamente, 100 mil Ohms. Se o corpo humano estiver úmido, essa resistência pode ser reduzida 10 vezes, caindo para 10 mil Ohms. Se estiver molhado, reduz em 100 vezes, caindo para 1 mil Ohms. O que isso significa? De modo objetivo, se o corpo humano estiver úmido, ele fica 10 vezes mais suscetível a um choque elétrico. Se estiver molhado, as chances aumentam 100 vezes”, explica.

Explosão do aparelho

A estudante Larissa Lira, de 26 anos, poderia ter entrado no infográfico abaixo como mais uma vítima dos acidentes com celular, contudo, ela teve ferimentos leves após seu celular explodir. “O celular estava carregando e eu estava mexendo nele, em cima da cama. Quando parei, ouvi um barulho de faísca. Ele estava tão quente que eu só toquei e ele explodiu. A bateria do celular entrou no meu colchão e queimou uma parte do travesseiro e minha mão”, relata Larissa.

A estudante hoje prefere não mexer no celular enquanto ele está plugado à tomada. “Se ele tivesse explodido minutos antes poderia ter sido no meu rosto ou nas minhas mãos”, conclui.

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