quarta, 26 de junho de 2019
Economia
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A resistência da agricultura familiar no Litoral da PB

Katiana Ramos / 26 de abril de 2019
Foto: Dayse Euzébio e Assuero Lima
O Litoral da Paraíba é conhecido pelas belas praias que atraem milhares de turistas todos os anos. Há também aqueles que se apaixonam e vêm morar de vez no Estado, o que fomenta o mercado imobiliário. Na contramão de tudo isso e resistindo ao crescimento urbano estão os pequenos agricultores da região. O cultivo de raízes, frutas e hortaliças, continua mudando a vida de muitas famílias, que não precisam abandonar o campo para sobreviver.

Para conhecer a história de sucesso desses agricultores nem precisa sair de João Pessoa. No bairro do Gramame, Zona Sul da cidade, 53 famílias mantêm uma produção fixa de hortaliças e raízes. Em menos de três hectares para cada uma são cultivados produtos orgânicos que saem da terra direto para a mesa dos pessoenses, sem a figura do atravessador. Com um rendimento maior, a diversidade e investimentos na produção também melhoram. Dona Analice dos Santos mexe com a terra desde criança e viu de perto a evolução da produção na comunidade a partir de 2015. Casada com agricultor e mãe de seis filhos, a produção agrícola do sítio onde mora é a fonte de renda dela e do restante da família.

“Trabalho na terra desde menina, dos meus sete anos. Fui aprendendo com minha mãe e também no dia a dia. Passei para os meus filhos e, hoje, cada um tem seu pedacinho de terra para trabalhar. Graças a Deus até aqui nunca faltou nada pra mim, nem pra eles”, contou Analice dos Santos. Orgulhosa, ela conta que conseguiu se aposentar como agricultora este ano. Contudo, nem pensa em largar a enxada. “Ah, aqui eu só paro no dia que Deus quiser”, disse.

Manoel dos Santos observa atento o cuidado de Analice com as mudas de hortaliça e pimenteiras. Natural do município de Arara, no Agreste paraibano, ele se mudou para João Pessoa a cerca de 20 anos. Mas, assim como a esposa, a atividade agrícola nunca foi abandonada. “Fui criado na roça e criei meus filhos todos na roça. Quem quis estudar, se formar, estudou até onde quis. Alguns estudaram mais, ou menos. Mas, todo mundo vive daqui e até aqui estamos bem. Correndo atrás de melhorar as coisas. Cada um tem seu pedacinho de terra, produz, vende e tira o sustento”, detalhou o agricultor.



Cooperativas impulsionam desenvolvimento



A menos de três quilômetros do sítio de Manoel e Analice dos Santos está a casa de Josefa da Silva. Mãe de sete filhos, todos agricultores, ela integra a cooperativa dirigida por Manoel. “Criei todo mundo no cabo da enxada, como se diz no interior. Ninguém nunca passou fome e hoje tem do que viver, sustentar sua casa. Sou filha de agricultor e para mim a terra é a melhor coisa que tem”, afirmou Josefa da Silva, de 59 anos.

Evandro da Cunha, um dos filhos de dona Josefa, conta que participar da cooperativa tem ajudado a organizar melhor os custos da produção e melhorar a atividade. No terreno que possui, ele conseguiu comprar o kit de irrigação e pagar o empréstimo de crédito rural com facilidade. “Ajudou muito e a gente se organiza melhor. Aqui eu planto, milho, feijão, inhame, macaxeira. Até a diversificar as coisas a gente aprende”, disse o agricultor, que também envolve a esposa no cultivo da roça.

Além da organização da produção e aquisição de novos equipamentos, as cooperativas são aliadas no escoamento dos produtos com 100% do retorno das vendas para os agricultores. “As cooperativas são uma forma de organização importante para os pequenos agricultores. No caso dos agricultores familiares, são pessoas que vivem do excedente da terra, sustentam suas famílias em minifúndios, mostrando que é possível sobreviver do campo”, comentou o secretário da Produção, Trabalho e Renda da Prefeitura Municipal de João Pessoa, Flávio Araújo.

