terça, 16 de julho de 2019
Economia
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Expofeira Tambaú renasce cinco meses após incêndio, em João Pessoa

Halan Azevedo / 27 de março de 2019
Foto: Nalva Figueiredo
Um incêndio criminoso que terminou em cinzas. Mas dessas cinzas veio à esperança e o renascimento de uma fênix. Assim é a história recente da Expofeira Tambaú, uma das mais tradicionais e frequentadas feiras de artesanato de João Pessoa, que foi quase totalmente destruída durante um incêndio ocasionado em um assalto praticado por dois adolescentes em 30 de outubro de 2018.

O crime aconteceu quando os suspeitos invadiram a feira horas após ela encerrar as atividades. Eles colocaram fogo em um pedaço de pano para iluminar o local e facilitar o roubo. Contudo, o pano queimou muito rapidamente e um dos adolescentes ateou o objeto em uma das lojas, que incendiou.

O fogo se alastrou e destruiu totalmente 39 das 42 lojas. Os suspeitos foram apreendidos minutos após o incêndio enquanto tentavam fugir pelo mar em Tambaú.

Cinco meses após a tragédia que afetou mais de 100 famílias, entre artesãos, fornecedores de produtos, vendedores e empresários, o local renasceu e vem retomando as atividades, movimentando o comércio da orla, entregando emprego e renda a quem antes teve prejuízos incalculáveis.

Da roça para a oficina



Uma das comerciantes mais antigas e populares da Expofeira é Maria Daguia Gomes, proprietária da loja Daguia Variedades. De origem humilde, Daguia nasceu no município de Esperança, que fica no Agreste paraibano, a 150 quilômetros da Capital.

Acostumada com o trabalho desde jovem, Daguia começou a mexer com artesanato aos 16 anos, em uma oficina de artesãos em Esperança, logo após largar a agricultura.

“Sou artesã há 39 anos, mas antes eu era agricultora. Nasci no pesado, trabalhando na enxada. Fiz só até o primeiro ano do segundo grau porque tive que deixar de estudar para trabalhar e ajudar os meus pais na roça. Depois, fui para a oficina de artesanato onde aprendi crochê, costura, pintura, bordado, biscuit e fazer montagem. Foi lá onde eu aprendi tudo sobre artesanato. Mas, como não tinha emprego saí pelo mundo com os meus irmãos para sobreviver”, contou Daguia.

Nas andanças pelo Brasil, Daguia morou em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Velho, destinos comuns entre os retirantes nordestinos que buscavam oportunidade de vida. Lá, ela trabalhou como vendedora e como artesã. Da renda que conseguida, parte era enviada para os pais para ajuda com as despesas de casa.

Esperança de vida melhor



O retorno para a Paraíba se deu em 1989, quando Daguia voltou a morar em Esperança. Coincidentemente, foi em busca de esperança de melhorar de vida que ela se mudou para João Pessoa em 1994.

Como Daguia mesmo disse, veio à Capital “com a cara e a coragem”, sem um tostão no bolso, mas com o coração cheio de vontade de um futuro melhor. No início, Daguia trabalhou junto com uma prima, costurando vestidos e confeccionando chapéus que eram vendidos na beira da praia.

Com o tempo, ela deixou de vender as peças na beira-mar e montou uma lojinha improvisada nas proximidades da Feirinha de Tambaú, ponto turístico e de comercialização de artesanato e gastronomia em João Pessoa. Em 2008 a artesã foi retirada do local pela prefeitura, já que a Feirinha estava passando por reformas, e recebeu a promessa de que seria contemplada com um novo espaço para comercializar seus produtos. Mas, a promessa não foi cumprida pela Poder Público e Daguia ficou sem local de trabalho.

“Acabei ficando sem box para trabalhar e fui realocada para o estacionamento do Centro Turístico. Trabalhei por lá durante alguns anos, no sol e na chuva, montando e desmontando minhas coisas todos os dias. Foram dias difíceis porque a prefeitura sempre me prometia um canto para trabalhar, mas tudo ficou na promessa. Depois eles me tiraram de lá de uma vez, sem avisar nem nada. Fiquei desesperada. Em 2011 me indicaram a Expofeira, que estava começando a funcionar, e resolvi tentar a sorte. Acabou que deu muito certo e estou aqui até hoje”, afirmou Daguia.

