segunda, 14 de outubro de 2019
Economia
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Estresse causado pelo calor vai se tornar um obstáculo para os setores econômicos

Ellyka Gomes / 07 de julho de 2019
Foto: Nalva Figueiredo
Um trabalhador interromper a atividade por algumas horas porque está muito quente pode parecer irrisório. Mas, em grande escala, essas pausas geram queda de produtividade e amplas perdas econômicas. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) alertou, em relatório divulgado no último dia primeiro, que o estresse causado pelo calor vai se tornar um obstáculo para os setores econômicos nos próximos anos. Isso porque as mudanças climáticas estão aumentando gradualmente a temperatura do planeta.

A estimativa é de que o prejuízo para economia global cresça ano a ano, alcançando, até 2030, o montante de U$$ 2,4 bilhões. O material foi divulgado na mesma semana em que o serviço europeu Copernicus sobre mudança climática informou que a Europa teve o mês de junho mais quente da história, com temperaturas chegando aos 45,9°C.

Segundo a OIT, as regiões tropicais e subtropicais serão as áreas do planeta mais afetadas com o “estresse de calor”. Trabalhadores de todos os setores poderão sofrer com o fenômeno. No entanto, determinadas ocupações serão especialmente afetadas, por envolvem maior esforço físico e/ou são realizadas em lugares ao ar livre.

Agricultores, feirantes, pedreiros, mineradores e guias turísticos são algumas delas. No setor agrícola, as mulheres serão as mais prejudicadas com o fenômeno, enquanto que, na construção civil, serão os homens. O pedreiro Marcos Evangelista, de 38 anos, vem sentindo na pele os efeitos dessas mudanças no clima.

Já são 18 anos atuando na construção civil. “Antes, a gente aguentava trabalhar até 12h, que era quando o sol começava a esquentar mesmo. Hoje, por volta das 9h30, já está insuportável”, contou, afirmando que o lábio fica constantemente ressacado por conta da exposição ao sol. Marcos afirmou já passou mal por causa do calor. “Eu senti minha vista escurecendo... Eu suava muito, então parei um pouco, tomei água, até a visão voltar ao normal”, relatou.

Monitoramento desde 1995



São justamente essas pausas que, somadas, geram queda de produtividade para os setores econômicos. O relatório da OIT destaca que o mecanismo de defesa natural de um trabalhador contra o estresse térmico é retardar as tarefas, tornar mais longas e frequentes as pausas e/ou limitar o número de horas de trabalho.

A OIT vem monitorando o “estresse de calor” desde 1995. Naquele ano, 0,44% do total de horas trabalhadas no Brasil foram perdidas, ou porque estava muito quente ou porque o rendimento dos trabalhadores caiu em virtude do aumento da temperatura. Essa perda correspondeu a 314 mil empregos de tempo integral.

Em alguns setores, como agricultura e construção civil, o indicador de perdas foi maior: 1,21%. Para 2030, a projeção é que de o total de horas perdidas no Brasil chegue 0,84%, equivalente a 849 mil empregos de tempo integral.

Após certo limite térmico, as habilidades produtivas dos trabalhadores ficam comprometidas, porque os mecanismos internos de regulação do corpo não são capazes de manter a temperatura corporal em um nível adequado (em média 36°C). Como consequência, aumentam-se os desconfortos, as limitações das capacidades físicas e, em estado mais grave, o estresse de calor causa lesões e doenças, como erupção cutânea, cãibras e insolação potencialmente letal.

Médico faz alerta sobre o coração



O médico do trabalho Fernando Eduardo Rabelo Dias explicou para a reportagem do CORREIO o que acontece com o corpo de um trabalhador exposto em ambientes quentes “O débito cardíaco tem que aumentar [coração bate mais forte] em função do aumento da vascularização cutânea [vasos da pele] necessária para a perda de calor. O coração fica, portanto, sobrecarregado”, descreveu.

Com o esforço físico, a temperatura corporal se eleva, aumentando a produção de suor e, consequentemente, o risco de desidratação, pois o corpo perde mais água e sais minerais nessas circunstâncias. O médico destacou que calor influi diretamente no desempenho físico das pessoas, fazendo com que o cansaço apareça precocemente, inclusive, deixando-as mais irritadas.

“Quando o desconforto térmico é significativo, seja ao calor ou frio, a capacidade de concentração do trabalhador diminui, reduzindo o nível de produtividade e aumentando a probabilidade de acidentes”, destacou.

Procurador tem relatos na Paraíba



O procurador do Trabalho, Eduardo Varandas, afirmou ainda não há casos na Paraíba relacionados ao fenômeno “estresse de calor”. Mas existem denúncias que estão indiretamente ligadas ao tema. “Temos relatos de desconforto ambiental: trabalhadores que exercem suas atividades em ambientes fechados e sem acondicionamento adequado”, destacou.

“A Paraíba é um estado de clima quente, com uma temperatura média de 29 graus. Agora imagine quando essa média for 32 graus?! Ou se cria urgentemente mecanismos de proteção ao meio ambiente, para diminuir os efeitos do aquecimento global, ou o trabalho terá que ser resignificado com redução de jornada de trabalho”, ressaltou.

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