segunda, 24 de junho de 2019
Economia
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Jovens são imaturos para gerir dinheiro

Ellyka Gomes / 12 de maio de 2019
Foto: Rafael Neddermeyer/Fotos Públicas
Embora oito em cada dez jovens com idade entre 18 e 24 anos garantam ter alguma fonte de renda, a maioria é imatura na hora de gerir o próprio dinheiro. Um estudo recente revelou que 56% dos entrevistados cedem aos impulsos quando querem comprar algo. Outros 47% perdem a noção de quanto podem gastar com atividades de lazer e 32% admitem que a forma como gastam o dinheiro já foi motivo de brigas com pais, familiares ou cônjuge.

A pesquisa foi realizada pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Foram ouvidos 801 jovens com idade entre 18 e 24 anos em todas as capitais brasileiras. Esse grupo faz parte da Geração Z - nascidos entre 1995 e 2010 - a primeira a crescer e chegar à vida adulta tendo acesso online e instantâneo a grandes quantidades de informações.

Apesar disso, 53% dos entrevistados disseram que colocam o dinheiro na poupança - uma modalidade de investimento pouco rentável, segundo especialistas. Quase um terço guarda os rendimentos em casa, enquanto que outros 20% na conta corrente. Entre os que não guardam nenhuma quantia, o principal motivo apontado foi o fato de nunca sobrar dinheiro (51%). Outros 22% disseram não tem disciplina para juntar dinheiro.

Quatro em cada dez entrevistados já estiveram com o nome negativado (37%). Ao comentar as razões para os compromissos financeiros não pagos, os jovens mencionam a perda do emprego (24%), o fato de não terem planejado os gastos ou terem gasto mais do que podiam (21%) e o empréstimo do nome para terceiros (20%).

O que dizem especialistas.

Os especialistas ouvidos pelo jornal CORREIO foram unânimes: a educação financeira é a grande aliada para reduzir o número de jovens com problemas financeiros. O dinheiro precisa deixar de ser um tabu. Famílias, escolas e universidades precisam falar sobre o assunto. Porque se o jovem começa a vida financeira endividado, sem aconselhamento sobre como reverter a situação, dificilmente ele será um adulto que gere com eficiência suas finanças.

O administrador Jean Marcio De Mélo, planejador financeiro CFP® pela Planejar - Associação Brasileira de Planejadores Financeiros, ressaltou que a falta de educação financeira, frente aos desafios como a limitação de benefícios previdenciários ou à maior expectativa de vida da população brasileira, impõe uma agenda urgente para se abordar a questão. “Em uma escala maior [os jovens adultos endividados], essa situação pode comprometer o próprio desenvolvimento do país”, destacou.

O presidente da CNDL, José Cesar da Costa, comentou que, embora a crise econômica e desemprego elevado ajudem, em parte, a explicar as dificuldades financeiras dos jovens, é preciso investir na formação e na educação financeira dessa parcela da população.

“Todos precisam ter objetivos”



“Os jovens precisam ter objetivos financeiros claros e aprender a controlar o imediatismo e os impulsos de consumo, evitando gastos excessivos desde cedo para que não se tornem hábitos e comprometam a saúde financeira e as metas futuras”, destacou José Cesar da.

O economista Sinézio Fernandes Maia comentou que nem todo endividamento é ruim, mas sim aquele proveniente do impulso de consumir. “Esse desequilíbrio emocional aliado ao acesso facilitado ao crédito representa um sintoma de uma doença cultural: a falta do planejamento financeiro”, declarou. “Precisamos de rigoroso programa planejado de médio e longo prazo, tanto por parte dos ofertantes de créditos, que podem ser mais responsáveis na análise de crédito e gestão de risco, como por parte dos programas de educação financeira nas escolas e nas universidades”.

Orientação na UFPB



A auxiliar administrativa Jane Pontes, 21, faz parte de uma estatística preocupante. Ela está entre os jovens com idade entre 18 e 24 anos que estão endividados. São pessoas que estão iniciando a vida adulta e já estão atolados em dívidas. No Brasil são quatro milhões de jovens nessa situação, segundo dados do SPC Brasil. O grupo representa 6,26%, em um universo com mais de 62,6 milhões de inadimplentes no País.

A principal dívida de Jane é com o cartão de crédito. O dinheiro de plástico consome quase 80% de sua renda. Até as compras do supermercado e e energia são pagas com o cartão. “Depois que eu pago a fatura, não sobra quase nada”, revelou. “A situação chegou nesse ponto como uma bola de neve”, contou, que, apesar da pouca idade, é quem administra as finanças da família.

A mãe de Jane, Rosilene Maria, que até então nunca tinha administrado o orçamento da casa, precisou assumir a responsabilidade quando o marido, Manoel Severino, morreu em 2014. Rosilene contraiu empréstimos, perdeu o controle financeiro e acabou entrando para o cadastro de inadimplentes. Para que a família voltasse a consumir, Jane fez um cartão de crédito em seu nome.

Como ela também não tinha educação financeira, acabou acumulando dívida de R$ 2 mil no cartão. A jovem afirmou que sente uma grande aflição diante da responsabilidade. “É uma situação complicada. Em uma empresa, os gestores agem com a razão... O que tem que ser cortado, é cortado e ponto. Mas na família é diferente... É sempre difícil definir o que é prioridade”, comentou.

Jane estuda Administração no Centro Universitário de João Pessoa (Unipê). E foi na faculdade que ela conheceu o Projeto Sala de Ações do Departamento de Economia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). O Programa de Extensão, coordenado pelo professor Sinézio Fernandes Maia, além de promover o debate acadêmico sobre assuntos financeiros, oferece consultoria gratuita ao público.

O projeto atende todos os tipos de consumidores, desde os que querem quitar as dívidas, como os buscam orientações sobre investimentos. Jane ainda está nas primeiras reuniões, mas está decidida a resolver o problema financeiro da família. “O primeiro passo para sair desse sufoco já foi dado. A gente tem o plano de sair da casa onde moramos para uma maior. Mas sabemos que isso só será possível quando o orçamento estiver no azul”, declarou Jane.

Serviço

Sala de Ações do Departamento de Economia da UFPB: oferece consultoria financeira gratuita ao público.

salaacoes@yahoo.com.br

(83) 98854 5443

(83) 98676 5545

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