Procura

Foi na Expofeira que Maria Daguia Gomes conseguiu se firmar como artesã e empresária. Com ajuda de empréstimos conseguidos através de programas de microcrédito da Prefeitura e do Estado, ela desenvolveu seu comércio e o que no início era apenas um box se transformou em uma loja que ocupava quatro espaços.

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Atualmente, a Expofeira abriga 35 lojas. No local, são vendidas peças de artesanato que vão desde carrinhos de madeira, objetos de decoração feitos de barro, cerâmica e palha, bolsa, carteiras, chapéus e sandálias de couro, redes e roupas, além de produtos regionais de alimentação, como a cachaça, queijos e a carne de charque.

Anos de trabalho interrompidos



Porém, os oito anos de trabalho duro foram interrompidos com o incêndio. Na madrugada do ocorrido, Daguia estava dormindo em casa quando foi acordada com um telefonema de um amigo, avisando sobre o fogo. Desesperada, ela saiu às presas da residência, que fica no bairro de Mangabeira, e junto com o filho atravessou a cidade e foi até a Expofeira, que já estava praticamente destruída.

“Era 1h15 quando meu colega ligou perguntando se eu estava bem e disse que a feirinha onde eu trabalhava estava pegando fogo. Eu me assustei e disse “não, pelo amor de Deus” e desci desesperada para lá. Quando cheguei só vi a fumaceira e os adolescentes apreendidos pela polícia. Tinha esperança de que ainda encontraria a lojinha intacta, mas estava toda destruída. Perdi tudo”, relatou Daguia.

No incêndio, Daguia e os outros comerciantes atingidos pela tragédia perderam além de toda a mercadoria armazenada nas prateleiras e balcões também os estoques que estavam guardados dentro das lojas já que era antevéspera do feriado, época onde a Expofeira contabiliza intensa visita de turistas.

Horas após o incêndio, Daguia era uma das únicas comerciantes do local que já estava com as ‘mãos nas cinzas’, recolhendo entulhos, varrendo o chão e limpando paredes, tentando encontrar um recomeço onde só havia destruição.

Empréstimo emergencial



Aliada a força de vontade e garra para voltar a vencer, os comerciantes receberam apoio do programa Empreender Paraíba, desenvolvido pelo Governo do Estado, que disponibilizou empréstimos emergenciais para a reestruturação das lojas.

Em novembro de 2018, 29 comerciantes assinaram contratos de empréstimo com o programa, que disponibilizou um total de R$ 200 mil. Os empréstimos foram parcelados em 36 meses e começam a ser pagos a partir de maio deste ano.

“A nossa intenção em atender os comerciantes foi dar o apoio financeiro para que eles pudessem sair da situação vulnerável em que se encontravam, em um período de alta estação e com a perda de grande parte de suas mercadorias. Fizemos um atendimento emergencial diante da catástrofe, cumprindo o caráter social do programa”, afirmou o Chefe de Gabinete do Empreender Paraíba, Fabrício Feitosa.

O Programa Empreender PB tem como prioridade a concessão de crédito produtivo e orientado com o objetivo de incentivar a geração de emprego e renda entre os empreendedores paraibanos, bem como apoiar e fortalecer a economia solidária, o microempreendedor individual, o microempresário, o empresário de pequeno porte e as cooperativas de produção do Estado da Paraíba.

Além do Empreender PB, os comerciantes devem receber novos apoios em breve. Segundo a assessoria de comunicação do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas na Paraíba (Sebrae-PB), um contato vai ser feito com os comerciantes para oferta de capacitações e consultorias, além de orientações empresariais e de melhoria de produto.

Do recomeço ao futuro. Foi com o auxílio do microcrédito que Daguia pôde começar a se reestruturar. Além disso, o apoio de fornecedores foi fundamental para a guinada rápida no retorno aos trabalhos.

“Peguei R$ 6,9 mil com o Empreender. Não foi muito, mas me ajudou. Recebi muito apoio dos fornecedores, que me cediam mercadorias para que eu pagasse depois. Ainda estou devendo, mas está tudo em dia. Estou conseguindo pagar as contas sem agonia”, falou Daguia.

Agora, a expectativa é de seguir crescendo cada vez mais com a loja reconstruída. “Tudo que eu tenho devo ao artesanato. Tenho minha casinha, meu carrinho, pago o aluguel do meu espaço na feira, os salários de dois sobrinhos e uma amiga que trabalham comigo e o que sobra a gente investe no futuro do filho, que está se formando em Engenharia Mecânica”.

 

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