sexta, 15 de janeiro de 2021

Economia
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Inadimplentes reclamam que bancos dificultam pagamento de dívidas que acumularam

Celina Modesto / 31 de janeiro de 2017
Foto: Divulgação
Uma das recomendações de especialistas para quem está inadimplente é a renegociação das dívidas junto às concessionárias de crédito. No entanto, o que fazer quando, mesmo tentando, o consumidor não consegue renegociar o débito? Pesquisa do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), divulgada nesta segunda-feira (30), apontou que mais de 60,8% dos consumidores tentaram e não conseguiram renegociar a dívida com o banco. Por sua vez, os bancos afirmaram ter políticas de tratamento ao endividamento e oferecer possibilidade de renegociar todas as dívidas mesmo sem atraso.

A incoerência dos discursos entre a prática relatada por consumidores e bancos é apontada pela pesquisa. No total, foram entrevistados, por meio de questionários online, 1.815 consumidores, além de cinco bancos responsáveis por 80% das operações de crédito no país: Banco do Brasil, Itaú, Caixa Econômica Federal, Santander e Bradesco.

Os principais motivos relatados pelos consumidores para não conseguirem renegociar a dívida são: transferência do débito para outra empresa (29,1%); consumidor não consegue novo prazo para pagar (27,3%); e banco não renegocia dívidas cujo pagamento ainda não está em atraso (24,2%).

Em relação à capacidade de pagamento, 56,7% dos entrevistados afirmaram que o banco, além de não fazer a avaliação, impôs novas condições de pagamento que tornaram a dívida ainda mais difícil de ser quitada pelo devedor. Também, 40,4% afirmaram que, embora tenham tentado, os bancos não deram escolha a não ser aceitar a proposta feita pelo banco. Por sua vez, de acordo com a pesquisa, “os bancos afirmam oferecer a possibilidade de renegociação e mecanismos de repactuação quando a iniciativa é do cliente e também possuem política de gestão preventiva com objetivo de auxiliar os clientes”.

Banco se nega a dar desconto

A estudante Danielle Carvalho tinha uma dívida de R$ 1.280 com um banco e tentou renegociar o valor a ser quitado, mas a instituição financeira não aceitou. “Eu tinha uma quantia um pouco maior que o valor da dívida na minha conta. Quando liguei, eles se recusaram a dar qualquer tipo de desconto. Saquei mais da metade do meu dinheiro e liguei novamente. Eles continuaram se recusando a dar desconto no pagamento”, contou.

De acordo com a estudante, mesmo tendo oferecido pagar à vista, o banco não quis renegociar. “Acabei pagando um valor de negociação, que era bem menor do que a metade e regularizava a situação do meu nome, mas impossibilita minha conta de fazer empréstimo ou ter cheque especial. Com a negociação, paguei R$ 480. Caso algum dia eu queira retomar uma relação completa com o banco, devo pagar a dívida por inteiro”, afirmou.

De acordo com a pesquisa do Idec, entre os consumidores que conseguiram renegociar a dívida, 45,2% tiveram de ir diretamente ao banco; 22,6% conseguiram renegociar pelo site do banco e 14,8% só conseguiram mediante ajuda do Procon. Por sua vez, os bancos informaram ao Idec que as renegociações por meio de órgãos de defesa do consumidor respondem por uma parcela mínima dos acordos firmados. Segundo eles, “para evitar o acionamento desnecessário desses órgãos, as condições de renegociação são as mesmas oferecidas pelos canais do próprio banco”.

Entre os consumidores que conseguiram renegociar a dívida, 40% estão pagando em dia, 17,3% afirmaram estar pagando com atraso e ter se endividado novamente e, ainda, 16,2% disseram ter quitado algumas parcelas e terem sido negativado mais uma vez.

Respostas genéricas

Questionadas pelo Idec, as instituições não apresentaram respostas efetivas, principalmente sobre a transferência das dívidas para escritórios especializados em cobrança. Conforme explicou a economista do Instituto e responsável pela pesquisa, Ione Amorim, “as respostas são genéricas e contrastam com o que dizem os consumidores”.

Em estudos anteriores, o Idec já havia notado o estímulo e a banalização da oferta de crédito por parte dos bancos. Neste cenário, em vez de solucionar o problema, geram um novo ciclo de inadimplência. “Os frequentes acordos firmados com repactuação e alongamento da dívida, se apresenta como a única alternativa oferecida pelas instituições para solucionar o problema do endividamento”, afirmou a economista.

Com relação às políticas para o combate ao superendividamento dos clientes, todos os bancos disseram que adotam essa prática. Mas o Idec constatou durante a pesquisa que 46% dos consumidores não tiveram nenhum tipo de orientação a respeito. Apenas 0,7% mencionaram ter participado de oficinas promovidas pelas instituições sobre o assunto.

Amorim apontou que faltam iniciativas neste sentido e também alternativas para a fase seguinte, no momento em que o endividamento já está consolidado.

Bases desfavorecem consumidor

A economista do Idec e coordenadora da pesquisa, Ione Amorim, afirmou que a renegociação das dívidas é a segunda maior causa de reincidência de inadimplência, conforme dados do Banco Central. “Quando a segunda linha de crédito que mais apresenta inadimplência é a de renegociação de dívida, significa que as bases em que essa renegociação é feita não são favoráveis ao consumidor, já que ele acaba voltando ao atraso e negativação do nome”, alertou.

Além disso, conforme a pesquisa, metade das pessoas que renegociou a dívida junto a uma instituição bancária está com o nome “sujo” de novo. “É um cenário ruim porque mostra que o ambiente de renegociação não favorece a quitação das dívidas. Também, as regras ficam mais duras para quem precisa renegociar novamente. Outra reclamação dos consumidores é que os bancos vendem as dívidas a escritórios especializados e nem sequer são avisados. Esses escritórios são ainda mais inflexíveis, o que gera frustração em quem tem a boa-fé de buscar o banco para saldar a dívida. O consumidor acaba aceitando condições difíceis de acordo porque os bancos não dão outras opções durante a renegociação”, afirmou Amorim.

 

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