quarta, 26 de junho de 2019
Economia
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Taxistas afirmam que não têm mais como trabalhar

Ellyka Gomes / 19 de maio de 2019
Foto: Nalva Figueiredo
Flaviano Oliveira, de 43 anos, trabalha há 23 como taxista. Nos tempos áureos, quando o táxi era o único meio de transporte privado de passageiro, ele fazia, em média, 14 corridas por dia e tinha uma renda mensal de R$ 3 mil. Hoje, a situação é bem diferente. São menos de seis chamadas diárias, pouco mais de R$ 1.200 por mês e uma incerteza em relação à profissão que ajudou a criar os cinco filhos.

Flaviano é um dos 1.386 taxistas que atuam em João Pessoa. São pais de família que exercem o ofício há décadas e não se enxergam em outra atividade. E ainda que quisessem, dificilmente conseguiriam inserção no mercado de trabalho devido à falta de qualificação profissional. São homens de meia idade que viram o avanço tecnológico trazer o maior de todos os concorrentes: o aplicativo de transporte de passageiros. A novidade, que agradou consumidores, provocou uma crise e colocou em xeque a profissão.

De acordo com dados da Superintendência Executiva de Mobilidade Urbana (Semob), são 1.440 concessões de táxis na Capital paraibana. Dessas, 54 estão inativas. “Há pelo menos 44 processos abertos relacionados à baixa de veículo, quando o taxista desiste da atividade e solicita aos órgãos públicos a descaracterização de seu veículo como táxi”, explicou o chefe da Divisão de Transportes da Semob-JP, Leonardo Campos. Há ainda casos de taxistas que morreram, e a família tenta na Justiça a transferência da concessão para algum parente.

Flaviano, que é o presidente da Associação dos Taxistas da Paraíba, afirmou que as corridas de táxis caíram, em média, 65% com a chegada dos aplicativos de transporte de passageiros. “Estamos resistindo do jeito que dá”, desabafou. A categoria já não trabalha com a Bandeira Dois e criou um aplicativo para que o passageiro chame o táxi mais próximo, inclusive, oferecendo 30% de desconto. No entanto, as medidas não surtiram tanto efeito, pois a popularidade dos concorrentes é bem maior.

Segundo a reportagem do CORREIO apurou com algumas fontes, há um ano, a concessão para a exploração do serviço de táxi era vendida, em média, por R$ 70 mil. Embora a prática seja ilegal, ela é bastante recorrente em todo Brasil. Por lei, os órgãos de trânsito que devem realizar essa transferência. Hoje “a praça”, como o ponto de táxi é popularmente chamada pela categoria, não chega a R$ 5 mil.

A crise que a categoria enfrenta causou depressão em muitos taxistas. Segundo Flaviano, desde 2016, pelo menos dez taxistas paraibanos morreram vítimas de infarto, três somente este ano.

"Teve colega que perdeu o apartamento financiado. Teve um amigo que vendeu a casa para pagar as dívidas e hoje tá morando de aluguel. Tem taxista que começa a trabalha por volta das 5h e só vem receber a primeira chamada às 10h." - Flaviano Oliveira, presidente da Associação dos Taxistas da Paraíba

Faltou visão de mercado



O máster coach trainer Wilton Neto, que é palestrante e mentor da área de desenvolvimento humano, comentou que faltou visão de mercado por parte das lideranças de cooperativas de táxis na disputa com os novos concorrentes. “Eles não pensaram em como a atividade poderia ter melhorado a vida do consumidor, ou seja, não olharam para as necessidades das pessoas. Imaginavam que a profissão de taxista iria durar para o resto da vida, mas não durou, assim como os motoristas que dirigem aplicativos de transporte de passageiros também não vão durar”, destacou.

Neto ressaltou que o mundo está mudando numa velocidade muito rápida e a tecnologia está substituindo muitas atividades. “Vai chegar um momento que os motoristas de aplicativos serão substituídos por carros autônomos. O passageiro vai pedir um carro, e o veículo vai ser dirigido por uma máquina”, comentou.

“Muita gente duvida que isso um dia vai acontecer, da mesma forma que anos atrás muitos duvidaram que os aplicativos transformariam as vidas das pessoas”, declarou, acrescentando que “o profissional que vai perdurar no mercado não é o mais criativo e nem o inteligente, mas aquele que se adapta mais rápido às mudanças”.

O autônomo Edvan Anacleto de Arruda, de 54 anos, soube passar por essa adaptação. Foram 21 anos atuando como taxista, mas hoje ele trabalha com frete de mercadorias. As corridas caíram 62% desde que os aplicativos de transporte de passageiros começaram a operar em João Pessoa. Um assalto, ocorrido em maio do ano passado, foi a gota d’água para que ele decidisse vender o táxi.

“Eu trabalhava de segunda a sexta, das 7h às 18h, na área do Busto de Tamandaré. Fazia entre 15 e 17 corridas diárias... Cheguei a fazer 21 corridas em um só dia. De repente, comecei a receber apenas seis chamadas por dia”, contou. “Quando eu fui assaltado, o primeiro em 21 anos, eu percebi que era hora de parar”, acrescentou. Com o dinheiro da venda do táxi, Edvan comprou uma van e passou a trabalhar com entrega de mercadorias.

Casado e pai de dois filhos, Edvan também fala com orgulho da profissão que sustentou a família por tantos anos.

"Eu gostava do que eu fazia. Todos os dias eu conhecia pessoas novas. Uma hora tava num bairro, depois tava em outro. Então eu vivia a cidade. Era feliz como taxista." - Edvan Anacleto, autônomo

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