quarta, 03 de março de 2021

Economia
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Aumenta número de pessoas que querem independência e optam por morar sozinhas

Celina Modesto / 28 de maio de 2017
Foto: Arquivo
 

Deixar o conforto da casa dos pais ou optar por não dividir o apartamento com um colega de quarto parece ser impensável em tempos de crise na economia. No entanto, pesquisa realizada pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) que investigou os hábitos de brasileiros que moram só descobriu que 48% dos entrevistados decidiram viver sozinhos por vontade própria. E o número de pessoas que moram sozinhas aumentou nos últimos tempos.

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De acordo com a pesquisa do SPC Brasil, realizada em abril deste ano, para 51% dos respondentes a realidade não foi tão independente assim. Para estes, morar sozinho não foi uma escolha pessoal e sim uma consequência de algum acontecimento, a exemplo de morte do cônjuge (20%), separação (18%) ou saída dos filhos de casa (10%). De acordo com o censo demográfico realizado em 2010 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na Paraíba 108.482 pessoas moravam sozinhas – o número pode ter aumentado significativamente visto que esse é o dado mais atual do instituto.

Para muitos, morar sozinho pode ser sinônimo de solidão e mais gastos. Entretanto, o levantamento do SPC Brasil revelou que a experiência é vista de maneira bastante positiva por boa parte dos entrevistados. Tanto que quatro em casa dez (41%) brasileiros afirmaram que pretendem continuar morando sozinhos e, além disso, descartaram a possibilidade de dividirem a casa com outras pessoas futuramente.

Os sentimentos positivos ganharam destaque entre os entrevistados quando foram questionados acerca do principal significado de morar sozinho. Para 25%, morar só significa independência, enquanto 23% citaram sensação de liberdade e 12% disseram sentir paz. No entanto, associações a sentimentos negativos, tais como solidão (10%), tristeza (3%) e abandono (1%), também foram citadas pelos entrevistados.

Segundo dados oficiais do IBGE, mais de 10,4 milhões de brasileiros moram sozinhos atualmente, o que representa quase 15% de todos os domicílios do país. Para os especialistas do SPC Brasil, o aumento do número de pessoas que moram sozinhas está relacionado à atual fase de transição demográfica, com aumento da expectativa de vida e queda nas taxas de fecundidade.

“Há também outros processos sociais e culturais que contribuem para o crescimento desse número, como o aumento de divórcios e a redução da quantidade de casamentos. Sem mencionar as pessoas que, em determinada fase da vida, ainda jovens, tomam esta decisão em busca de independência, autonomia ou motivadas pelo desejo de estudar e trabalhar em outra cidade”, explicou a economista-chefe do SPC Brasil, Marcela Kawauti.

Maior medo é de não ter socorro

Morar sozinho não só tem vantagens. Os entrevistados foram bastante realistas ao apontarem as principais desvantagens de não ter com quem dividir o teto. O receio de se sentirem mal e não ter a quem pedir socorro foi apontado por 50% dos respondentes, seguido de perto pelo medo de não ter companhia para conversar (48%). Além disso, o medo de sofrer algum tipo de violência, a exemplo de assalto da residência, foi lembrado por 36% dos pesquisados e, por fim, 23% disseram temer o fato de não poder contar com ninguém para dividir as despesas domésticas.

Em relação aos principais benefícios de se morar sozinho, 50% dos ouvidos durante a pesquisa afirmaram que é ter privacidade, seguido da não obrigação de dar satisfação da própria vida (37%), poder realizar as atividades do dia-a-dia sem interferência de outros (30%) e ter a liberdade de receber visitas quando  bem entender (23%). Apenas 10% dos entrevistados disseram não enxergar nenhum ponto positivo no fato de morarem sozinhos.

Liberdade para gastar dinheiro

O levantamento revela que ser o único residente de uma casa traz impactos significativos na maneira com que o consumidor compra e lida com seu dinheiro. É quase um consenso: 72% dos entrevistados na pesquisa do SPC Brasil afirmaram que se sentem mais livres para gastar os rendimentos depois que passaram a morar sozinhos. Além disso, praticamente a metade (50%) admitiu que começou a desenvolver gostos mais refinados na hora das compras, optando mais vezes por produtos especiais e de melhor qualidade.

A investigação acerca dos hábitos de consumo dos brasileiros que moram sozinhos foi além e descobriu que as atividades de lazer preferidas são ficar em casa assistindo a filmes ou séries (43%), ouvir música (40%) e navegar na internet (30%). Ainda assim, 48% acreditam que têm uma vida social ativa e 28% costumam viajar a lazer.

O consumo de bebidas (20%), vestuário (20%) e saídas para bares, restaurantes ou casas noturnas (14%) são os tipos de gastos que quem mora sozinho mais realiza sem se importar em não comprometer as finanças, mesmo que de vez em quando. Outro dado é que parte considerável dos consumidores que moram sozinhos reconhece que não abre mão da comodidade dos serviços de delivery, sejam eles de entrega de comidas (29%), compras de supermercados (18%) ou de produtos de farmácias (37%).

Pelo menos 59% dos entrevistados disseram que os supermercados concentram a maior parte das compras realizadas, mesmo que não sejam para necessidades básicas. Outros locais que eles também costumam frequentar são as padarias (52%) e as farmácias ou drogarias (43%). Apenas 27% admitem o hábito de fazer compras pela internet, sendo que neste caso os produtos mais comprados são artigos do vestuário (12%).

No momento de definir o local de compra, os fatores que mais pesam para esse tipo de consumidor são o preço (59%), a qualidade dos produtos (41%) e as ofertas e promoções (41%). Na maioria das vezes, as compras são pagas à vista (83%), seja no dinheiro (71%) ou no cartão de débito (11%). Outros 16%, por sua vez, preferem o cartão de crédito.