Um exemplo de apoio aos agricultores da Capital, incluindo também os cooperados, é o projeto Cinturão Verde. A iniciativa beneficia, atualmente, 250 famílias que vivem da agricultura, no limite do município. Na semana passada, a comunidade do Gramame, onde mora Manoel Santos, recebeu um trator, disponibilizado pela Secretaria, para a aração da terra. “Demos esse apoio para que eles pudessem aproveitar esse período das chuvas para plantar. O aluguel dessa máquina custa em torno de R$ 150 por hora. Sabemos que muitos aqui não teriam como arcar com esse custo”, revelou o secretário. Ele acrescentou ainda que a Secretaria da Produção, Trabalho e Renda do município oferece também apoio técnico e empréstimos para os pequenos produtores. Cada família pode requerer até R$ 8 mil por vez, por meio do Banco Cidadão.



Produtos são vendidos em feiras da Capital



Aos 31 anos, João Trajano é um exemplo de que não precisa necessariamente sair do campo para ter qualidade de vida e melhorar a situação financeira. Vivendo no campo desde que nasceu, ele aprendeu com o pai a lidar com a terra. No sítio onde moram, no município de Alhandra, no Litoral Sul do Estado, tem de maracujá, a macaxeira, alface, feijão, milho, batatas, acerola e coco verde. A diversidade de produtos é tanta que nem parece que o cultivo é feito em apenas 3,5 hectares de terra. O destino da produção dele é certa: o município de João Pessoa.

João Trajano é um dos 130 produtores rurais que vendem os alimentos na Central de Comercialização da Agricultura Familiar (Cecaf), localizada na Capital. Ele está no local desde 2015, vendendo o que produz e também os alimentos de outros dois irmãos, também agricultores. “Trabalho na terra desde que nasci. Me criei na agricultura. No começo, eu vendia tudo em casa e vi que estava tendo prejuízo. Depois que eu vim pra cá, melhorou muito o retorno e eu pude investir”, revelou o agricultor, que está em negociação com o Banco do Nordeste para adquirir um empréstimo e para a aquisição de equipamentos que ajudem na produção.

“O principal aqui é a geração de renda. Tem agricultor que, em 2015, trazia 40 quilos de alimentos. Hoje, traz dois mil quilos, ou seja, teve condições de mudar a vida econômica, adquirir veículo próprio, investir e aumentar a produção. Aqui eles têm o equipamento a disposição deles para que possam comercializar em um lugar favorável. A prefeitura tem direcionado ações para a agricultura familiar  e a Cecaf representa esse espaço”, afirmou Rogeany Gonçalves, coordenadora da Cecaf.

Ela lembrou ainda que outra vantagem da venda na Central é que os agricultores não precisam pagar a figura do atravessador, o que elimina mais um custo da produção. “Tinham agricultores que quando chegaram aqui não tinham carro, sistema de irrigação. A partir do momento em que eles eliminaram a figura do atravessador, melhoraram a renda, puderam qualificar o espaço onde produzem. Eles vem ao município de JoãoPessoa, vendem, e injetam recursos nos municípios onde produzem”, destacou.



Números da Cecaf



130 agricultores atendidos, vindos de 28 municípios da Paraíba

736 toneladas de alimentos comercializados em 2018

Fonte: Secretaria de Desenvolvimento Urbano (Sedurb)

Recursos



Somente o Banco do Nordeste disponibilizou, em 2018, R$ 53,6 milhões de crédito para atividades agrícolas na Paraíba desenvolvidas por mini, pequenos e médios agricultores. Os recursos são provenientes do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE).

Na Capital, a Secretaria Municipal de Produção, Trabalho e Renda, disponibilizou este ano, por meio do Banco Cidadão, R$1,2 milhão para os agricultores atendidos pelo programa Cinturão Verde. A iniciativa atende produtores rurais que trabalham nos bairros de Gramame, Paratibe, Cuiá e Valentina Figueiredo. O objetivo é trabalhar a agricultura familiar com a sustentabilidade.



 

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