quinta, 24 de janeiro de 2019
Economia
Compartilhar:

Produção de ostras: faltam investimentos na Paraíba

Bárbara Wanderley / 05 de agosto de 2018
Foto: Nalva Figueiredo
A Paraíba tem potencial para ser um grande produtor de ostras, mas faltam políticas públicas para viabilizar uma ampliação da produção atual. O estuário do Rio Mamanguape, na altura do município de Marcação, brejo paraibano, foi apontado pelo projeto Sebrae Aquinordeste como um dos maiores potenciais do Nordeste para o cultivo do molusco. O projeto foi criado em 2013 com o objetivo de ajudar cada estado a descobrir e desenvolver suas vocações na área de aquicultura, trabalhando com tilápia, tambaqui e ostra.

Além dessa região paraibana, os estuários da Lagoa de Guaraíras, em Tibau do Sul, e do Rio Curimataú, em Canguaretama, ambos municípios do Rio Grande do Norte, também foram identificados com grande potencial na área.

“Investigamos a viabilidade ambiental com a implementação de algumas unidades demonstrativas, que levantaram indicadores zootécnicos de crescimento, mortalidade, sobrevivência, tempo de produção, quantas safras dá para fazer por ano. A ostra tem um tempo de produção longo, de 10 a 14 meses. Então, levamos cerca de um ano e meio para concluir esse levantamento inicial. Guaraíras tem melhores dados de crescimento, já Marcação tem melhores dados de sobrevivência”, comentou o engenheiro de pesa e consultor do Sebrae, Rui Trombeta.

O projeto não só avaliou o potencial desses locais, como a possibilidade de usar sementes de ostras geradas em laboratório para o cultivo. Para isso, o Sebrae fez parceria com o laboratório da fazenda Primar, localizado em Tibau do Sul, onde as sementes são produzidas.

“O principal entrave hoje da produção de ostras é a falta de semente”, disse Rui Trombeta. Segundo ele, cultivar ostras a partir da forma jovem (chamada de semente ou larva) é importante para dar fôlego ao meio ambiente, possibilitar a ampliação da produção e também escalonar para que haja sempre oferta.

Ele explicou que, sem as sementes, não é possível sequer ter uma perspectiva da produção. “Como estimular a criação de peixe sem o alevino? Ou o cultivo de soja sem a semente?”, comparou. Desde o início do projeto e até o final do ano, mais de um milhão de sementes serão usadas.

500 mil ostras são produzidas no RN

A Associação dos Produtores de Ostras do Rio Grande do Norte (Aproostras) atualmente tem uma produção de 500 mil ostras ao ano. Este número, porém, não seria possível sem o uso das sementes, conforme explicou o vice-presidente da associação, Rafael Amaro. “Com um valor X, que a gente comprava mil, agora a gente compra cinco mil larvas. Foi muito vantajoso a gente trabalhar com essa ostra de laboratório”, avaliou.

Rafael contou que dá trabalho deixar as ostras em tamanho de comercialização. “Mas a vantagem é que a gente está trabalhando de modo sustentável, não está denegrindo o meio ambiente”, afirmou. Ele contou que os 15 associados da Aproostras adquiriram sementes em janeiro, que chegaram com cerca de 2 mm. Hoje as ostras estão com aproximadamente 60 mm e ainda devem levar de três a quatro meses para atingirem o tamanho ideal.

Segundo Rodrigo Domingos, presidente da associação, a partir de 70 mm de comprimento já é possível comercializar as ostras na praia, direto para o consumidor final. Já os restaurantes, que correspondem a 10% dos clientes da associação, exigem ostras maiores, de cerca de 100 mm.

Além da sustentabilidade, Rafael citou que outra vantagem das ostras de laboratório é que elas não têm a marca característica das ostras de mangue. “Muita gente que entende de ostra já não quer comer ostra de mangue, porque nem todas são próprias para o consumo devido à poluição no ambiente em que cresceram. Para a comercialização para o consumidor final você pode alegar a qualidade da sua ostra, mostrando que ela é criada em laboratório. Nossa área é propícia e os fiscais vêm fazendo análise para a gente ter qualidade melhor”.

O associativismo permitiu aos produtores viverem exclusivamente do cultivo de ostras. “Temos três associados que têm outras atividades, mas o resto vive só de ostra”, contou Rafael. Isso porque os associados criaram um cronograma de produção para que sempre haja ostras disponíveis.

Atividade na Paraíba ainda está limitada

De acordo com Rui Trombeta, o projeto acabou se desenvolvendo muito no Rio Grande do Norte, porque Sebrae-RN conseguiu parceiros para implementar as estruturas de cultivo, coisa que não ocorreu na Paraíba.

Embora o projeto tenha ocorrido bem em Marcação, os produtores locais não têm capital inicial para investir na estrutura física, as mesas de cultivo, travesseiros, telas e balsas de manejo. Os produtores da Aproostras, por outro lado, já estão comprando as sementes com capital próprio. “É isso que queremos. Orientamos por um tempo para que depois eles possam caminhar com as próprias pernas”, disse Rui.

“Na Paraíba, falta uma política pública, alguém que se interesse em investir ali, para que eles possam começar a usar as sementes”, enfatizou. Atualmente a produção em Marcação vem apenas do extrativismo e por isso mesmo é limitada, mas o consultor do Sebrae passou 18 meses avaliando o potencial da área e orientando alguns produtores, de modo que muitas práticas foram melhoradas.

Relacionadas