“Sou muito feliz morando sozinho”

O engenheiro André Moreau mora sozinho há três anos num edifício no Centro da capital e é taxativo ao afirmar que é muito feliz dessa forma. “Decidi morar sozinho porque me dou muito bem comigo mesmo, mas antes morava com um amigo. Sinto falta de dividir as refeições, tanto na parte da compra como no preparo, além da companhia de outra pessoa às vezes”, contou. Para ele, a questão da comida é a que mais pesa em relação a quando morava com a família ou quando dividia o apartamento. “Ter alguém que cozinha também, porque muitas vezes dá preguiça de ter que ficar fazendo comida o tempo todo”, disse o engenheiro.

Os principais hábitos de entretenimento de Moreau estão em consonância com pesquisa do SPC Brasil, que aponta que os filmes (52%) são o tipo preferido para quem busca se divertir, seguido de novelas (38%) e humor (35%). “(Meus principais hábitos são) Ver filmes e séries, escutar música, receber visitas e jogar jogos online. O que mais gosto (de morar sozinho) é a liberdade de fazer o que quiser a hora que quiser. O que menos gosto é ter que ficar na função de limpeza e alimentação sozinho”, relatou.

O professor de Economia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Alysson Cabral, lembrou que não há como escapar de gastos com água, luz, internet, aluguel e condomínio, por exemplo. “A recomendação, que vale também para quem divide o espaço com alguém, é seguir as dicas de uso racional de água e luz. Quem possuir internet banda larga e TV por assinatura, procurar um pacote básico que atenda satisfatoriamente às necessidades. No caso da alimentação, se organizar com o cardápio para evitar desperdício, acondicionar corretamente o alimento que será congelado”, recomendou.

Ele também enumerou os principais gastos de quem mora sozinho. “A prioridade são os gastos fixos da residência, tais como água, luz, aluguel/condomínio, e os essenciais, como alimentação e higiene. Na nossa sociedade, tornam-se necessários também gastos com comunicação, como telefonia e internet, e transporte. Quem está pensando em morar sozinho, deve fazer um planejamento para avaliar se vale a pena mesmo assumir as despesas de uma casa sozinho. Não se deve deixar de considerar ainda uma reserva financeira para os gastos imprevistos, como remédio, conserto de um bem e manutenção da casa”, frisou Cabral.

56% preparam a própria refeição e 19% se alimentam fora de casa

O levantamento do SPC Brasil ainda demonstra que o mercado precisa atender melhor aos consumidores que moram sozinhos. Faltam opções de compras para quem não divide o lar, o que pode potencializar gastos e prejuízos. De acordo com a pesquisa, 44% desses indivíduos têm dificuldade em evitar que alimentos estraguem na geladeira ou na despensa, ao passo que 42% sentem dificuldades em encontrar produtos que tenham a quantidade adequada para quem mora sozinho.

Dessa forma, o levantamento mostra que 90% dos entrevistados evitam ao máximo o desperdício de alimentos, procurando fazer compras mais planejadas. Além disso, cozinhar a própria refeição é um hábito presente para a maioria das pessoas que vivem só: 56% delas admitem cozinhar o que comem no dia a dia, principalmente as mulheres (75%). Os que se alimentam na maior parte das vezes fora de casa, como em restaurantes, somam 19% de entrevistados, sendo um comportamento mais frequente entre homens (29%) e pessoas mais jovens (30%). Um em cada quatro entrevistados gostaria de contar com a ajuda de uma empregada doméstica (23%) ou faxineira (22%) para realizar atividades do lar, mas não o fazem por falta de dinheiro.

Comprar um carro ou uma moto (24%), fazer uma viagem (15%) ou adquirir a casa própria (15%) são os três principais sonhos de consumo para 2017 do brasileiro que vive sozinho. No geral, quatro em cada dez (42%) brasileiros que moram só vivem em residências alugadas. Embora a maioria dessas pessoas tenha planos em mente, apenas 35% admitem fazer algum preparo financeiro para alcançar seus objetivos. Nesse caso, os meios mais comuns de planejamento são usar uma reserva financeira que dispõem (14%) ou utilizar algum dinheiro que esperam receber de terceiros (13%).

“Do ponto de vista financeiro, as dificuldades são assumir sozinho os gastos fixos da residência, o que deve comprometer mensalmente uma parcela importante da renda. Há vantagem se, na situação anterior, o indivíduo estava assumindo gastos de outrem. Mas, numa situação normal, compartilhar o espaço com cônjuge, parentes ou amigos é mais econômico do que morar sozinho. Contudo, se a pessoa considerar a liberdade e a privacidade de se morar sozinho como ganhos econômicos, então é possível que estes superem esse custo mais elevado de ter um lar só seu”, resumiu o professor Alysson Cabral.

Rendimento médio é de quase R$ 2.200

A maioria dos entrevistados que moram sozinhos são solteiros (42%), mas também há percentuais relevantes de indivíduos separados ou divorciados (29%) e viúvos (25%). Há ainda uma parcela de 2% dos entrevistados casados ou em união estável que vivem em casas separadas (2%). De modo geral, de acordo com a pesquisa do SPC Brasil, a média de idade observada entre as pessoas que moram sozinhas é de 52 anos, sem prevalência de gênero, uma vez que tanto homens, quanto mulheres representam cerca de 50% desta população. Quanto aos rendimentos, o valor médio mensal é de quase R$ 2.184, sendo que um terço dessas pessoas (33%) são aposentadas. Outros 27% vivem de trabalhos informais e 21% possuem carteira assinada.

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