quarta, 12 de maio de 2021

Defesa à mulher
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Secretaria de Desenvolvimento lança campanha contra violência psicológica

Lucilene Meireles / 28 de novembro de 2018
Foto: Divulgação
De cada cem casos de violação aos direitos das mulheres na Paraíba, este ano, 26 foram de violência psicológica, segundo a Secretaria de Estado do Desenvolvimento Humano (SEDH), com base em dados dos Centros de Referência Especializados em Assistência Social (Creas). Apesar de alto, o número passa longe dos dados reais, já que muitos casos sequer chegam a ser denunciados. Para estimular as vítimas a quebrarem o silêncio, a Prefeitura de João Pessoa lançou, nessa terça-feira (27), a campanha ‘Ele não te bate, mas...’.

A ação alerta que uma relação não precisa atingir determinado nível de agressividade e desrespeito para ser considerada abusiva e violenta. “Esse tipo de violência não é visto, como a física, que deixa marcas visíveis. Quando a gente fala ‘Ele não te bate, mas...’, a gente deixa brecha para uma reflexão enorme. Ele não te bate, mas não deixa você sair de casa, não deixa você estudar”, analisou a secretária de Políticas Públicas para as Mulheres, da Capital, Adriana Urquiza.

Para ela, a mulher precisa reconhecer que está vivendo uma relação abusiva e que precisa tomar uma atitude para melhorar sua autoestima melhor. “O físico é horrível, mas a gente sabe que a dor na alma dói muito mais, acaba com a autoestima da mulher. Imagina o que é ficar ouvindo o tempo inteiro que é gorda, que é feia. Isso é violência psicológica”, acrescentou.

Campanha. A campanha será através das mídias sociais, da imprensa, da sociedade e até dos homens, formando uma grande rede. A secretária esclareceu que o município dispõe do Centro de Referência da Mulher, mas as denúncias devem ser feitas na delegacia especializada.

“Como esse tipo de violência é mais sutil, ela também pode procurar o Centro de Referência. Temos uma equipe multiprofissional para atender, com psicólogos, assistente social, advogados. Lá, a mulher vai começar a virar a página e refazer sua vida”, destacou a secretária e Políticas Públicas para as Mulheres da Capital, Adriana Urquiza.

1,4 mil

É o número de mulheres atendidas, em 2018, no Centro de Referência da Mulher de João Pessoa, por diversos tipos de violência, e muitas destas situações incluem a psicológica.

Difícil de ser detectada

A violência psicológica é a mais difícil de ser reconhecida, segundo Ana Sandra Fernandes, vice-presidente do Conselho Federal de Psicologia. Segundo ela, isso ocorre porque a ‘agressão’ aparece pouco na forma concreta, não deixa marcas físicas. A marca que ela produz é na subjetividade, nos afetos, nas emoções da mulher.

“Muitas vezes, a mulher demora para perceber que é vítima de violência psicológica. São situações sutis, em que gradativamente a pessoa vai sendo chamada, diariamente, de palavras que a desqualificam, como burra, feia, gorda. Há situações em que ela é proibida de sair, de vestir determinadas roupas, de ter relação com seus familiares, contato com outras pessoas e, aos poucos, o agressor vai privando a pessoa de uma vida interpessoal”, analisou.

Numa escala de gradação, conforme a psicóloga, essas agressões tendem a evoluir, o que pode resultar em agressão verbal, psicológica e, de repente, acontecer um empurrão, um aperto no braço, partindo para a violência física. A campanha é importantíssima para que a mulher tenha essa consciência de que essa situação de estar constantemente sendo subjugada é categorizada como violência, porque violência se dá de diversas maneiras.

Impacto. “A violência psicológica é muito grave pelas marcas que deixa. Pode resultar em situações de ansiedade, baixa autoestima e, de tanto ouvir que é incapaz, vai chegar o momento em que, talvez, a mulher comece a acreditar nisso”, observou Ana Sandra Fernandes.

Em sua avaliação, esse tipo de violência impacta diretamente na possibilidade da vítima se perceber como pessoa e seu valor. “É o tipo de violência, muitas vezes, silenciosa, mas que aniquila a subjetividade da mulher”, constatou.

Para ela, psicólogos devem estar preparados para atender essas mulheres e oferecer um atendimento de qualidade, que consiga alcançar a dimensão do problema enfrentado em razão do machismo, do preconceito. “A gente evoluiu bastante, mas ainda temos um caminho imenso para avançar”, completou. LM

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